Resta a última resposta: o fenômeno aqui do quadro aparece enquanto se reduz à sua entidade, se reconduz ao seu caráter de ente (
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Examinando a fenomenalidade da “obra de arte”, Heidegger perseguiu esta via tão longe quanto possível — ao ponto onde a essência da arte sustenta-se em sua propriedade de tornar mais manifesta a verdade do ente: “Assim a essência da arte seria isto: o colocar-em-obra da verdade do ente”
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A dificuldade desta tese não sustenta-se no fato, fenomenologicamente pouco contestável, de que a arte coloque em obra sobre um modo insigne a verdade dos entes que trata
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Pois é precisamente por esta razão que jamais vemos melhor os entes que na irrealidade do quadro, que os príncipes e os princípios sempre quiseram beneficiar-se diretamente deste poder de melhor aparecer ou ao menos indiretamente controlaram-no e que a filosofia sempre pretendeu ter direito de olhar sobre a arte, como sobre seu assunto o mais próprio
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Heidegger provoca aqui uma muito outra questão: a colocação em obra da verdade do ente, que pertence bem também à arte, define por isso sua essência?
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A arte, considerada em sua fenomenalidade tão particular que se deve lhe reconhecer o título exclusivo de beleza, esgota sua essência na verdade em geral do ente, como um descobrimento do ente mesmo enquanto não releva justamente nem do belo, nem da arte?
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A arte serve, em sua essência, seu próprio modo de fenomenalidade (a beleza), ou uma fenomenalidade diferente da sua, a, universal e indeterminada, do ente, que tem nome, para a metafísica como para Heidegger, a verdade?
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A fenomenalidade de beleza se rebate sobre a fenomenalidade de verdade como uma simples modalidade?
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Heidegger o assume sem ambiguidade: “A beleza é um modo, segundo o qual se desdobra a verdade como desvelamento”
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A obra se manifesta segundo sua beleza (portanto sua fenomenalidade) própria em vista do ente, isto é, ao se ordenar a um fim outro que ela — a verdade, portanto a fenomenalidade do ente em geral
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A obra (bela) só se coloca finalmente em obra em vista da manifestação da entidade
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O belo não obra para ele, mas, quase como um usual, para a manifestação do ente
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A beleza se cumpre e se abole na verdade
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Trata-se de uma démarche exatamente inversa da nossa: reduzir a fenomenalidade ainda problemática e portanto fenomenologicamente privilegiada do belo à, mais conhecida, do verdadeiro, no lugar de se apoiar sobre os recursos da fenomenalidade do belo para aceder a uma fenomenalidade ainda não conquistada — e sem dúvida mais radical, a do dado
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Heidegger, ao colocar esta redução, não se limita, certamente com uma genial potência, a repetir o tema metafísico por excelência da convertibilidade dos transcendentais?