Há mais: não somente o ente, mas o ser ele mesmo — enquanto ao menos se possa falar, em Husserl, de tal “ser ele mesmo” em sua diferença pensada com o ente — se declina segundo a doação
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Assim, a percepção de um “este-lá” absoluto fornece “… algo sobre o que posso medir como sobre uma medida última o que ser e ser dado (Sein und Gegebensein) podem e aqui devem significar…”
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Certamente, Husserl admite que esta equivalência entre “ser” e “ser dado” só vale para “…o tipo de ser e de doação que se exemplifica pelo 'este-lá'”, parecendo assim duvidar que a presença subsistente de um τόδε τι ofereça o único, até o primeiro sentido do ser
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Contudo, não fosse senão sobre este caso particular, coloca não obstante em toda claridade a equivalência do ser mesmo com o ser dado
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Não se saberia negligenciar estas equações, nem considerar como uma aproximação sem consequência a determinação do ente, até do ser, pela doação
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Primeiro porque o texto de 1907 guarda um papel eminente em toda a elaboração dos conceitos fundamentais da fenomenologia
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Em seguida porque o alcance ôntico-ontológico da doação se confirma na outra operação determinante: a constituição
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Husserl não hesita com efeito em pensá-la, também ela, sob a égide da doação: “E sobretudo, trata-se, não de estabelecer como dados (gegeben) fenômenos quaisquer, mas de tornar visíveis a essência da doação e a autoconstituição (der Gegebenheit und des Selbst-konstituieren) dos diversos modos de objetidade”
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Que a constituição pertença ao império da doação, não se deveria aliás muito duvidar do simples fato de que se define como uma doação de sentido (Sinngebung), desde 1907 e definitivamente a partir de 1913: não é evidente com efeito que “toda realidade seja [um ente] por meio de uma 'doação de sentido'”
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Tornar-se um ente depende de um sentido atribuído pelo jogo da intenção e da intuição, mas esta atribuição, que somente provoca um ente dotado de sentido, ainda só lhe advém por doação