Segunda aporia formal: a título de Eu transcendental, o “eu penso” tampouco pode se liberar do solipsismo
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Não se trata somente da dificuldade clássica de demonstrar a existência do mundo exterior (
Descartes, Malebranche, Berkeley,
Kant), que se limita a uma região do ente e permanece de direito sempre superável (
Husserl, Heidegger)
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Trata-se sobretudo das implicações transcendentais do primado de um “eu penso” que acompanharia toda outra representação: tal dispositivo supõe que toda representação equivalha, em seu fundo, a uma representação de si, que toda cogitatio encerre uma cogitatio sui, portanto que todo “eu penso” se desenvolva implicitamente em um “eu me penso”
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Implicação que se notará doravante por um “eu [me] penso”
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Parecida circularidade não produz somente a tautologia formal do “eu penso” como “eu sou”, imita sobretudo a identidade entre a essência e a existência desdobrada pelo pretendido “argumento ontológico” ou pela causa sui
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Todo pensamento (de qualquer essência que seja) compreende nele a existência (o primado ôntico-epistêmico) do Eu como “eu penso”, cuja essência basta para causar sua própria existência
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Donde esta consequência, que nenhum pensamento intervém que não dê primeiro a pensar, antes dele mesmo, o “eu [me] penso”
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E, mesmo se se admitisse a boa-fundação deste solipsismo de princípio (Berkeley), não se poderia tolerar a inadequação que ele acarreta na simples descrição do “sujeito”
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Nele mesmo com efeito, o primado do “eu [me] penso” não somente não permite dar conta da finitude do “sujeito”, mas a interdita radicalmente
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Pois, se Kant mantém esta finitude, é porque redobra a espontaneidade do “eu penso” pela receptividade da sensibilidade, ao passo que Husserl não cessa ao contrário de deixar derivar seu Eu transcendental em direção à indefinição e à unicidade universal, porque mantém sempre a primazia da atividade sobre a passividade e da visada intencional sobre o preenchimento intuitivo
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Inversamente, Heidegger só restabelece tão nitidamente a finitude, porque arranca primeiro o Dasein ao prestígio da atitude teórica e do “eu [me] penso”, pelo ser-no-mundo, a conjuntura [Bewandtnis] e a facticidade
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Aliás, Descartes não teria, o primeiro, retido o ego na finitude, se não tivesse tomado cuidado de enquadrar a cogitatio sui de um lado pela dúvida e a criação das verdades eternas e, de outro, por sua vontade formalmente infinita
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Parece então claro que o privilégio concedido ao único e somente “eu penso” para descrever a subjetividade resulta em contradizer ou ignorar o traço contudo essencial: sua finitude
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Aqui ainda se instaura um dilema: é preciso renunciar a pensar a finitude do “sujeito” para manter o privilégio do “eu penso”, ou bem acabar com o “eu penso” para fazer direito à finitude do “sujeito”, ou antes do atributário que vem depois dele?
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Inclina-se para a segunda solução