0.1 Sensação

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

1. A noção de sensação, que a linguagem apresenta como imediata e clara no sentir do vermelho, do azul, do quente ou do frio, revela-se a mais confusa de todas, e foi justamente por admiti-la que as análises clássicas deixaram escapar o fenômeno da percepção.

2. Definir a sensação como pura impressão, isto é, como a maneira pela qual o sujeito é afetado e a vivência de um estado de si mesmo, é uma tentativa que fracassa. O mais simples dado perceptivo já é uma figura sobre um fundo, inserida num campo e carregada de sentido, de modo que a impressão pura não é apenas inencontrável, mas também imperceptível e impensável como momento da percepção.

3. A qualidade tampouco oferece meio de delimitar a sensação, pois vermelho e verde não são sensações, mas sensíveis. A qualidade não é elemento da consciência, e sim propriedade do objeto. Tomada na experiência que a revela, ela se mostra tão rica e obscura quanto o espetáculo perceptivo inteiro e mascara a subjetividade em vez de revelá-la.

4. As duas definições anteriores só eram diretas em aparência, pois se modelavam sobre o objeto percebido, como faz o senso comum ao delimitar o sensível por suas condições objetivas. No terreno da ciência, a sensação tampouco encontra definição fisiológica: o estímulo não determina ponto por ponto a percepção, e o aparelho sensorial não é mero transmissor de mensagens. Trata-se de um processo de integração no qual o texto do mundo exterior não é copiado, mas constituído.

5. A reflexão, mesmo a reflexão segunda da ciência, torna obscuro o que parecia claro e convida a retornar às próprias experiências de sentir, ver e ouvir. A noção clássica de sensação não é conceito de reflexão, mas produto tardio do pensamento voltado para os objetos, o termo mais afastado da fonte constitutiva. A tentativa científica de fundar uma ciência objetiva da subjetividade fracassa inevitavelmente diante de um percebido que admite ambiguidade, lacunas e um domínio pré-objetivo a explorar.