MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).
O CORPO COMO OBJETO E A FISIOLOGIA MECANICISTA
1. Para inserir o organismo no universo dos objetos, que existem partes extra partes, seria preciso traduzir o funcionamento do corpo em relações lineares e mecânicas entre estímulo, receptor e sujeito que sente. A fisiologia moderna, porém, mostra que o sistema nervoso não transmite conteúdos prontos, mas organiza ativamente as excitações, e que o organismo “concebe” uma certa forma de excitação. Essa configuração só pode ser compreendida a partir do corpo vivido, que se ergue em direção ao mundo.
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A teoria da energia específica dos nervos atribuía aos aparelhos nervosos o poder oculto de criar as estruturas da experiência, transformadas em qualidades compactas derivadas da localização dos órgãos.
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As lesões, onde quer que ocorram, produzem uma desdiferenciação da função, e não a perda de qualidades isoladas: as cores perdem saturação até a monocromasia em cinza, e as sensações táteis específicas reaparecem com um estímulo mais extenso.
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Um fio de cabelo aplicado repetidamente na pele produz primeiro contatos pontuais, depois queimadura de frio ou de calor, depois um movimento circular aparente e, por fim, nada; a qualidade, a localização e a própria presença da percepção exprimem a maneira como o organismo vai ao encontro dos estímulos.
2. Seria possível objetar que a experiência do corpo é apenas uma “representação” produzida por uma interocepção análoga à exterocepção, de modo que o corpo voltaria a ser uma máquina que age sobre receptores. Nessa hipótese, o membro fantasma do amputado resultaria de uma estimulação substituta no trajeto entre o coto e o cérebro, único ponto ao qual a alma estaria unida.
3. A fisiologia moderna mostra que o membro fantasma depende tanto de condições fisiológicas quanto de determinantes psíquicos, como emoções, lembranças e a aceitação ou recusa da mutilação. Uma teoria mista pode enunciar os fatos, mas permanece obscura, pois não há terreno comum entre fatos fisiológicos situados no espaço e cogitationes que não estão em lugar algum, entre o em si e o para si.
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A anestesia por cocaína não suprime o membro fantasma, que também surge após lesões cerebrais sem amputação e conserva a posição e até os estilhaços do braço real no momento do ferimento.
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O braço fantasma pode encolher até sumir no coto à medida que o doente aceita a mutilação, e a anosognosia, em que o paciente ignora a mão paralisada mas a descreve como “uma serpente longa e fria”, sugere uma recusa da deficiência.
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A secção dos condutores sensitivos que vão ao encéfalo, contudo, suprime o membro fantasma, o que impede uma explicação puramente psicológica.
4. As noções de “repressão orgânica” e os fenômenos de substituição obrigam a conceber um pensamento orgânico que ultrapassa a alternativa entre psíquico e fisiológico, finalidade expressa e mecanismo. Esse pensamento é o ser no mundo: uma visão pré-objetiva, distinta de todo processo em terceira pessoa e de toda cogitatio, capaz de realizar a junção entre o psíquico e o fisiológico.
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O inseto substitui a pata cortada pela sadia, mas não a pata apenas amarrada, porque esta ainda conta em seu ser e o fluxo de atividade em direção ao mundo ainda passa por ela; trata-se de um a priori da espécie, e não de uma escolha.
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A situação instintiva é vivida como “aberta”, com significação prática, e chama os movimentos do animal como as primeiras notas de uma melodia chamam uma resolução.
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Os próprios reflexos não são processos cegos, pois se ajustam ao sentido de uma situação e investem os estímulos de um valor que eles não têm isoladamente.
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Alguns quase cegos conservam seu mundo, enquanto outros o abandonam antes que isso seja necessário, o que revela uma consistência do mundo relativamente independente dos estímulos e uma pulsação da existência relativamente independente da vontade.
5. A anosognosia e o membro fantasma não admitem explicação fisiológica, psicológica nem mista, pois todas permanecem nas categorias do mundo objetivo, sem meio-termo entre presença e ausência. O anosognósico só se desvia da deficiência porque sabe onde a encontraria, e o braço fantasma não é representação de um braço, mas presença ambivalente de um braço. Nenhum dos dois fenômenos é decisão deliberada da ordem do “eu penso que…”.
