Esta repetição implica que, na “destruição” da acepção cartesiana, o
ego não desaparece, mas nasce para sua figura fenomenológica autêntica.
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O “novo início” se inaugura com a declinação do ego segundo as exigências existenciais, e não metafísicas, da analítica do Dasein.
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A questão torna-se, então, como a egoidade (Ichheit) do ego pode atingir sua legitimidade fenomenológica.
A diferença ontológica do
Dasein funda a possibilidade do pronome pessoal “eu sou”.
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O Dasein é o ente para o qual, em seu ser, está em jogo esse seu ser, que é em cada caso meu (je meines).
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Portanto, a interpretação do Dasein deve sempre dizer também o pronome pessoal: “eu sou”, “tu és”.
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O “eu sou” resulta da propriedade do Dasein de se colocar em pessoa no jogo de seu próprio ser.
No entanto, o
Eu (
Ich) só tem legitimidade como determinação existencial se interpretado a partir da
ipsidade (
Selbstheit).
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O Si-mesmo (Selbst) que a resolução reticente desvela é o solo fenomênico originário para a questão do ser do “Eu”.
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Somente a orientação fenomenal sobre o sentido de ser do poder-ser-Si-mesmo (Selbstseinkönnen) autêntico pode elucidar o direito ontológico de caracteres como substancialidade, simplicidade e personalidade.
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O Si-mesmo torna possível que qualquer pronome pessoal, inclusive o “Eu”, possa se dizer autenticamente.
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Inversamente, o Dasein na postura do Man pretende apegar-se ao Eu, que é então uma “aparência de um Si-mesmo” (scheinbare Selbst).
O fenômeno do
Si-mesmo torna-se visível na fenomenalidade do
cuidado (
Sorge).
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A expressão “cuidado de si” (Selbstsorge) seria uma tautologia, pois em todo cuidado é precisamente de si que o Dasein cuida.
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Neste contexto, o “eu sou” encontra seu lugar fenomenológico correto: ele põe em obra o cuidado de si do Si, conforme o cuidado como ser do Dasein.
O “eu sou” intervêm em momentos-chave da analítica para marcar a
minhidade (
Jemeinigkeit), o fenômeno da
dívida (
Schuld) e a
abertura (
Erschlossenheit) do
Dasein na resolução.
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Ele marca a minhidade: “o ente que denominamos Dasein, eu o sou em cada caso mesmo (bin ich je selbst)”.
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Ele é o predicado do “ser-culpado”: “o essencial aqui é que o 'ser-culpado' surge como predicado do 'eu sou' (ich bin)”.
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Ele expressa a abertura autêntica na resolução: “o Si-mesmo que este ente é enquanto 'eu sou' (als 'ich bin')”.
O
Eu único pode se desdobrar fenomenologicamente de duas maneiras opostas, correspondendo às posturas autêntica e inautêntica do
Dasein.
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De modo inautêntico (cartesiano): como a identidade e constância (Selbigkeit und Beständigkeit) de um ente à mão (vorhanden), caracterizado pelo conceito ontológico de substância.
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De modo autêntico (existencial): como e a partir do Si-mesmo (Selbst), portanto, da minhidade que põe em jogo o Dasein em seu ser.
O acesso do
Eu ao seu estatuto não-cartesiano se dá na oposição entre a irresolução inautêntica e a
ipsidade (
Selbstheit) lida existentialmente sobre o poder-ser-si-mesmo autêntico.
Conclui-se que o
Eu pode tanto precisar ser “destruído” quanto poder ser “confirmado”, dependendo de qual determinação do
Dasein o repete.
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Inautenticamente, à maneira cartesiana da res cogitans persistente.
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Autenticamente, à maneira da resolução antecipadora, da estrutura do cuidado, da minhidade do Dasein.
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O ego cogito deixa de ser uma tese metafísica a refutar para tornar-se o território mesmo que o Dasein deve conquistar e reinterpretar.
A relação entre
ego e
Dasein revela-se, portanto, como uma luta pela interpretação de um mesmo fenômeno: “eu penso”, “eu sou”.
Esta nivelamento suscita novas interrogações sobre a determinação do
Eu e da
ipsidade.
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Questões internas a Sein und Zeit: A determinação do “eu sou” pela ipsidade é completa? A ipsidade define-se suficientemente pela estrutura do cuidado? Ela atinge todos os entes ou apenas o Dasein?
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Questões que ultrapassam Sein und Zeit: O Eu atesta sua última base na função de “eu sou”, fenomenologicamente realizado como Da-sein? O que se põe em jogo no Eu esgota-se necessariamente em termos de ser? No Eu, está em jogo primeiramente seu ser, ou, mais originariamente, uma mise en jeu anterior? É permitido, apesar do silêncio de Sein und Zeit, colocar esta questão?