Quadripartição da Metafísica

(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001:65-68)

1. Heidegger sustenta que não apenas a filosofia aristotélica é sulcada pelos quatro sulcos da causa, mas que todo o conhecimento metafísico é conformado por esse mesmo quadripartido, tecido do cruzamento entre a questão diretriz (Leitfrage) da metafísica e a questão fundamental (Grundfrage) do pensamento.

2. No período de 1927 a 1937 multiplicam-se as referências à dualidade das questões que trai a duplicidade original de ser e ente; Sein und Zeit ainda aproxima sem distinção a Fundamentalfrage do sentido do ser da “questão diretriz” do ser do ente, enquanto o curso de 1930 sobre a essência da liberdade humana já as distingue com nitidez, subordinando a questão diretriz tradicional (τί τὸ ὄν) à questão fundamental, cuja elaboração é condição para transpor o abismo entre ser e ente.

3. O curso de 1931 sobre a Fenomenologia do Espírito de Hegel aprofunda essa distinção ao transformar o “problema diretor” da filosofia antiga em pré-forma da questão fundamental; o mesmo projeto reaparece na Introdução à Metafísica de 1935, onde a questão fundamental figura como pré-questão da questão diretriz, e nos cursos de 1936-1937 sobre Nietzsche, nos quais se constata que a questão fundamental jamais se desdobrou como tal na história da filosofia, sendo a questão diretriz rebaixada a “penúltima questão” diante da última e primeira: “O que é o Ser mesmo?”.

4. Em 1937, dois textos entrelaçam definitivamente os dois questionamentos: o curso sobre o Eterno Retorno do Mesmo desenvolve a articulação cruzada entre a questão diretriz e a questão fundamental, e a carta a Henry Corbin justifica a tese de que “a essência da metafísica é algo distinto da metafísica” pela retomada dessa dualidade.

5. A introdução tardia à conferência O que é Metafísica? retoma a imagem cartesiana da árvore da filosofia, cuja raiz — a quádrupla raiz — é a metafísica, questionando o solo nutriz de onde ela se perde no esquecimento de sua própria proveniência, sendo o elemento nutridor apenas elemento na medida em que a raiz o entrelaça, do que se segue que, assim como o ente carece do ser, também o ser está à espera do ente.

6. As duas questões cruzadas testemunham a duplicidade da filosofia, isto é, do ser e do ente, entendida em duplo sentido: como a Dobra (Zwiefalt) originária que os une inseparavelmente, e como a duplicação dessa Dobra num cruzamento quádruplo em que se inscreve a metafísica, tema já esboçado nas anotações de 1936-1946 (Superação da Metafísica) e desenvolvido mais amplamente no texto de 1952, Moira, dedicado ao fragmento VIII de Parmênides.

7. O curso Was heißt Denken? relembra que a distinção entre substantivo e verbo no particípio (μετοχή) foi estabelecida pela filosofia no Sofista de Platão, remetendo a duplicidade de todos os particípios à duplicidade fundamental do ἐόν, no qual ser e ente participam um do outro no seio de uma Duplicidade originária que vela a unidade que a constitui — a Simplicidade (das Einfache) —, duplicidade que Moira desenvolve em suas nuances de Presença e Coisa presente, de Dobra e Desdobramento, associadas ao poder de partilha da Μοῖρα que imobiliza o ente/ser em seu encadeamento a si mesmo.

8. A Dobra (Zwiefalt) subtrai-se de modo duplo, ocultando tanto a origem de sua duplicidade — sua Pregueadura — quanto sua repetição num duplo Dobrar — sua Quadratura —, sendo esse redobramento, em tensão com a unidade do Simples, pensado como iteração perpétua que se cruza sobre si mesma e que, projetada sobre uma superfície, configura a figura de uma cruz indicando as quatro direções da metafísica, de modo que a questão diretriz de Aristóteles é compreendida como questão quádrupla imposta pela Partilha do ser, isto é, pela Moira.

9. A validade dessa interpretação pode ser verificada no exame que Heidegger faz da metafísica a partir de Kant, cujo primeiro curso, de 1926-1927, interpreta a Crítica da Razão Pura como “instauração do fundamento da metafísica” a partir de quatro pontos estruturantes.

10. Esses quatro momentos não são tematizados enquanto tais por Heidegger, mas na passagem central sobre o esquematismo transcendental ele levanta, sem ainda respondê-la, a questão da tabela das categorias ordenada por quatro polos, correspondentes às quatro possibilidades de configuração do tempo puro (série, conteúdo, ordem e conjunto do tempo).

11. Essa quadripartição kantiana é retomada no curso de 1929, Interpretação Fenomenológica da Crítica da Razão Pura de Kant, no qual Heidegger aproxima o projeto kantiano do aristotélico quanto às determinações mais gerais do ente, evidenciando a distribuição da tabela dos juízos em quatro grupos sem que Kant explique tal escolha, deixando na “obscuridade total” o modo como esses quatro princípios de divisão se entrelaçam coorigináriamente.

