Para superar a aporia de 1927, segue-se o caminho traçado pela conferência de 1929, que tenta acessar o ser diretamente a partir do terreno das ciências positivas.
As ciências positivas ocupam-se apenas do ente (das Seiende) objetivável, excluindo explicitamente o ser e qualquer outro fenômeno.
Sua relação mundana (Weltbezug), atitude (Haltung) e irrupção investigadora (Einbruch) têm como meta “o ente mesmo — e nada mais (und sonst nichts)”.
Este “nada mais” introduz, de modo clandestino, um termo outro que o objeto: o Nada (das Nichts) como o outro do ente objetivado.
O “nada” que surge na exclusão científica possui uma essência bifronte que desorienta o entendimento comum.
Surge como um “quase nada” da denegação, mas sugere a plenitude de um fenômeno.
A objeção principal (antecipada por Heidegger e depois formulada por Carnap) é que interrogá-lo já o trata tacitamente como um ente, incorrendo em uma falha lógica.
Esta redução do Nada a uma “partícula lógica” ou a um exercício abusivo da negação é um refúgio da metafísica moderna (niilista) para evadir seu pensamento.
A análise de Bergson sobre a “ideia de nada” ilustra e, ao mesmo tempo, revela os limites desta redução lógica.
Bergson deriva a ideia de nada da negação, mostrando como se passa da substituição de um possível à sua supressão e depois à supressão de todos os possíveis (nada absoluta).
Contudo, sua crítica mostra uma contradição: se a negação tem apenas um “pretenso poder”, como pode gerar a poderosa “ideia de nada”?
Isto sugere que o Nada poderia preceder a negação, ou que a negação atesta o poder do Nada por sua própria deficiência.
A questão fundamental desdobra-se então em dois interrogantes:
(a) A negação produz o Nada, ou o Nada torna originariamente possível a negação? Heidegger afirma o segundo: “o Nada é mais originário que o não e que a negação”.
(b) Se o Nada precede a negação, pode ele se dar em pessoa? “Deve poder ser encontrado”. Sua primazia exige uma legitimação intuitiva, fenomenológica.
Para ser interrogado fenomenologicamente, o Nada redefine-se provisoriamente como “a negação da totalidade do ente”, “o absolutamente não-ente”.
O problema desloca-se então para a doação da totalidade do ente, requisito prévio para experimentar sua negação (o Nada).
Esta totalidade não é inacessível se se distingue entre “apreender a totalidade do ente em si” (impossível) e “encontrar-se no meio do ente em seu conjunto” (realizável).
Heidegger privilegia, para este acesso, tonalidades afetivas (Stimmungen) do Dasein: o tédio e a alegria (esta última ligada ao amor).
O tédio profundo concede acesso ao ente em sua totalidade através da indiferença.
Ele não se fixa em um ente particular, mas confunde todas as coisas, homens e a nós mesmos em uma indiferença indistinta.
A indiferenciação qualitativa e quantitativa permite que alguns entes sejam experimentados como a totalidade.
Este “em seu conjunto” que se abre é nomeado mundo.
A alegria pela presença do Dasein de um ente amado também é mencionada como via de acesso, mas não é analisada com a mesma profundidade.
O tédio tem, portanto, um papel provisório: ele doa a totalidade do ente, mas não o Nada.
Para a mise en scène fenomenológica do Nada (em vista do “fenômeno do ser”), requer-se uma tonalidade fundamental (Grundstimmung): a angústia.
A angústia repete a indistinção do tédio, mas a inverte.
Como o tédio, ela não se fixa em um ente determinado. Ao contrário do medo, que teme algo específico, a angústia é indeterminada.
Esta indeterminação não é uma falta, mas sua definição: o que angustia é a possibilidade da ameaça vinda de qualquer lugar, de todo o ente.
Enquanto no tédio o ente na totalidade se afasta em indiferença, na angústia este mesmo ente se retrai de modo ameaçador.
O Dasein angustia-se com o recuo, com a ausência, com o Nada do ente. A angústia é angústia do Nada.
A crise de angústia manifesta, portanto, o fenômeno fundamental: “a angústia revela o Nada”; “o Nada mesmo — como tal — estava ali”.
A questão sobre o Nada permanece, assim, efetivamente posta (gestellt).
A conclusão levanta a pergunta decisiva: O que o Nada, que aí está, manifesta ao ser-aí (Dasein)?