O elemento de conexão entre filosofia e teologia é, para
Bultmann, a relação entre existência e conquista de si: a filosofia sempre pressupôs que o ser humano se perdeu ou está em perigo de se perder, conclamando-o a vir a ser ele mesmo, mas pretendendo que ele pode, por si mesmo, “desentulhar” sua verdadeira naturalidade.
A fé em Cristo é, para
Bultmann, o único âmbito em que o homem vem a ser ele mesmo, pois somente nela Deus age salvificamente – e somente na fé aparece a impossibilidade daquilo que a filosofia afirma acerca da conquista do si mesmo humano poder ser realizado pelo próprio ser humano.
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A filosofia “opina que o saber a respeito de sua autenticidade já toma o ser humano capaz de atingi-la. Sua autenticidade é aquilo que ele, embora não realize permanentemente, pode a qualquer momento realizar: tu podes, pois tu deves!”.
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Frente à compreensão cristã do ser, o ser humano “perdeu a possibilidade de fato; e também o seu saber a respeito de sua autenticidade é falsificado pelo fato de estar vinculado à opinião de ser capaz de atingi-la”.
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O Novo Testamento luta contra a autossuficiência humana – o termo neotestamentário para autossuficiência é pecado – e Paulo afirma na primeira epístola aos Coríntios: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não tiveras recebido?”.
Bultmann assume a filosofia existencialista – identificada com diversos conceitos da analítica existencial de Ser e tempo – como “filosofia justa” capaz de sustentar o procedimento da desmitologização e da exegese bíblica, escolha motivada pela fé e pelo caráter existencial que lhe é próprio.
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A filosofia “existencialista” foi privilegiada porque nela é a existência mesma que está em jogo, e os elementos constitutivos da existência não são eliminados pela fé, mas rearticulados existenciariamente.
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Os conceitos da filosofia existencialista possuem caráter formal e indiciam aquilo que só aparece para o ser humano crente, impedindo a teologia de se desenraizar do caráter existencial da fé e de produzir discursos genéricos de caráter metafísico.
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A teologia assim orientada explicita conceitualmente e formalmente o acontecimento da fé, cujo conteúdo só aparece na decisão singular hic et nunc do ser humano crente.
Para compreender como
Bultmann se apropria da relação corretiva da filosofia com a teologia pensada por Heidegger, é necessário sintetizar o modo como Heidegger a pensou em Fenomenologia e Teologia: a teologia é ciência ôntica, pois não investiga o sentido do ser, mas um campo específico do ente, cuja abertura depende de um processo compreensivo pré-predicativo identificado com a fé.
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A fé, positum da teologia, é um tipo de autocompreensão existencial do ser-aí que descerra um campo intencional correlato – não anuência a doutrinas, mas modulação existenciária da estrutura existencial do ser-aí.
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A filosofia, enquanto ontologia fundamental, relaciona-se corretivamente com a teologia acompanhando suas investigações e acenando para o caráter existencial da fé, preservando o caráter de indicativo formal dos conceitos teológicos – conceitos que não descrevem hipóstases ontológicas, mas cuja significatividade só aparece na existência concreta do ser-aí crente.
A filosofia “existencialista” aparece para
Bultmann como auxiliadora da explicitação da dinâmica existencial da fé em Cristo, sendo a fé que assinala a plausibilidade ou implausibilidade de determinados conceitos filosóficos.
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Há identidade e diferença em relação ao que Heidegger pensou em Fenomenologia e Teologia: Heidegger não prescreveu que a teologia usasse a filosofia existencial como recurso, mas disse apenas que a filosofia acompanha a investigação teológica e acena para a região ôntica de onde a teologia haure suas forças.
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Bultmann, ao usar conceitos filosóficos como autenticidade e si mesmo no labor teológico, parece funcionalizar a filosofia de modo não pensado por Heidegger – mas o faz já em meio ao horizonte da fé, retorcendo o caráter filosófico desses conceitos e não fazendo filosofia, mas teologia.
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Ao teologizar os conceitos da filosofia existencialista em sua desmitologização,
Bultmann transformou a teologia em autocompreensão conceitual da existência crente, fornecendo aos conceitos teológicos o caráter de indicativo formal – realizando, assim, como teólogo, o que Heidegger chamou de relação corretiva da filosofia com a teologia.