Perguntar, inversamente: como o caráter essencialmente e originariamente de evento do fenômeno e mesmo de todo fenômeno (incluindo o mais banal, que acabamos de descrever) pode esvaecer-se, atenuar-se e desaparecer?
Não mais perguntar: até onde pode-se legitimamente pensar o fenômeno como um evento
Mas por que: pode-se perder sua fenomenalidade rebaixando-a à objetividade?
A esta questão em retorno, pode-se responder inspirando-se em
Kant
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A primeira das quatro rubricas que organizam a categoria do entendimento e portanto impõem aos fenômenos o quádruplo selo da objetidade concerne a quantidade
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Todo fenômeno, indica Kant, deve possuir, a fim de tornar-se um objeto, uma quantidade, uma grandeza extensiva
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Segundo esta grandeza, a totalidade do fenômeno equivale a e resulta da soma de suas partes
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De onde segue outro caráter, decisivo: o objeto pode e deve prever-se segundo a soma das partes que o compõem
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Isto significa certamente que a grandeza de um fenômeno pode sempre modelar-se em uma quantidade em direito finita
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Isto significa sobretudo que o fenômeno se inscreve em um espaço que podemos sempre conhecer de antemão operando a somação de suas partes
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Esta sala tem uma quantidade que resulta da soma de suas partes
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Seus muros definem seu volume
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Outros parâmetros não extensos (seu custo de fabricação e manutenção, sua taxa de ocupação) definem seu peso orçamentário e sua utilidade pedagógica
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Não resta em princípio mais nada nela para a menor surpresa
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A sala se encontra prevista antes mesmo de ser vista
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Esta redução da sala à sua quantidade previsível faz dela um objeto
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Assim se dá para todos os objetos técnicos
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Não os vemos mais, não temos mesmo mais necessidade de vê-los, porque os prevemos de longa mão
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Chegamos mesmo tanto melhor a utilizá-los quanto os prevemos sem preocupar-nos de vê-los
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Começamos apenas a dever vê-los quando não podemos mais ou ainda não podemos prevê-los
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Em regime de uso técnico normal, não temos assim que ver os objetos
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Reduzimo-los ao posto de fenômenos de segunda ordem, de direito comum
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Aparecem-nos em transparência, na luz neutra da objetidade
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De que se encontra assim decaído o fenômeno previsto e não visto, o objeto?