Heidegger e Platão

MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001.

O crepúsculo da filosofia: Heidegger e Platão

1. A imagem do crepúsculo, presente com insistência na obra heideggeriana após ter inspirado muitos diálogos platônicos, revela que um único caminho permanece aberto ao pensamento, desde que este tenha tomado a medida do esgotamento da metafísica, e a distinção operada no cerne dessa obscura luz do crepúsculo visa compreender por que o pensador que busca desconstruir a metafísica continua a interrogar a origem, entendida como a proveniência essencial de tudo o que é, embora a própria pergunta sobre o “porquê” desse apego se mostre inadequada à démarche de Heidegger, pois, enquanto se pergunta pela finalidade, ele pergunta a partir de onde a coisa vem a nascer, e uma questão diferente orienta sua marcha: como fazer com que pensamentos venham a nós, situando aí a origem da pensamento no sentido primeiro do levantar de uma estrela (origo/orior).

2. É no texto do “Caminho de Campo” que se encontra o testemunho do mundo, onde o caminho deixa o jardim do Castelo ao amanhecer (Morgenfrühe) para atravessar a planície e subir as colinas, antes de retornar ao anoitecer (Abenddämmerung), e é a corrida do sol de seu nascer ao seu pôr que conduz tanto a apreensão que a metafísica tem de si mesma quanto sua colocação em questão na meditação heideggeriana, desde o nascer platônico até o poente nietzschiano, regendo o mito solar da verdade a história da metafísica, mas dissimulando, em sua imediata evidência, um desabrochar mais inicial.

3. A questão “o que é o ente?” é nomeada por Heidegger como a “questão condutora da metafísica” (Leitfrage), pois ela determina o domínio propriamente metafísico da metafísica, conduzindo a pesquisa em direção a um tratamento da questão tal que ela possa se esgotar em uma resposta adequada, mas essa questão é, por sua vez, carregada por uma questão mais originária, “o que é o ser?”, nomeada “questão fundamental” (Grundfrage), que interroga a questão anterior nos mesmos termos, dando a crer que se trata aqui de uma interrogação sobre a interrogação, e Heidegger joga com essa ambiguidade ao qualificar a questão do ente de “penúltima questão”, enquanto a questão do ser é na realidade “a última e a primeira”.

4. A filosofia é crepuscular porque a roda do sol corre do oriente ao ocidente, sem que jamais seja visto o espaço primeiro dessa corrida, a abertura entre Terra e Céu, entre os Divinos e os Mortais, onde vem tomar lugar o sol, ou seja, desde Platão, a “Ideia”, aquela que tem o poder de brilhar e desdobrar os fogos de sua evidência, e a evidência metafísica se mostra duvidosa porque, estendida entre dois crepúsculos, ela nunca consegue se manter a si mesma, e o termo “crepúsculo”, do latim “creperum” (obscuro, duvidoso), confunde a luz da manhã e a do anoitecer, sendo uma fin que se retorna em começo.

5. Entre os dois crepúsculos, de um crepúsculo ao outro ou do crepúsculo a si mesmo, estende-se a história da filosofia, marcada por esses limites evanescentes que são Platão e Nietzsche, e o pensador do Eterno Retorno do Mesmo conduz sua meditação entre “Aurora” e “Crepúsculo dos Ídolos” para assegurar o começo do fim da filosofia, mas, ao fechar o círculo, a filosofia de Nietzsche, embora marque “o fim da metafísica” por retornar “ao começo do pensamento grego”, não reencontra o que Heidegger chama de “o começo inicial”, pois a filosofia, seja como platonismo ou inversão do platonismo, permanece sempre “uma deserção em relação ao começo”.

6. Para reencontrar a abertura inicial de onde provém a metafísica, é necessário abandonar a via que se desenrola no propileu da filosofia em proveito daquela que conduz ao “centro mesmo do santuário”, onde o ser é identificado ao centro e ao sagrado, e Heidegger avança em direção ao crepúsculo original somente após ter percorrido, em toda a sua obra, as etapas necessárias da metafísica, que deixam adivinhar o cifrão do ser, que diz ao mesmo tempo o claro e o oculto, o enigma e o nada da abertura de onde procede o primeiro lampejo do crepúsculo.

7. A filosofia conheceu cinco modos de clareira do ser no seio do ente, que constituem as cinco épocas da História do Mundo (o grego, o cristão, o moderno, o planetário e o hespérial), onde o Ser, a cada vez, retém a verdade de sua essência, e essa retenção é a “epoché” na medida em que o Ser faz época e produz, de repente, um mundo, e Heidegger pensa as cinco épocas da História a partir de um traço fundamental do ser, que ilumina a cada vez o ser do ente, mas obscurece de um mesmo movimento a abertura própria do ser.

