Amar tem justamente em próprio de dizer-se e de fazer-se apenas em próprio
Amar põe em jogo minha identidade, minha ipseidade, meu fundo mais íntimo a mim que eu mesmo
Coloco-me em cena e em causa, porque aí decido de mim mesmo como em nenhum outro lugar
Cada ato de amor se inscreve para sempre em mim e me desenha definitivamente
Não amo por procuração, nem por pessoa interposta, mas em carne e esta carne faz apenas um comigo
O fato de que amo não pode distinguir-se de mim, mais que quero, amando, distinguir-me do que amo
Amar — este verbo se conjuga, em todos os seus tempos e em todos os seus modos, sempre e por definição primeiramente na primeira pessoa
Portanto, uma vez que será necessário falar do amor como é necessário amar, direi eu
E não poderei esconder-me por trás do eu dos filósofos, que o supõem universal
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Espectador desengajado ou sujeito transcendental, porta-voz de cada um e de todos
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Porque pensa exclusivamente o que qualquer um pode em direito conhecer no lugar de qualquer um (o ser, a ciência, o objeto)
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O que não concerne ninguém em pessoa
Vou falar ao contrário do que atinge cada um como tal
Vou portanto pensar o que me atinge como tal e me constitui como esta pessoa própria
Direi eu a partir e em vista do fenômeno erótico em mim e para mim — o meu
Mentiria portanto pretendendo a uma neutralidade de superfície
E evidentemente, farei-o mal
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Far-lhe-ei mal, mas ele mo retornará bem — nem que seja apenas porque me fará sentir minha incapacidade de dizê-lo
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Como me fez constatar minha impotência de fazê-lo
Direi portanto eu aos meus riscos e perigos
Mas direi-o — leitor, saiba-o — em teu nome
Do fenômeno erótico, não sabemos a mesma coisa, mas sabemos todos tanto
Vais portanto deixar-me falar em teu nome, uma vez que pago aqui o preço de falar em meu nome próprio
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Certamente, vou falar do que não compreendo muito — o fenômeno erótico — a partir do que conheço mal — minha própria história amorosa
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Possa ela desaparecer mais frequentemente no rigor do conceito
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Guardarei todavia em mim a memória, nova a cada instante, daqueles que me amaram, que me amam ainda e que gostaria de poder amar, um dia, como conviria — sem medida
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Reconhecer-se-ão no meu reconhecimento
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Este livro obcecou-me desde a aparição de
L'idole et la distance, em 1977