O próprio Heidegger, no Posfácio, parece admitir o abismo entre Nada e ser ao tentar reduzi-lo.
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Ele considera a hipótese de o Nada permanecer um “nada de Nada (nichtiges Nichts)”, uma “privação de ser (Seinslosigkeit)” definitiva.
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Rejeita-a apelando para a pertença mútua e indissolúvel de ser e ente. Este argumento, porém, é circular: pressupõe o que precisa ser estabelecido a partir da experiência da angústia.
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A correção textual de 1949 (de uma subordinação para uma implicação recíproca entre ser e ente) revela o esforço para paliar a insuficiência da interpretação do Nada como ser.
Conclui-se que uma interpretação é, como tal, requisitada para atingir o ser a partir do Nada. Caso contrário, o Nada poderia constituir o último fenômeno.
A questão seguinte é: por qual fio condutor deve se desdobrar a interpretação do Nada como ser?
A solução surge no Posfácio com a introdução de uma nova instância: a reivindicação do ser (Anspruch des Seins).
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Ignorada em 1929, ela é a única que pode arrancar a conferência de sua aporia.
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A reivindicação que o ser exerce sobre o Dasein deve realizar o que falta na reivindicação deficiente do ente: desvelar o Nada como o ser.
Esta intervenção implica uma inversão total do percurso fenomenológico.
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A transição não é mais praticável a partir do Nada (o início próximo), mas apenas a partir do ser (o termo longínquo).
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O percurso começa pelo fim: o chamado do ser. O sobrevindo que permite a transição exerce-se desde seu termo mais ignorado.
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A analítica existencial da angústia torna-se, assim, insuficiente ou mesmo supérflua para manifestar o “fenômeno do ser”. A passagem ao ser cabe ao ser.
Os textos do Posfácio descrevem esta reivindicação com clareza.
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(i) “A voz do ser (die Stimme des Seins) (…) que toma em reivindicação (in den Anspruch nimmt) o homem em sua essência, para que ele aprenda a experimentar o ser no Nada.” A experiência do ser resulta da irrupção convocatória do ser mesmo.
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(ii) O pensamento essencial “responde à reivindicação do ser (antwortet dem Anspruch des Seins)”, na medida em que o homem “remete em resposta (überantwortet)” sua essência histórica ao simples do ser. O homem não reivindica o ser; é o ser que o reivindica.
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(iii) “A oferenda permanece na essência do acontecimento (Ereignis), enquanto o ser reivindica (in den Anspruch nimmt) o homem para a verdade do ser.” A reivindicação é exercida pelo Ereignis, o último nome do ser, que “se apropria (er-eignet)” e “se serve (braucht)” do homem.
O centro de gravidade do questionamento desloca-se decisivamente.
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A analítica existencial, que pretendia remontar do ente ao ser, cede lugar ao evento do ser, único iniciador de seu fenômeno.
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O único fio condutor para interpretar o Nada como ser provém diretamente do ser, demanda uma resposta diante do ser e se cumpre no Ereignis.
Em última instância, trata-se menos do ser do que da reivindicação que ele exerce e graças à qual advém ao homem.
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Ou, inseparavelmente, trata-se do ser como reivindicação.
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Apenas a atenção a esta reivindicação abre a fenomenalidade do ser, ou abre a fenomenalidade para o ser.
O ser só se diz reivindicando, portanto só se dá a uma resposta. Ouvir esta reivindicação como a do ser e dar-lhe resposta à sua medida decidiria, enfim, do “fenômeno do ser”.