Decisão de definir a fenomenalidade a partir da doação expõe-se enfim a uma última suspeita, em aparência temível: não se limitaria a jogar nela com a ambiguidade de um significante, para pretender atingir um significado que não se teria de fato nem construído, nem justificado?
-
Falar-se-ia assim de doação como de um conceito unificado, ao passo que uma simples analogia (uma paronímia) permitiria colocar em rede termos permanecidos equívocos (es gibt, geben, gegeben, Gabe, Gebung, Gegebenheit), tal como seus usos por diferentes autores
-
Doação não definiria nenhum conceito e mesmo não designaria nenhum fenômeno, mas, como uma ideia geral abstrata, fixaria indevidamente uma confusa ilusão — efeito de linguagem, portanto sem efeito
-
A esta objeção, dois argumentos podem responder: primeiro, não se trata aqui de explorar uma ambiguidade, mas honestamente de constatar o fato; e haveria mais de arbitrário em negar esta ambiguidade patente, que em admiti-la como uma dificuldade ainda a esclarecer
-
Em seguida esta ambiguidade se impõe sem esquiva: doação significa de fato tanto bem seu ato (dar) que seu jogo (dom), até seu ator (doador) e o modo do dado cumprido (caráter de dado)
-
Desde então, por que excluir que esta polissemia resulte de que um conceito nela organiza, distingue e conjunta estas instâncias com uma extrema precisão?
-
Aliás, se se quisesse dela clarificar a ambiguidade ao preço de sua desmultiplicação em termos equívocos, a doação não se esclareceria por isso — perder-se-ia antes, pois seu jogo sustenta-se na articulação de suas acepções possíveis em uma única intriga
-
Pois a doação, como conceito unificado, não sofre talvez de modo algum do jogo de seus significantes, cumpre-se nele inteira ao assim jogar dela mesma com ela mesma
-
Não padeceria assim de nenhuma ambiguidade, se consistisse justamente no jogo de suas acepções diferentes e inseparáveis
-
A objeção não dissolve então a questão da doação, mas a coloca; é preciso aceitá-la, pois em filosofia, se se tem a escolha das questões, não se tem a escolha dos adversários, nem das aporias