8. A palavra crepuscular de Heidegger, tentando uma remontada ao fundamento da metafísica a partir do acabamento desta, se mostra mais matinal do que a palavra de Anaximandro, e a intempestividade do autor de “Ser e Tempo” descobre o Ser como pura doação do Tempo, e a “aurora da Hespéria” é apenas a primeira das cinco épocas da História, quando o ente se mostra na incomparável luz grega, mas Heidegger não privilegia o modo ôntico grego em relação ao modo cristão, moderno, planetário ou ao modo último, o do Ocidente (Abendland).

9. Para apreender a diferença que porta o ser e o ente, nomeada o “entre-dois” (das Zwischen), a “di-mensão” (Unter-Schied) ou o “abismo” (Ab-grund), é preciso se libertar do horizonte metafísico e não se apegar nem às últimas luzes do Ocidente nem aos primeiros clarões do Oriente, bastando confiar os passos ao menor caminho de campo que, em sua andança pensativa, delimita a Contrada (Gegend) ou o Quadripartido (Geviert) onde o horizonte tem lugar.

10. Platon não diz essa quintessência, e Heidegger, em eco, silencia, mas a interpretação pensante de um autor consiste em desvelar o que permanece impensado, e, embora Heidegger deixe voluntariamente na sombra a unidade do Quadripartido, a qual se mantém, no entanto, à frente dos quatro, no prefixo Ge- do Geviert, é muito duvidoso que Platão tenha se contentado em enumerar os quatro sem atar os laços de sua comunidade natural, pois Sócrates insiste na “comunidade” (koinônia) do Céu e da Terra, dos Deuses e dos Mortais, e a reforça com quatro traços distintivos, indicando que a unidade deste mundo provém da “Igualdade geométrica” (hê isotês hê geometrikê), que se mantém no centro dos quatro.

O retorno ao mito

11. Tendo ao rasgão, o logos não pode exprimir a harmonia nativa do mundo, e para reencontrar o mundo, é preciso voltar-se para o mito platônico cuja forma própria, o relato contínuo e fechado, deixa aparecer a figura cósmica pitagórica da Pêntade (pentás), que se manifesta pelo símbolo cósmico tradicional da cruz, exprimindo a pertença recíproca dos quatro pontos cardeais e de seu centro, e a topologia do mito, como nos outros mitos escatológicos de Platão, reconhece a figura cruciforme do mundo (kósmos), onde os cinco centros evocam o fechamento de sua perfeita unidade.

12. A palavra essencial de Heidegger é, de parte a parte, mítica, e tem ainda menos a ver com a lógica ou com a dialética do que o pensamento platônico, e, nesse sentido, é verdade dizer que Heidegger pensa de forma mais inicial do que Platão, apoiando-se no Geviert, enquanto o filósofo grego, vivendo ainda em um “mundo”, e não ainda em uma “história”, não sentia a necessidade de elaborar um sistema do qual a pêntade seria a chave, e o recurso heideggeriano ao Quadripartido é bem o testemunho da angústia própria à “Noite do Mundo”, que ele nomeava em 1935, na “Introdução à metafísica”, “a decadência espiritual da Terra”.

13. Essa decadência espiritual provém da incapacidade de habitar o mundo, e Heidegger busca aqui, não salvar o mundo de seu destino de errância, mas simplesmente pensá-lo, sendo este seu projeto mais antigo e mais constante, e o recurso ao mito é então o testemunho de um retorno ao mundo que busca pensar aquém do universo racional da metafísica, e, para reencontrar “o outro começo”, ocultado desde que Platão fez nascer a filosofia da passagem do mythos ao logos, é necessário necessariamente cruzar o caminho de Platão e voltar para montante do logos ao mythos, e o sentido verdadeiro da “desconstrução” heideggeriana da tradição é reencontrar aquém da construção metafísica de um “além-mundo” a articulação original do mundo no interior da qual a metafísica tem lugar e toma raiz – uma raiz quíntupla.

14. O movimento do pensamento que busca acolher o mundo na palavra, como em um templo, deve encontrar então o acesso à sua livre morada, e “construir, habitar, pensar” dizem o Mesmo, que se resume a construir o templo, habitar o templo, pensar o templo do Ser, e a palavra de verdade (logos) tem lugar, recolhida, no recinto do verbo como em um cercado, e as quatro regiões do mundo se cruzam então nesse ponto de emanação que toda palavra evoca – a pequena palavra “é”, e não há diferença, para o pensamento, entre a recolha do logos e a recolha do mythos, e, com Heidegger, o mundo verdadeiro torna-se uma fábula, em um sentido que Nietzsche não podia suspeitar, e Heidegger não é Heráclito, mas Platão.

