Operação decisiva consiste em distinguir entre dois tipos de imanência: “A olhar mais de perto, a imanência real se distingue contudo da imanência no sentido da doação em pessoa (
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Para acabar com “o preconceito (Vorurteil) da imanência como imanência [somente] real” (até reale, se se a considera em psicólogo), é preciso admitir uma imanência intencional
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“Não se trata somente de [o que é] realmente imanente, mas também de [o que é] imanente no sentido intencional (das im intentionalen Sinn Immanente). Os vividos noéticos, que pertencem à sua essência, têm uma intentio, visam (meinen) algo, ligam-se de uma maneira ou de outra a uma objetidade”
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Nesta nova imanência, a consciência não recebe mais somente uma nova realidade realmente imanente à sua própria realidade (no sentido da imanência real de uma imagem, de um afeto, de uma sensação pura permanecendo como uma coisa na consciência tomada como uma coisa)
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Tampouco recebe em sua realidade uma imagem irreal (uma aparência sem correlação com o menor aparecente, ideia inadequada fazendo conhecer a consciência e não o percebido)
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Recebe, com o vivido aparecente, também e sobretudo o que visa (ou deixa visar) por uma relação intrínseca, o objeto intencional
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De saída, a imagem se encontra regida pelo a priori correlacional que só dá o menor aparecer a e na consciência ao nele co-dar um aparecente
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A intencionalidade torna o aparecente imanente à consciência, do simples fato de que a aparência (certamente imanente realmente) só aparece jamais senão sempre já ordenada ao seu objeto por intencionalidade
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A imanência, em regime de intencionalidade, de alguma maneira se inverte (ou se redobra): o fenômeno tomado em sua dualidade só permanece imanente à consciência, porque primeiro a consciência intencional se faz imanente ao objeto aparecente
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O aparecer só se torna imanente, na medida em que a consciência se torna intencionalmente imanente no próprio aparecente
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Na imanência intencional, a doação da aparência não interdita mais a do aparecente, porque a intencionalidade visa a segunda, e portanto a dá enquanto visada
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Isto é, que as duas faces do fenômeno surgem de um único e mesmo golpe, porque as duas doações só fazem jamais senão uma
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E tal é bem a doação: a da transcendência na imanência
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Enquanto as duas doações permanecem esparsas, até separadas, a doação não intervém ainda em profundidade; resta uma imagem que só dá ela mesma, mas não o objeto
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Quanto ao objeto transcendente, sua não-aparição hipoteca sua doação
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A doação surge precisamente quando a aparência dá, além dela mesma (imanência real), o objeto que sem ela jamais saberia aparecer, embora não se resuma a ela (imanência intencional)
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A doação estoura porque o aparecer da aparência se faz o aparecer do aparecente, em suma embarca o aparecente em seu próprio aparecer
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A doação dá ao objeto intencional de aparecer em e como o aparecer da aparência
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A aparência não mascara mais o aparecente, dá-lhe seu próprio aspecto para que possa aparecer