A análise da morte mostrou que o Ser-um-todo do Dasein é ontologicamente possível e compatível com as estruturas fundamentais de seu modo de ser, mas permanece em aberto como tal possibilidade pode realizar-se concretamente na cotidianidade inautêntica dominada pelo impessoal [das Man].
Torna-se necessário identificar as raízes ônticas dessa possibilidade ontológica, isto é, encontrar um testemunho existencial que ateste a realizabilidade efetiva da autenticidade teoricamente descrita.
Na cotidianidade média, o Dasein encontra-se perdido de si mesmo, de modo que a conquista da autenticidade exige um reencontro consigo.
Tal reencontro só pode iniciar-se quando o Dasein reconhece possuir um si mesmo a ser encontrado, superando a repressão de sua própria possibilidade de individualidade autêntica.
A possibilidade da individualização autêntica deve, portanto, manifestar-se de um modo que rompa a inautenticidade cotidiana.
A consciência é identificada por Martin Heidegger como o fenômeno existencial que dá testemunho dessa possibilidade.
As interpretações religiosas, psicanalíticas ou sociobiológicas da consciência não são nem aceitas nem rejeitadas, mas reconduzidas ao fundamento ontológico que torna possível a experiência a que todas elas se referem.
A consciência é compreendida como a realização existencial da capacidade originária do Dasein de desvelar-se como perdido e de chamar a si mesmo para sua possibilidade mais própria de ser-si.
A voz da consciência é caracterizada como um modo de discurso que se opõe ao falatório do impessoal.
Trata-se de uma comunicação sem alarde, novidade ou ambiguidade, que não oferece apoio à curiosidade nem se presta à autoanálise narcisista.
Quando transformada em objeto de reflexão obsessiva, a consciência perde sua função e é reabsorvida pelas estratégias repressivas do impessoal.
O chamado da consciência dirige-se ao Dasein não segundo seus papéis públicos ou valores socialmente reconhecidos, mas unicamente enquanto ente cujo ser é sempre meu.
O chamado é desprovido de conteúdo informativo ou normativo: não prescreve modos de vida nem comunica fatos do mundo.
Ele convoca o Dasein a colocar toda a sua existência em julgamento diante de sua capacidade de ser-si, sem determinar quais possibilidades devem ser escolhidas.
A consciência fala mantendo silêncio, isto é, chamando sem dizer, para não substituir a apropriação existencial por instruções externas.
A questão de quem chama na consciência revela uma estrutura paradoxal.
O chamado não provém de um outro externo, mas tampouco coincide simplesmente com o Dasein cotidiano que o escuta.
O Dasein interpelado está perdido no impessoal, enquanto o Dasein que chama não está, pois só assim pode romper o domínio do impessoal.
Por isso, o chamado é experimentado como vindo de mim e, ao mesmo tempo, de além de mim.
A passividade do Dasein diante da consciência remete à sua facticidade e ao seu caráter de ser-lançado [Geworfenheit].
O Dasein encontra-se sempre já entregue à tarefa de existir, situado em um contexto que não escolheu, mas no qual deve decidir-se.
Essa condição funda a estranheza ou não-estar-em-casa do Dasein, que nunca pode identificar-se plenamente com nenhuma forma de vida dada.
A consciência recorda o Dasein dessa condição, arrancando-o da fuga impessoal e expondo-o à angústia diante de sua possibilidade de individualidade autêntica.
O que chama na consciência é o Dasein enquanto não-em-casa, enquanto ser-aí nu, destacado de suas absorções familiares no mundo.
Esse si mesmo é o mais estranho ao impessoal e, por isso, aparece como simultaneamente interno e externo.
Como voz do Dasein enquanto projeção lançada, a consciência pode ser compreendida como o chamado do cuidado [Sorge].
A possibilidade ontológica da consciência funda-se no fato de que o ser do Dasein é, em sua base, cuidado.
A experiência ôntica da culpa encontra sua explicação ontológica nessa estrutura.
Culpa implica responsabilidade e endividamento, isto é, ser a base de uma falta ou nulidade.
Ontologicamente, o Dasein é culpado porque existe como projeção lançada, sendo responsável por uma nulidade que lhe é constitutiva.
O Dasein, ao projetar-se em uma possibilidade existencial, necessariamente deixa de realizar todas as outras.
Além disso, nunca possui controle total sobre a base factual a partir da qual projeta.
Ser fundamento significa, assim, nunca ser senhor absoluto de seu próprio ser.
A nulidade pertence tanto à condição de ser-lançado quanto à estrutura projetiva da existência.
O cuidado, enquanto projeção lançada, é definido como ser-fundamento de uma nulidade que é, ela mesma, nula.
A existência humana, em seu todo, é ser-nulo fundamento de uma nulidade.
Nesse sentido ontológico originário, o Dasein é, enquanto tal, culpado.
A autenticidade não consiste na superação ou eliminação da culpa.
A culpa ontológica é ineradicável, pois coincide com a própria condição existencial do Dasein.
A autenticidade exige, antes, a assunção da própria possibilidade de ser-culpado como possibilidade mais própria.
Assumir a culpa significa tomar para si a base lançada que se é e as projeções que se realizam a partir dela.
Trata-se de apropriar-se de uma existência necessariamente culpada, em vez de deixá-la dissolver-se no impessoal.
Querer-ter-consciência expressa essa disposição para responder ao chamado e decidir-se a partir de si mesmo.
A resposta exigida pela consciência não é a adoção de um código moral determinado.
O que se exige é a disposição para responder, a prontidão para deixar-se interpelar.
Querer-ter-consciência é escolher-se, colocando-se a serviço da própria possibilidade de individualidade.
Querer-ter-consciência é um modo de compreensão, pois projeta o Dasein sobre sua possibilidade mais própria de ser-culpado.
A essa compreensão correspondem uma disposição afetiva específica, a angústia, e um modo de discurso, o silêncio.
A forma de desvelamento de si que daí resulta é denominada resolução [Entschlossenheit].
A resolução, enquanto modo de ser-no-mundo, não isola o Dasein de seu mundo.
Ela reconduz o Dasein às suas relações concretas com entes e com outros, para que descubra suas possibilidades reais naquela situação.
A resolução é essencialmente indeterminada, pois nenhuma ontologia fundamental pode fornecer roteiros existenciais prontos para a autenticidade.
A situação não é um dado prévio, mas algo que se constitui no próprio ato resoluto.
Somente a partir de uma resolução concreta um contexto adquire definição existencial.
Resolver-se é projetar não apenas uma possibilidade, mas o próprio contexto como portador de um horizonte determinado de possibilidades.
A resolução constitui, assim, o âmbito no qual ela mesma atua.