Mais decisivamente, a indeterminação assume uma função fenomenologicamente positiva em momentos-chave do Dasein:
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(i) Na angústia, o “totalmente indeterminado” (völlig unbestimmt) é constitutivo: a indeterminação ôntica do que ameaça permite ao Dasein confrontar-se com o nada e assim determinar-se ontologicamente.
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(ii) No ser-para-a-morte, a certeza da morte vai de par com a “indeterminação de seu quando”. Esta “indeterminação certa” é o que a torna a possibilidade mais própria do Dasein.
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(iii) No chamado da consciência (voz do cuidado), a “indeterminação e a indeterminabilidade de quem chama” é um “caráter positivo”. A própria resolução possui uma “indeterminação existencial” que constitui sua “determinação existencial”.
A oposição, portanto, não é entre determinação e indeterminação, mas entre uma indeterminação ontológica (do ego, que o impede de se determinar em seu ser) e uma indeterminação ôntica (do Dasein, que lhe permite e exige que se determine em seu ser através da resolução).
Neste sentido, o ego, mesmo em sua indeterminação, mima o Dasein, assim como o “Man” (o impessoal) mima, inautenticamente, o Dasein autêntico ao qual pertence.
Estas convergências (finitude, minhidade, possibilidade da impossibilidade, indeterminação) mostram que ego e Dasein não são estranhos absolutos.
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Suas semelhanças, ainda que separadas pela oposição entre autenticidade e inautenticidade, não os alienam completamente, pois esta própria oposição é interna à existência do Dasein.
A questão final que se impõe é: que mímese (ou que relação de representação distorcida) reúne, afinal, o ego e o Dasein?