1.2 A destinação hölderliniana

MARTINEAU, Emmanuel. La provenance des espèces: cinq méditations sur la libération de la liberté. Paris: Presses universitaires de France, 1982.

A destinação hölderliniana como decisão

1. A suposta influência da primeira filosofia de Fichte sobre Hölderlin é uma ilusão perigosa, pois a marcha do espírito poético hölderliniano deveria intitular-se antes “O curso e a destinação do homem em geral”, e uma leitura minuciosa desse ensaio inesgotável revela que, se a “destinação do homem” forma o horizonte da pesquisa, isso se dá menos por dependência de Fichte do que pela retomada da problemática mundana da terceira Crítica, que Hölderlin simplesmente conduz a mais kantismo do que o próprio Kant.

2. O estatuto do Aufsatz: a Verfahrungsweise não é estética nem mesmo “poetológica”, mas transcendente, pois, guiada pela intuição de que “o curso e a destinação do homem em geral” e “o curso e a destinação de toda poesia” são o mesmo (ebendasselbe), essa proto-Crítica empreende exibir sob o nome de espírito poético a legalidade mesma da razão pura como espírito finito.

3. Hölderlin insere a emoção transcendente em uma “cultura”, não no sentido de Kultur (Fichte), mas no sentido daquela Bildung que, desde o Fragmento de Thalia, parece ser a partilha dos modernos, constituindo essa emoção o terceiro de cinco momentos distinguidos pelo § 31, que retoma a marcha do ensaio apresentando-a como história “secreta” e não mais “pragmática”.

4. O mais importante, ou literalmente o decisivo, está em outro lugar: Hölderlin não se limita a reportar a poesia a uma emoção que seria fonte tanto do ato do espírito do poeta quanto do “órgão diretamente oposto ao espírito”, isto é, da intuição pura, deixando o leitor no limiar da Estética; vai mais longe, até um ponto onde só Vom Wesen der Wahrheit, por outros meios, saberá chegar.

5. A finitude é receptividade, mas a receptividade não é passividade: é, segundo o termo kantiano, afecção. A afecção não é afeto nem afetividade, mas emoção; a emoção não é movimento nem imobilidade, mas pathos; o pathos não é patético nem apático, mas existência; a existência não é êxtase nem instase, mas ek-sistência; e a ek-sistência é Instandigkeit in der Lichtung, isto é, liberdade.