12. O verdadeiro fio condutor da origem das categorias não está, para Heidegger, na tabela dos juízos, mas na imaginação transcendental como raiz comum — quádrupla raiz — da intuição e do entendimento, de modo que a tabela das doze categorias não revela o “lugar de origem” na síntese pura, destacando-se ainda a distinção kantiana, na Tabela de Orientação (Orientierungstafel), entre categorias matemáticas e categorias dinâmicas.

13. No parágrafo 11 da segunda edição da Crítica, os quatro pontos de vista sobre as doze categorias remetem, de um lado, aos objetos da intuição — as categorias matemáticas, ligadas a Platão — e, de outro, à existência desses objetos — as categorias dinâmicas ou “categorias da existência” (Dasein), ligadas a Aristóteles, opondo-se assim a essentia da quantidade e da qualidade à existentia da relação e da modalidade, conforme a citação das Reflexionen kantianas sobre relação e modalidade pertencerem à consideração natural dos entes e quantidade e qualidade à doutrina da essência.

14. Essa tabela de orientação de quatro polos constitui-se de dois eixos cruzados — o da essência (categorias matemáticas, racionalidade analítica) e o da existência (categorias dinâmicas, racionalidade sintética) —, configurando a Duplicação inicial de essência e existência cuja origem permanece obscura para Kant, interpretação retomada no curso de 1935-1936, O que é uma Coisa?, quanto à divisão da tabela dos princípios em quatro grupos.

15. A leitura heideggeriana de Kant inscreve-se no mesmo esquema que vê o campo metafísico dividido em quatro direções do ente, de modo que quantidade e qualidade formam um primeiro par (dobra analítica) e relação e modalidade um segundo par (dobra sintética), revelando em Aristóteles e Kant uma mesma estrutura metafísica que articula racionalidade e causalidade.

16. Heidegger desenvolve sistematicamente sua interpretação quadripartite da metafísica fundada na dupla estrutura analítica e sintética do ente presente em Aristóteles e Kant, sendo o texto de 1930 sobre a Essência da Liberdade Humana o que trata explicitamente das quatro significações do ente em Aristóteles a partir de quatro etapas na compreensão pré-conceitual do ente derivada da ousia, sem que a tradição — nem o próprio Aristóteles — jamais tenha esclarecido por que esses e não outros sentidos foram discernidos.

17. O curso subsequente sobre Aristóteles, Metafísica Θ 1-3, parte da divisão entre o ser das categorias e o ser em potência e em ato, qualificando o ente de “duplo” (διχῶς) e não “simples” (μοναχῶς), duplicidade que se desdobra ainda em três (τριχῶς), pelo verdadeiro e o falso, e finalmente em quatro (τετραχῶς), pelo acidente, permanecendo Aristóteles numa mera justaposição desses sentidos sem articulá-los.

18. A interpretação heideggeriana da pluralidade de sentidos do ente se desloca no momento em que o πολλαχῶς se identifica ao τετραχῶς, distinguindo-se um πολλαχῶς mais restrito das categorias, ele próprio dominado pela unidade do ὄν (ou εἶναι) que Aristóteles não logrou justificar.

19. A questão decisiva que orientará toda a pesquisa posterior de Heidegger após 1935, conduzindo-o ao pensamento do Geviert, encontra-se ao final da parte introdutória sobre o questionamento aristotélico da multiplicidade e da unidade do ser, ao indagar por que o ser se desdobra de modo quádruplo e por que Aristóteles se depara precisamente com esse número quatro.

20. A resposta será dada, de forma inesperada, no seminário de 1939 sobre a Física de Aristóteles, que parte da palavra grega φύσις, traduzida por natura, reconhecida como palavra fundamental que nomeia as relações essenciais do homem ao ente, expressas numa série de quatro pares canônicos.

21. Essa quadripartição, ainda enraizada em Aristóteles, é aproximada de Hölderlin, cuja terceira estrofe do hino Como em Dia de Festa… identifica a Natureza cantada pelo poeta ao Ser buscado pelo pensador, de modo que a palavra diretriz da metafísica (o ser) e a palavra fundamental do pensamento (a natureza) se cruzam na origem, sendo o Ser primeiro em relação aos quatro modos do ente assim como a Natureza é primeira em relação às quatro distinções que a ela se referem.

22. O curso magistral de 1935, Introdução à Metafísica, confirma essa estrutura ao dividir-se em quatro partes, cuja quarta parte se subdivide, por sua vez, em quatro capítulos dedicados às quatro determinações essenciais do ser na metafísica.

