empeiria e experientia (Aîtres:21-22)

(…) Ao contrário do latim, o grego não possui tempos relativos. Não tem futuro anterior (futurum exactum) e o mais-que-perfeito é o passado de um perfeito cujo aspecto (aliás variável) ou tem sentido no presente, ou, na época pós-clássica, está sempre em simbiose com um sentido temporal adquirido tardiamente. Portanto, não se pode atribuir ao grego o terceiro modo de aparecer definido por E. Fink como “apresentação de uma coisa a um sujeito representativo”. Isso porque a experiência grega não é a latina. Existe até mesmo uma oposição fundamental entre elas, indicada por seus nomes contrários: a primeira é ἐμ-πειρία, a segunda ex-perientia. A travessia do mundo, essa viagem através de περ “o país do conhecimento” até os limites (πέρας), é interiorizada (έν-) no grego na presença do mundo. No latim, ela é colocada em perspectiva teórica, a partir (ex-) de um sujeito que percebe. Mas, nos dois casos, o presente é o momento decisivo que determina o sentido temporal do verbo. É nele que se concretiza a quarta palavra para designar o tempo: καιρός: o momento oportuno, propício, a ocasião, o tempo da oportunidade (καιρός ἔστι, Heródoto 8, 149: é o momento). Ora, kairos é o antípoda de Aion. Em seus Ensaios de Iconologia, Panofsky observa que as representações plásticas do tempo na arte antiga ignoram o velho Chronos — e que elas são de dois tipos: (21) “Por um lado, há a representação do tempo como kairos, ou seja, aquele momento decisivo que marca uma virada na vida dos seres humanos ou na evolução do Universo. Esse conceito era ilustrado pela figura conhecida como oportunidade: um homem (originalmente nu) que passa apressado, geralmente jovem e nunca muito velho, embora o tempo seja frequentemente chamado de πολιός (de cabelos grisalhos) na poesia grega…

“Por outro lado, a ideia diametralmente oposta à de kairos é representada na arte antiga: é o conceito iraniano do Tempo como Aion, ou seja, como princípio criador eterno e inesgotável.”