Partilha formal

15. O outro pensamento de Heidegger assume como tarefa evocar a clareira (Lichtung), a abertura do mundo na qual a filosofia apareceu, e tal eclosão é o natal (das Heimische), e não se segue que o destino do ser (Geschick) se reduza a uma pura e simples decadência, pois, tendo a filosofia esgotado as possibilidades de sua essência, resta preparar a vinda do outro pensamento – o do Geviert – que é o lugar natal da própria filosofia.

16. Podem-se dirigir duas objeções essenciais a essa estranha démarche: uma concerne à forma mítica que a língua heideggeriana reveste, e a outra põe em questão a legitimidade do retorno do pensamento para montante da metafísica, mas o Geviert não é um sistema de representações objetivável, escapando à questão tradicional “o que é…?”, sempre ancorada no ser do ente, e colocar o Geviert em questão, logo em problema, equivale a buscar sua “razão” ou seu “fundamento” (Grund), enquanto toda a obra de Heidegger estabelece que a doação do ser é estrangeira à determinação do fundamento, pois o Ser é sem razão (Ab-grund), e a metafísica não se ausenta do teatro metafísico, ela nele entra e realiza “um salto no ser” (ein Satz in das Sein), nessa abertura inicial compreendida como “instauração”.

17. Os limites da História do ente articulam as cinco épocas da metafísica, do grego ao hespérial, que esgotam “o envio do ser” (Geschick), e em contrapartida, os limites impostos pelo Destino limitam o próprio Ser na finitude dos Quatro e de seu centro, e aos quatro cantos do mundo (Gegenden), o círculo do Geviert onde vem tomar lugar o ciclo histórico da metafísica é o meio finito onde se reúnem todas as coisas, e a Quadratura (die Vierung) é o jogo do mundo (das Welten von Welt), cujo jogo de espelho é a ronda do fazer-aparecer (der Reigen des Ereignens), sendo a Ronda o Anel (Ring) que se enrola sobre si mesmo.

18. O Anel do Ser enlaça Terra e Céu, Divinos e Mortais, em um singular quadrinho em torno do ponto de emanação, a cruz, que Heidegger nomeia “o Sagrado” (das Heilige), “o Meio” (die Mitte), ou “o Destino” (das Geschick), que dá à história do ser seu pontapé inicial, e ele obedece, portanto, ao Cinco, esse número periódico que, para os pitagóricos e Platão, era o número do Todo, ou seja, o cifrão do mundo, e Heidegger não faz senão reencontrar esse ensinamento tradicional, bem esquecido pela metafísica, ao dispor seus textos em função de uma constante partição pentádica.

19. Como a Moira (Teogonia, 217), o Geschick heideggeriano é filho da Noite, essa “Noite do Mundo” onde o relâmpago silencioso do Ereignis vem a brilhar subitamente para apropriar cada ente a si mesmo e lhe dar a parte que lhe é devida, e a analogia com o mito platônico se impõe novamente, pois é “ao anoitecer” que as almas, após terem escolhido livremente seu destino, vêm acampar nas margens do rio Ameles, e no meio da noite, um clarão de trovão acompanhado de um tremor de terra arranca “subitamente” (exaiphnes) as almas de seu lugar, lançando-as em um relâmpago para as alturas, para nascer a uma nova vida, e à imagem do exaiphnes platônico que porta instantaneamente cada alma em direção a seu destino, o Ereignis heideggeriano é o traço fundamental que põe o ser no mundo.

20. Cinco extratos das poesias de Hölderlin foram lidos diante da tumba de Heidegger, sobre a qual brilha hoje ao crepúsculo, no calmo mato ou no poente de fevereiro, uma simples pequena estrela, e quando o sol do anoitecer, saindo de algum lugar na floresta, reveste de ouro os fustes, então o pensamento de Platão, voltado para o Céu, e a meditação de Heidegger, ligada à Terra, se encontram uma última vez no crepúsculo, e o epílogo da serenidade responde ao prólogo das “Leis”: dos homens ao deus e do deus aos homens, o caminho do pensamento inscreve sempre seu circuito na Contrada dos Quatro, e, se a primeira palavra de Platão em seu último diálogo é “theós”, a palavra última de Heidegger em seu “Caminho de Campo” é “Origem” (Herkunft).