23. Heidegger apresenta, sem justificar seu número ou natureza, quatro fórmulas breves que limitam o desdobramento do ser — ser e devir, ser e aparência, ser e pensar, ser e dever —, produzidas a partir de quatro pontos de vista interligados numa “conexão essencial” que penetra todo saber, todo fazer e todo dizer, analogia retomada em 1949 na introdução tardia a O que é Metafísica?, onde a metafísica é qualificada de “dimorfa”, sendo pela segunda vez desenhada a figura dessas limitações do ser disposta em cruz.

24. A comparação com o seminário sobre Aristóteles, cinco anos mais tarde, identificando natureza e ser, mostra a correspondência termo a termo entre as duas tétrades, compondo a figura completa da quadratura do ser e da natureza sob dupla forma.

25. A conclusão da Introdução à Metafísica recapitula essas etapas, afirmando que a questão fundamental foi tratada por meio das quatro cisões — ser e devir, ser e aparência, ser e pensar, ser e dever —, de modo que a delimitação do ser, tributária desses quatro pontos de vista interligados, conduz, numa questão originária levada até o fim, à distinção entre ser e ente como cisão originária que sustenta a história.

26. Esse tetramorfismo do ente, já bem acusado a partir da Duplicidade inicial, retorna ciclicamente nos textos entre 1935 e 1952, em analogia ao ritmo das quatro notas da Quinta Sinfonia de Beethoven (sol, sol, sol, mi), cavando os quatro “sulcos na área do ser” e fazendo da metafísica a “história das marcas do ser”, das quais se retêm as mais significativas ao longo de textos de origem diversa.

27. O curso de 1937, O Eterno Retorno do Mesmo, que busca pensar a filosofia de Nietzsche como fim da metafísica por retornar à origem do pensamento grego, divide-se em quatro seções cuja ordem só se esclarece retrospectivamente após a passagem pelo quarto ponto.

28. A conferência de 1938, A Época das Concepções de Mundo, retomada nos Holzwege, define de modo geral a “essencialidade de uma posição metafísica fundamental” pelo retorno de quatro momentos distintos, nenhum dos quais compreensível independentemente dos outros três, sendo o próprio enunciado desses momentos já um efeito da superação da metafísica.

29. O grande estudo de 1940, O Niilismo Europeu, retoma esses mesmos quatro momentos aplicando-os a todo o campo da metafísica até seu término no niilismo, reafirmando que nenhum dos quatro momentos essenciais pode ser compreendido isoladamente dos demais.

30. Essa quadripartição recorre com insistência crescente até a conclusão sobre a relação do homem ao ente e ao ser, interrogando se os quatro pontos de vista foram suscitados arbitrariamente ou se constituem estrutura interna e unida, provinda de uma “estruturação a princípio sem nome” que não seria senão a relação do homem ao ente.

31. A mesma estruturação unida reaparece, em outro modo, no curso de 1941, Conceitos Fundamentais, no qual Heidegger compõe duas séries paralelas de quatro refrões, uma afirmando que o ser é o mais vazio e comum, o mais evidente e corriqueiro, o mais confiável e repisado, o mais esquecido e coercitivo, espelhada por outra que o diz profusão e unicidade, retraimento e origem, a-bismo e reticência, memória e libertação.

32. Essa litania, já presente no ano anterior ao final de O Niilismo Europeu sob forma de antinomias não exatamente coincidentes, retorna uma última vez no curso de 1952, Was heißt Denken?, que relaciona a quadruplicidade da metafísica ao próprio pensar, abrindo com quatro golpes do destino.

33. A continuação desse texto interroga a unidade desses quatro modos a partir da quarta questão — o que nos chama a pensar — na qual o ser está presente, ainda que dissimulado, paralelamente à cisão “ser e pensar” privilegiada na Introdução à Metafísica, culminando em quatro sentenças finais que, na caducidade da metafísica, abrem caminho ao outro pensamento que cruza a via da poesia.

34. Esse desnudamento testemunha o recuo do pensamento aquém das ricas determinações da metafísica, indicando, em intuição obscura, que o tetramorfismo da metafísica reflete um quadripartido (Geviert) mais inicial ao qual a metafísica jamais logrou remontar, sendo necessário saltar através do espelho metafísico para se encontrar no próprio mundo, que o pensamento e a poesia, em tonalidades diferentes, podem dizer.

35. A última palavra de Heidegger, após o encontro com Hölderlin que revela a justeza de sua intuição sobre a quadratura do ente aberta por Aristóteles, remete à experiência (Erfahrung) do pensamento, expressa em um dos textos mais secretos por dez meditações compostas cada uma de quatro sentenças, encerradas em modo poético por duas quadras sobre as florestas, as torrentes, os rochedos, a chuva, os campos, as fontes, os ventos e a via feliz do pensamento.