MERLEAU-PONTY, Maurice. Signes. Paris: Les Éditions Gallimard, 1960 / Signos. Tr. Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1991
A significação anima a palavra como o mundo anima meu corpo: por uma surda presença que desperta minhas intenções sem se mostrar abertamente diante delas.
Se a palavra é comparável a um gesto, o que ela está encarregada de expressar terá com ela a mesma relação que o alvo tem com o gesto que o visa, e nossas observações sobre o funcionamento do aparelho significante já envolverão uma certa teoria da significação que a palavra expressa. Meu enfoque corporal dos objetos que me rodeiam é implícito, e não supõe tematização alguma, “representação” alguma de meu corpo nem do meio. A significação anima a palavra como o mundo anima meu corpo: por uma surda presença que desperta minhas intenções sem se mostrar abertamente diante delas. A intenção significativa em mim (assim como no ouvinte que a reencontra ao ouvir-me) não é, no momento em que ocorre — mesmo que depois venha a frutificar em “pensamentos” —, senão um vazio determinado a ser preenchido por palavras; o excesso daquilo que quero dizer sobre o que é ou o que já foi dito. Isto significa: a) que as significações da palavra são sempre ideias no sentido kantiano, os polos de certo número de atos de expressão convergentes que magnetizam o discurso sem serem propriamente dados isoladamente; b) que, por conseguinte, a expressão nunca é total. Como observa Saussure, temos a impressão de que nossa língua expressa totalmente. Mas não é por expressar totalmente que é nossa, é por — ser nossa que acreditamos que expressa totalmente. “The man I love” é, para um inglês, uma expressão tão completa como, para um francês, “l’homme que j’aime” (o homem que amo). E “j’aime cet homme” (amo este homem) [96] é, para um alemão que pode mediante a declinação marcar expressamente a função do objeto direto, uma maneira extremamente alusiva de expressar-se. Logo, há sempre algum subentendido na expressão — ou melhor, a noção de subentendido deve ser rejeitada: só tem sentido se tomarmos por modelo e por absoluto da expressão uma língua (geralmente a nossa) que, na verdade, como todas as outras, nunca pode conduzir-nos “como pela mão” até a significação, até as próprias coisas. Não digamos, pois, que toda expressão é imperfeita porque subentende, digamos que toda expressão é perfeita na medida em que é compreendida sem equívoco, e admitamos como fato fundamental da expressão uma superação do significante pelo significado que é tomada possível pela virtude própria do significante; c) que esse ato de expressão, essa junção entre a palavra e a significação mediante a transcendência do sentido linguístico que ela visa não é para nós, sujeitos falantes, uma operação secundária, à qual recorreríamos apenas para comunicar ao outro os nossos pensamentos, e sim a tomada de posse por nós, a aquisição de significações que, de outro modo, só se fazem presentes surdamente. Se a tematização do significado não precede a palavra, é porque ela é seu resultado. Insistamos nesta terceira consequência.
Expressar, para o sujeito falante, é tomar consciência; ele não expressa somente para os outros, expressa para saber ele mesmo o que visa. Se a palavra quer encarnar uma intenção significativa que não passa de um certo vazio, não é só para recriar no outro a mesma carência, a mesma privação, mas também para saber de que há carência e privação. Como o consegue? A intenção significativa cria um corpo para si e conhece a si mesma ao procurar um equivalente seu no sistema de significações disponíveis, representado pela língua que falo e pelo conjunto dos escritos e da cultura de que sou o herdeiro. Trata-se, para esse desejo mudo que é a intenção significativa, de realizar um certo arranjo dos instrumentos já significantes ou das significações já falantes (instrumentos morfológicos, sintáticos, lexicais, gêneros literários, tipos de narrativa, modos de apresentação do acontecimento etc.) que suscite no ouvinte o pressentimento de uma significação diferente e nova, e inversamente realize naquele que fala ou escreve a fixação da significação inédita nas significações já disponíveis. Mas por que, como, em que sentido, estão estas disponíveis? Tornaram-se disponíveis [97] quando, a seu tempo, foram instituídas como significações às quais posso recorrer, significações que possuo — por uma operação expressiva da mesma espécie. É esta portanto que devo descrever se quero compreender a virtude da palavra. Compreendo ou julgo compreender as palavras e as formas do francês; tenho certa experiência dos modos de expressão literários e filosóficos que a cultura dada me oferece. Eu expresso quando, utilizando todos esses instrumentos já falantes, faço-os dizer algo que nunca disseram. Começamos a ler o filósofo dando às palavras que emprega o seu sentido “comum”, e pouco a pouco, por uma inversão de início insensível, a sua palavra vai dominando a sua linguagem, e é o emprego que lhe dá que acaba por revesti-la de uma significação nova e característica dele. Nesse momento, ele se fez compreender e sua significação instalou-se em mim. Diz-se que um pensamento é expresso quando as palavras convergentes que o visam são bastante numerosas e bastante eloquentes para designá-lo sem equívoco a mim, autor, ou aos outros, e para que tenhamos todos a experiência de sua presença carnal na palavra. Embora apenas umas Abschattungen (silhuetas) da significação sejam tematicamente dadas, a verdade é que, passado um certo ponto do discurso, as Abschattungen, consideradas em seu movimento, fora do qual nada são, contraem-se repentinamente numa única significação, sentimos que algo foi dito, assim como, acima de um mínimo de mensagens sensoriais, percebemos uma coisa, conquanto a explicitação da coisa vá por princípio ao infinito — ou assim como, espectadores de um certo número de condutas, acabamos por perceber alguém, conquanto, perante a reflexão, nenhum outro além de mim mesmo possa ser verdadeiramente, e no mesmo sentido, ego… As consequências da palavra, como as da percepção (e da percepção do outro em particular), ultrapassam sempre as suas premissas. Nós mesmos, que falamos, não sabemos necessariamente melhor o que expressamos do que quem nos escuta. Digo que sei uma ideia quando se instituiu em mim o poder de organizar em torno dela discursos que fazem sentido coerente, e mesmo esse poder não se deve ao fato de eu a possuir dentro de mim e de contemplá-la face a face, mas ao fato de eu ter adquirido certo estilo de pensamento. Digo que uma significação está adquirida e daí em diante disponível quando consegui fazê-la habitar num aparelho de palavra que inicialmente não lhe era destinado. Claro, os elementos desse aparelho expressivo [98] não a continham realmente: a língua francesa, logo que foi instituída, não continha a literatura francesa — foi preciso que eu os descentralizasse e os centralizasse novamente para fazê-los significar aquilo que eu visava. É precisamente essa “deformação coerente” (A. Malraux) das significações disponíveis que as ordena num sentido novo e faz com que os ouvintes, mas também o sujeito falante, deem um passo decisivo. Pois doravante as operações preparatórias da expressão — as primeiras páginas do livro — são retomadas no sentido final do conjunto e se apresentam imediatamente como derivadas desse sentido, agora instalado na cultura.