MERLEAU-PONTY, Maurice. L'œil et l'esprit. Paris: Gallimard, 1964.
1. Tudo seria mais límpido em filosofia se esses espectros pudessem ser exorcizados, convertidos em ilusões ou percepções sem objeto à margem de um mundo sem equívoco. A Dióptrica de Descartes é essa tentativa, o breviário de um pensamento que já não quer habitar o visível e decide reconstruí-lo segundo o modelo que se dá, e vale lembrar esse ensaio e seu fracasso.
2. Não se trata de aderir à visão, mas de saber “como ela se faz” apenas na medida necessária para inventar “órgãos artificiais” que a corrijam. Raciocina-se menos sobre a luz que se vê do que sobre a que entra nos olhos e comanda a visão, limitando-se a “duas ou três comparações que ajudam a concebê-la”. A luz é pensada como ação por contato, como a das coisas sobre a bengala do cego: os cegos “veem com as mãos”, e o modelo cartesiano da visão é o tato.
3. Esse modelo livra da ação à distância e da ubiquidade que fazem toda a dificuldade e toda a virtude da visão. Reflexos e espelhos tornam-se efeitos reais, como o ricochete de uma bola, que enganam o olho sem afetar a ideia do mundo: a coisa e o raio refletido são dois indivíduos ligados de fora pela causalidade, e sua semelhança é uma denominação exterior pertencente ao pensamento. Um cartesiano não se vê no espelho, mas vê um manequim, um “fora” que não é carne, e só seu pensamento tece o laço de semelhança com essa imagem.
4. Não há mais poder dos ícones: a gravura representa florestas, cidades e tempestades sem se parecer com elas, sendo apenas tinta no papel, uma figura achatada e deformada, como o quadrado em losango e o círculo em oval, que só é “imagem” com a condição de “não se parecer” com o objeto. Ela “excita nosso pensamento” a “conceber”, como os signos e as palavras, oferecendo índices suficientes para formar uma ideia que nasce em nós por ocasião dela. A visão torna-se um pensamento que decifra os signos dados no corpo, a semelhança é resultado da percepção, e não sua mola, e nada resta do mundo onírico da analogia.
5. Essas análises mostram que toda teoria da pintura é uma metafísica. Descartes fala da pintura apenas de passagem, o que é significativo: para ele, ela não contribui para definir o acesso ao ser, mas é uma variante do pensamento definido pela posse intelectual e pela evidência. Ao tomar o desenho como típico, valoriza nas gravuras a forma exterior dos objetos e trata a cor como ornamento; se tivesse examinado as qualidades segundas, teria enfrentado o problema de uma abertura às coisas sem conceito. Para ele, a pintura é um artifício que dá a ver o espaço onde não há, e a profundidade é uma terceira dimensão derivada das outras duas.
6. A profundidade parece paradoxal, pois se veem objetos que se escondem uns aos outros e que, portanto, não se veem, e ela se conta a partir do corpo, ao qual se está colado. Para Descartes, esse mistério é falso: a profundidade é apenas outra largura, as coisas nunca estão umas atrás das outras, e sua sobreposição e latência exprimem apenas a solidariedade com o corpo, sendo pensamentos, e não atributos das coisas. Outro homem ou Deus, que está em toda parte, veria as coisas desdobradas, e o quadro, que dá profundidade sem tê-la, organiza a ilusão de uma ilusão, uma “janela” que só abre para o partes extra partes, para a positividade absoluta do Ser.
7. É esse espaço sem esconderijo, idêntico a si em cada ponto, que sustenta a análise das gravuras: o espaço é o em-si por excelência, a evidência do “onde”, homogêneo e com dimensões substituíveis, enquanto orientação, polaridade e envolvimento são fenômenos derivados da presença do sujeito.
8. Como toda ontologia clássica, esta erige em estrutura do Ser certas propriedades dos seres e é, invertendo a frase de Leibniz, verdadeira no que nega e falsa no que afirma. Era preciso idealizar o espaço, concebê-lo claro, manejável e homogêneo, sobrevoado sem ponto de vista, para um dia descobrir os limites da construção e compreender que as dimensões são recortadas pelas métricas numa dimensionalidade, um Ser polimorfo que nenhuma exprime completamente. Descartes tinha razão em libertar o espaço, mas errou ao erigi-lo em ser inteiramente positivo, sem ponto de vista, latência, profundidade ou espessura verdadeira.
