Husserl não hesita em pensar a dualidade interna do fenômeno, portanto o aparecente como o aparecer, a partir da única doação
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Por exemplo, a propósito do fenômeno da percepção sonora, é preciso admitir “… no interior da imanência uma diferença entre o aparecer (Erscheinung) e o aparecente (Erscheinenden). Assim temos duas doações absolutas (absolute Gegebenheiten), a doação do aparecer (Gegebenheit des Erscheinens) e a doação do objeto (Gegebenheit des Gegenstandes)”
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Que as duas faces do fenômeno se desdobrem igualmente na doação, A Ideia da Fenomenologia não cessa de sublinhar: “E a tarefa é bem agora, no interior do campo da evidência pura ou doação em pessoa (Selbstgegebenheit), de pesquisar todas as formas de doação (Gegebenheitsformen) e todas as correlações, e de praticar em relação a todas a análise que as elucida”
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É preciso insistir: a doação não se desmultiplica, nem se redobra; não há primeiro a doação do aparecer, depois a do aparecente, ou primeiro a do objeto, depois a de seus modos de doação
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De fato, todas estas menções da doação atestam que uma única e só determinação — a doação justamente —, certamente segundo modalidades a cada vez sutilmente ou fortemente distintas, torna o aparecer por assim dizer permeável ao aparecente, ou o objeto poroso aos seus modos de aparecer
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A doação não joga tal ou tal papel na correlação, mas investe todos os termos porque se confunde com a própria correlação, da qual toma o nome e que somente ela torna possível
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A correlação entre as duas faces do fenômeno não utiliza a doação — desdobra-a, cumpre-a, não é nada de outro que ela mesma