Aristóteles

(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001:53-55)

1. Pode-se contestar a leitura brentaniana de Aristóteles que reduz a metafísica, “ciência do ser enquanto tal”, às quatro acepções do ente e, em definitivo, à figura das categorias e à substância, assim como a insistência heideggeriana no número quatro relacionado ao conjunto das determinações de uma posição metafísica; impõe-se, portanto, verificar essa pertinência examinando as principais partições do ser que atravessam o corpus aristotélico, indagando em que medida as divisões de Aristóteles procedem de uma démarche constante que definiria os “traços de seu estilo” e como se explicaria a primazia do número quatro, que ecoa mais a tetraktys pitagórica do que um som propriamente aristotélico.

2. Distinguem-se na obra de Aristóteles três grandes tipos de partições tetrádicas, a serem examinadas em seus elementos constitutivos.

As tétrades físicas

3. Seguindo Empédocles, Aristóteles retém a teoria dos quatro elementos — fogo, ar, água, terra —, citada na Metafísica e deduzida dialeticamente no tratado Do Céu a partir da teoria da translação retilínea segundo os lugares naturais de alto e baixo, opondo-se os quatro corpos dois a dois por situação extrema ou intermediária e por afecções contrárias, sendo eles próprios engendrados a partir de quatro propriedades irredutíveis — o seco, o úmido, o quente e o frio — que não podem ser assimiladas nem subordinadas umas às outras, resultando exatamente quatro combinações possíveis de qualidades elementares, em correspondência racional com o número dos quatro elementos, cujo devir recíproco provém da contrariedade originária entre eles.

4. Quanto à mudança (μεταβολή), princípio de todos os seres da natureza, distribui-se segundo quatro espécies correspondentes a quatro categorias privilegiadas — geração e corrupção (substância), alteração (qualidade), acréscimo e decréscimo (quantidade), translação (lugar) —, doutrina retomada no De Anima a propósito da crítica à teoria da alma automotriz e à concepção pitagorizante que associava a essência da alma aos quatro números das dimensões espaciais.

5. Aristóteles não subscreve essa doutrina pitagorizante, mas considera que os movimentos do mundo são, eles próprios, em número de quatro, conforme o livro III da Física, ao que responde o livro V ao estabelecer que aquilo que muda pode mudar em quatro sentidos (τετραχῶς), eliminando-se a possibilidade sem oposição e acrescentando às três formas de mudança segundo quantidade, qualidade e lugar uma quarta, a mudança segundo a substância, isto é, geração e corrupção.

As tétrades lógicas

6. No Organon, Aristóteles recorre a diversos classificações tetrádicas para ordenar os elementos do raciocínio dialético, sendo o mais notável o das quatro classes de predicados mais gerais — definição, próprio, gênero e acidente — obtidas a partir da divisão do “próprio” em duas partes, uma que designa expressamente a quididade da coisa (a definição) e outra que conserva o nome habitual de “próprio”.

7. O capítulo seguinte precisa o sentido de cada um dos quatro predicáveis.

8. Nos Tópicos, os instrumentos que fornecem os raciocínios dialéticos são também quatro em número.

9. Nas Refutações Sofísticas, Aristóteles distingue desde logo quatro gêneros de argumentos presentes em toda discussão.

As tétrades ontológicas

10. Além das quadripartições físicas e dialéticas, próprias de contextos específicos, encontra-se em Aristóteles número significativo de partições quádruplas destinadas a caracterizar de modo geral o ente enquanto ente, das quais se indicam a seguir as principais.

11. Os quatro modos do ser são o ser como acidente, o ser como verdadeiro, o ser segundo as categorias e o ser em potência e em ato, partição já encontrada como fio condutor da pesquisa de Brentano e à qual Heidegger identificará, tomando outro termo de Aristóteles, o τετραχῶς da metafísica.

12. Os quatro gêneros do ente, segundo as Categorias, distinguem aquilo que é afirmado de um sujeito sem estar em nenhum sujeito (substância segunda), aquilo que está num sujeito sem ser afirmado de nenhum sujeito (acidentes singulares), aquilo que é ao mesmo tempo afirmado de um sujeito e está num sujeito (acidentes universais), e aquilo que não está em nenhum sujeito nem é afirmado de nenhum sujeito (substância primeira), determinações que, agrupadas duas a duas, reconduzem-se às substâncias primeiras e segundas, aos atributos essenciais e acidentais.

13. As quatro acepções do Uno, estudadas no livro Δ, 6 da Metafísica, reúnem-se sob quatro rubricas principais — o contínuo, o todo, o indivíduo e o universal —, sendo o ser e o uno reciprocamente correlatos segundo a doutrina constante de Aristóteles.

14. As quatro acepções da substância, privilegiando o ser sob a modalidade da “figura das categorias”, correspondem à quididade (τὸ τί ἦν εἶναι), ao universal (τὸ καθόλου), ao gênero (τὸ γένος) e ao sujeito (τὸ ὑποκείμενον), sendo o sujeito e sobretudo a quididade os mais desenvolvidos por Aristóteles, notando-se ainda que o conjunto das dez categorias já foi reconduzido às quatro primeiras — substância, quantidade, qualidade e relação.

15. Os quatro modos da quantidade distinguem a quantidade discreta (como o número ou o discurso proferido) e a contínua (como a superfície ou o sólido), bem como as quantidades de posição recíproca entre suas partes (como a linha) e as que não a possuem (como o tempo), sendo apenas essas quatro modalidades a quantidade em sentido próprio.

16. A terceira categoria, a qualidade, divide-se em quatro espécies: o estado e a disposição, reunidos numa mesma determinação de maior ou menor estabilidade; a aptidão ou inaptidão natural para realizar uma tarefa; as afecções, como a doçura, o calor ou a negrura, aplicadas ao corpo ou à alma; e a figura ou forma, como o reto e o curvo.

17. Os quatro modos da oposição, ainda que a categoria da relação não seja dividida por Aristóteles, compreendem a oposição dos relativos, a dos contrários, a da privação e a da contradição, sendo esta última, por excluir todo intermediário, privilegiada no livro I da Metafísica.

18. As quatro questões do conhecimento, estabelecidas no livro II dos Segundos Analíticos antes da introdução da teoria das quatro causas, correspondem simetricamente às interrogações do conhecimento e aos domínios do ser por elas investigados, formando pares que recortam sistematicamente o campo metafísico e antecipam a quadruplicidade tanto do ente quanto do conhecimento a ele ordenado.

19. Essas quatro questões, ilustradas pelo exemplo do Snark do conto de Lewis Carroll — cuja captura exige atestar o fato de sua presença, justificar a razão da busca, definir sua essência pelas cinco características da “snarkidade” e por fim verificar sua existência —, encerram o ente numa rede ontológica inextricável que se dissolve por inteiro no instante em que se revela que o Snark era, afinal, um Boujum.