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Evitamos interrogar um amigo morto para não ter de perceber seu silêncio, o que mostra que adivinhamos as regiões da vida onde encontraríamos esse nada; assim também o anosognósico tem um saber pré-consciente da própria perda.
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O amputado tenta andar com a perna fantasma porque, como o sujeito normal, não precisa de uma percepção articulada do corpo, bastando tê-lo “à disposição” como potência indivisa, assim como Proust não perde a avó enquanto a mantém no horizonte de sua vida.
6. O que recusa a mutilação é um Eu engajado num mundo físico e inter-humano que continua a tender para ele, e o corpo é o veículo do ser no mundo. Ter um braço fantasma é permanecer aberto às ações de que só o braço é capaz. O doente sabe sua perda na medida em que a ignora e a ignora na medida em que a sabe, e essa ambiguidade corresponde a duas camadas do corpo: o corpo habitual e o corpo atual.
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O mundo que lhe dissimula a deficiência também a revela, pois os objetos manejáveis interrogam uma mão que ele já não tem, delimitando no corpo regiões de silêncio.
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Para que o corpo habitual responda pelo corpo atual, o manejável precisa tornar-se manejável em geral, e o corpo precisa ser apreendido sob um aspecto de generalidade, como ser impessoal.
7. O membro fantasma se esclarece pelo recalque, em que o sujeito, bloqueado diante de um obstáculo, permanece aberto a um futuro impossível, e o tempo pessoal se ata enquanto o tempo impessoal continua a correr. Como advento do impessoal, o recalque é universal. O organismo, adesão pré-pessoal à forma geral do mundo, funciona sob a vida pessoal como um complexo inato, e a ambiguidade do ser no mundo se traduz na do corpo, que se compreende pela do tempo.
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A experiência traumática não subsiste como lembrança datada, mas como estilo de ser: um presente privilegiado destitui os outros, e a existência em primeira pessoa degenera numa escolástica que só retém a forma típica do vivido.
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Ter órgãos dos sentidos e habitar um mundo físico de estímulos constantes cria em torno da existência pessoal uma margem quase impessoal, à qual se confia o cuidado de manter a vida.
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A existência pessoal é intermitente: no luto, o olhar logo volta a interessar-se por um objeto brilhante, e o tempo pré-pessoal leva consigo os sentimentos que sustentavam a resolução.
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Cada presente pode pretender fixar a vida e nunca é inteiramente superado; o corpo, passado específico nunca transcendido, torna possível e ao mesmo tempo impede centrar absolutamente a existência, e seu anonimato é liberdade e servidão.
8. A partir do ser no mundo, as relações entre o psíquico e o fisiológico tornam-se pensáveis: lembrança, emoção e membro fantasma são equivalentes em relação ao ser no mundo, e uma atitude existencial motiva outra, sem sobreposição de duas causalidades. O homem concreto não é um psiquismo unido a um organismo, mas o vaivém da existência entre o corporal e os atos pessoais. A união da alma e do corpo realiza-se a cada instante no movimento da existência.
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O braço fantasma é um quase presente, um antigo presente que não se decide a tornar-se passado; a lembrança o induz porque reabre o tempo perdido, e a emoção o favorece porque, diante de um impasse existencial, destrói magicamente o mundo objetivo.
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As excitações vindas do coto mantêm o membro no circuito da existência e guardam seu lugar, como os distúrbios estruturais permitem à psicose realizar um delírio.
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O reflexo puro só aparece no homem, que tem não apenas um meio (
Umwelt), mas um mundo (
Welt): para ver seu meio, ele precisa renunciar a parte da espontaneidade e engajar-se por órgãos estáveis e circuitos preestabelecidos, e ter um corpo habitual é uma necessidade interna da existência mais integrada.
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A história também não é novidade nem repetição perpétua, mas o movimento que cria e rompe formas estáveis: Nicolau II reencontra as palavras de Luís XVI como os reflexos traduzem um a priori específico.
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Num doente que sente uma segunda pessoa implantada no corpo, “psíquico e físico estão ligados de modo tão íntimo que não se pode mais pensar em completar um domínio funcional pelo outro, e ambos devem ser assumidos por um terceiro”, exigindo o reconhecimento do evento anímico como processo vital inerente à existência.