Pois a redução, mesmo por sua operação e radicalização, torna evidente, nem que seja por contraposição, a possibilidade, mesmo a necessidade, de uma exceção, de um irredutível
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Seja entendida como um fenômeno particular que é, ao fim, não-reduzido
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Ou seja concerne diretamente à operação da própria redução
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Esta indecisão mesma destaca a única questão: o que resulta da redução, a que a redução reconduz as coisas quando as transpõe em fenômenos?
Com efeito, a identificação do possível irredutível não é evidente por si mesma
Uma tradição polêmica bastante longa assimilou, ao menos desde Cavaillès, a fenomenologia a uma filosofia da consciência, mesmo uma filosofia da intuição
Neste caso, e consequentemente, o suposto irredutível da fenomenologia consistiria na intuição originariamente percebida pela consciência
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Assim aproximadamente definida, a doação suscita de uma só vez uma inevitável dupla reticência
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A primeira deve-se ao seu caráter factual, imposto
de facto e sempre já cumprido
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O dado, seja ele qual for, com efeito não admite exceção
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O dado de fato está sempre já aí, ou antes sempre já aqui, o mais próximo possível
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Estamos imediatamente presos nele, nossos pés nele, enredados até a náusea no horror do fundo que nos cola a ele
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Mesmo nossa própria experiência do nada, supondo, além disso, que tenhamos alguma vez realmente tido uma, já supõe um dado
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O dado portanto abre toda experiência, mas como a abre de antemão e de fato, neste sentido a fecha
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Porque a decidiu antes e sem nós, impõe-a sobre nós, faz-nos chegar atrasados desde o início
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Orienta-a para nós, condiciona-a para nós e raciona-a para nós sem dar-nos razão alguma do porquê
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O começo pertence ao dado, e este começo decide o fim
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Com o dado, desde o começo, vemos o fim, estamos acabados, em todos os sentidos do termo
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De onde o inevitável, mesmo automático, reflexo da racionalidade
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Pensar e compreender consistirá em recusar a autoridade de facto do dado
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Desconstruí-lo e suspendê-lo para recuperar a iniciativa da dedução e restabelecer um outro começo, o do a priori
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Conquistado após o fato como uma inauguração em reverso: quanto menos dado, tanto mais pensado
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O dever da negatividade requer desfazer esta simples autoridade
de facto do dado para substituir-lhe a autoridade
de jure de um
a priori, seja ele qual for
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A segunda reticência segue e reduplica gravemente a primeira
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Se além disso a doação de fato procede por intuição (e uma intuição sensível opaca)
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Não apenas a doação pode dar conta de sua intuição por seu fato bruto
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Pois, como
Descartes notou, uma ideia pode ser clara (“
menti attendenti praesens et aperta”, presente e aberta à atenção da mente)
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Sem todavia tornar-se distinta, isto é, distinguindo-se precisamente de outras ideias sensíveis para apresentar-se claramente como tal
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(“ab omnibus aliis ita sejuncta et praecisa, ut nihil plane aliud, quam quod clarum est, in se continat”, “tão nitidamente separada de todas as outras percepções que contém dentro de si apenas o que é claro”)
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O sensível impõe-se (
s'impose), mas não é posto (
se pose) como tal
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Uma cor aparece, mas sem dar os critérios que a definem e portanto sem distinguir-se de uma outra
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Digo que isto é vermelho, e outros podem concordar comigo sobre este julgamento (salvo doenças oculares)
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E podemos mesmo distingui-lo de outras cores (amarelo ou azul)
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Mas nem eles nem eu podemos dizer o que este vermelho mostra concernente ao vermelho, este vermelho como tal
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Resumido na intuição sensível, o dado permanece mudo concernente a si mesmo
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Fecha o acesso ao seu fato brutal, recusa-se à identificação, à diferenciação, e portanto finalmente à significação
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Sem significação, o dado, doravante apenas sensível, permanece portanto cego (
aveugle)
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Não vendo nada, mas sobretudo não dando nada a ver
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Como um quarto sem janelas (pièce aveugle), camera obscura, invisível e sem luz — finalmente insensível
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O dado não poderia portanto, especialmente se se duplica em um dado sensível, assegurar a fenomenalidade
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Como tal, mudo e cego, um puro e indefinido “isto”, torna-se insensível, sem nenhum sentido
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De onde, sem dúvida, a queixa recorrente que denuncia o fetichismo do dado