Ainda na primeira fase, em Fenomenologia e teologia de 1927, Heidegger se relaciona positivamente com a teologia cristã ao reformular sua definição: a teologia não possui Deus como objeto, mas é “a ciência da fé” – isto é, “a ciência daquilo que é desvelado na fé, isto é, daquilo em que se crê” –, sendo a fé um modo de existência do ser-aí responsável por um campo específico de abertura de mundo.
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Na fé, a revelação não é o anúncio de um dado escriturístico, mas o tomar parte no “acontecimento da crucifixão” – participando do qual o ser-aí vem a ser cristão numa “metamorfose existencial” definida como renascimento: “fé = renascimento”.
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A filosofia, enquanto fenomenologia-hermenêutica que descreve as estruturas do ser-aí, serve à teologia como saber corretivo – seus conceitos lhe garantem clareza por remissão aos existenciais do ser-aí –, mas sem ser reduzida a ancilla theologiae, pois sobrevive em sua tarefa mesmo sem qualquer referência à teologia.
Com a viragem heideggeriana, o problema da hierofania é explicitamente reinscrito na filosofia a partir da questão da verdade do seer (Seyn): na Carta sobre o humanismo, Heidegger afirma que “é só a partir da verdade do ser que se pode pensar na essência do sagrado. E é só a partir da essência do sagrado que se pode pensar a deidade. É só à luz da essência da deidade que se pode pensar e dizer o que deve nomear a palavra 'Deus'”.
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Após a viragem, a meditação heideggeriana recai sobre o acontecimento da verdade do seer e do mundo epocal que com sua essenciação se abre – acontecimento destituído de fundamentos últimos, de cuja negatividade emerge a possibilidade de se repensar a essência do sagrado.
A ambiguidade do tema da hierofania em
Nietzsche e Heidegger – que em um primeiro momento parecem alijar o problema do sagrado e posteriormente fazem menção direta a ele – desconstrói os preconceitos que os enquadram nos átrios do ateísmo moderno e mostra, ainda de modo não esclarecido, a viabilidade da investigação proposta.