9. Descartes também tinha razão em inspirar-se nas técnicas perspectivas do Renascimento, que estimularam a pintura a produzir experiências de profundidade, mas elas eram falsas quando pretendiam encerrar a pesquisa e fundar uma pintura exata. Os pintores sabiam que nenhuma perspectiva é solução exata, e a perspectiva linear abriu vários caminhos, como a representação do objeto nos italianos e os espaços alto, próximo e oblíquo (Hochraum, Nahraum, Schrägraum) nos pintores do Norte. Nenhum meio de expressão adquirido transforma a pintura em técnica, pois nenhuma forma simbólica age como estímulo: a linguagem da pintura não é “instituída pela natureza”, mas deve ser feita e refeita, e a perspectiva renascentista é apenas um momento numa informação poética do mundo que continua depois dela.
10. Descartes, porém, não pretende eliminar o enigma da visão: não há visão sem pensamento, mas não basta pensar para ver, pois a visão é um pensamento condicionado, “excitado” pelo que ocorre no corpo, que funciona segundo uma lei que não se deu e traz no centro um mistério de passividade. O corpo não é para a alma um objeto entre outros, mas o lugar que ela habita, o primeiro “aqui” de onde vêm todos os “lá”, e ela pensa segundo ele, num pacto natural em que o espaço já está estipulado. A visão se desdobra em visão refletida, pensada como inspeção do Espírito e leitura de signos, e visão efetiva, pensamento “honorário” esmagado num corpo próprio, e o enigma é apenas transferido do “pensamento de ver” à visão em ato.
11. Essa visão de fato não abala a filosofia de Descartes: sendo pensamento unido a um corpo, não pode ser verdadeiramente pensamento, e dela nada se tira que mereça ser dito verdadeiro. Para pensá-la, como queria a princesa Elisabeth, seria preciso retomar Aristóteles e conceber o pensamento como corporal, o que é inconcebível; esses pseudopensamentos são emblemas do “uso da vida”, índices de uma ordem da existência que não cabe pensar. Essa ordem não marca terra incógnita no mapa do Ser, pois é sustentada por uma Verdade divina, abismo em cujo nascimento não se assiste, e o segredo do equilíbrio cartesiano é uma metafísica que dá razões decisivas para não mais fazer metafísica.
12. Esse segredo está perdido, e um equilíbrio entre ciência e filosofia, entre os modelos e a obscuridade do “há”, terá de ser novo. A ciência rejeitou as justificações e as restrições cartesianas, já não deduz seus modelos dos atributos de Deus e reivindica, como psicologia, o domínio do contato consigo e com o mundo existente. Hostil à filosofia como pensamento em contato, ela talvez reencontre seu sentido quando perceber que qualidade, estrutura escalar e solidariedade entre observador e observado não são simples construções, enquanto a filosofia se mantém contra ela, aprofundando a dimensão do composto de alma e corpo que Descartes abriu e fechou: ciência e filosofia são dois monstros nascidos do desmembramento do cartesianismo.
13. Resta à filosofia prospectar o mundo atual e pensar o composto de alma e corpo, e é a esse saber de situação que Descartes deve o que diz da presença do corpo “contra a alma” ou do mundo “na ponta” das mãos. O corpo é depositário da visão e do tato, e os instrumentos é que são órgãos acrescentados; o espaço é vivido de dentro, a partir do sujeito como grau zero, e o mundo está em volta, e não diante. A luz volta a ser ação à distância, a visão recupera o poder de mostrar mais que ela mesma e tem seu imaginário, e trata-se de fazer falar o espaço e a luz, reabrindo as questões sobre o que são a profundidade, a luz e o ser (τί τὸ ὄν), para o espírito difundido no corpo e para eles mesmos.
14. Essa filosofia por fazer é a que anima o pintor, não quando exprime opiniões sobre o mundo, mas no instante em que sua visão se faz gesto, quando, como diz Cézanne, ele “pensa em pintura”.