0.2 Associação

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

A “ASSOCIAÇÃO” E A “PROJEÇÃO DAS LEMBRANÇAS”

1. Admitida como elemento do conhecimento, a sensação entendida como coincidência absoluta com uma impressão impede que o sensível tenha sentido próprio, reduzindo toda significação a outras sensações ligadas de modo extrínseco e fazendo do conhecimento um sistema cego de substituições, cuja única filosofia possível é o nominalismo.

2. A significação do percebido não resulta de associações, mas é pressuposta por todas elas: é por perceber um conjunto como coisa que se podem depois discernir nele semelhanças e contiguidades, e a unidade do objeto nasce do pressentimento de uma ordem iminente que organiza elementos antes pertencentes a universos distintos.

3. Uma impressão não tem o poder de despertar outras por si mesma: a associação, por contiguidade ou por semelhança, não é força autônoma, pois só opera quando a percepção presente é compreendida à luz do sentido que adquiriu no passado, e o passado é desdobrado pela consciência presente em vez de importado mecanicamente.

4. A “projeção de lembranças” pressupõe o que pretende explicar, a organização dos dados num sentido, e torna-se supérflua no momento em que se torna possível: longe de superar o empirismo, é uma correção tardia dele, e o verdadeiro papel do passado é o de um horizonte que dá ao percebido atmosfera e significação, de modo que perceber não é lembrar.

5. As estruturas de figura e fundo, de coisa e não coisa e o horizonte do passado são irredutíveis às qualidades, e o empirismo, que as reconstrói por química mental, não pode ser refutado por nenhum fenômeno crucial, mas pode ser mostrado como sistema que oculta os fenômenos originais: o mundo cultural e humano, o próprio mundo natural e a presença dos aspectos não vistos do objeto.