Não se deve temer aqui alguma sobreinterpretação de metáforas arriscadas sem conceito por
Ser e Tempo, pois o próprio Heidegger as confessou ainda ao fim como já determinantes: “Recordaram-se as passagens de
Ser e Tempo nas quais o 'dá-se' é já empregado, sem que contudo tivesse sido pensado diretamente em direção ao acontecimento apropriador (
Ereignis). Estas passagens se revelam hoje como golpes de ensaios. Ensaio de elaboração da questão do ser, tentativa de lhe indicar sua justa direção, ensaios que permanecem ainda no inacabado”
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Desta auto-interpretação de 1962, é preciso reter uma confirmação e uma interrogação
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Uma confirmação: ao termo do caminho que o conduziu de Ser e Tempo a Tempo e Ser, Heidegger reconhece que as primeiras ocorrências de “dá-se”, portanto de uma doação em geral, antecipavam bem sobre a elaboração final deste mesmo tema
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Nenhuma equivocidade nos empregos, nenhuma ruptura; as duas meditações, cujos títulos em quiasma se respondem para traçar um caminho único, afrontam a mesma questão, a doação, usam do mesmo paradigma, “dá-se”
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A investigação pode se prosseguir de pleno direito
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Resta uma interrogação: em 1962, Heidegger admite que falta à doação de 1927 resultar no acontecimento apropriador, o Ereignis; e certamente não se dissolve nele ainda
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Mas é evidente que se trate aí de uma falta? Ao contrário, o dá-se “não permaneceria tanto mais conforme à doação quanto resistisse melhor à atração de toda instância, qualquer que seja?”