“O devir, como tal, isto é, como passagem, é apenas pela diferença do ser e do nada… seu desaparecimento é o desaparecimento do devir, o desaparecer do desaparecer”
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Qual é este resultado?
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“O nada do devir é, em seu desaparecimento, passagem essencial ao ser; e o devir é passagem à unidade do ser e do nada, unidade existente que possui a forma da unidade imediata de seus momentos: o ser-aí (Dasein)”
O Ser-Aí como Evento Absoluto
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O ser-aí tem portanto “sua mediação, o devir, atrás de si”
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Ele procede de uma mediação que se pro-duz nele, sob a forma de sua imediatidade
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Ele é evento absoluto
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É o evento ab-soluto de toda qualificação, que constitui o fundo de realidade
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O ser ao mesmo tempo resultativo e imediato do devir-devido é tanto o em-si universal do evento quanto o evento universal do em-si
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Mas o ser-aí, se é em si, não é a si
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Seu advento a si mesmo está ainda diante dele
O Ser-Aí como Seu Próprio Efetuador
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Em um segundo tempo, o ser-aí se apresenta a Hegel como seu próprio efetuador
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Ele advém a si explicitando-se no modo do “enquanto…”, isto é, determinando-se como algo
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A unidade nele do ser e do nada não é mais esta unidade imediata cujo nó é o de uma reflexão exterior
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O ser-a-si (
Insichseyn) é o ser-em-si (
Ansichseyn) apropriando-se a si mesmo por sua própria reflexão em si
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Seu fundo não é mais o ser, mas seu próprio movimento
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Sua igualdade consigo mesmo é seu ato
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Ele é o determinante de sua determinação
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A unidade de seus dois “lados”, ser e nada, não é mais um fato imediato, o resultado de uma mediação que o precede e condiciona seu evento
O Ultrapassamento do Ser-Aí
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“O ser-aí se ultrapassa em direção a seu estatuto de ente aí no interior de si mesmo”
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Este ultrapassamento é um sacrifício de seu próprio ser em si, ao mesmo tempo parricídio do ser (no sentido do Sofista) e suicídio do em si
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Ao fundo do ser em si sobre o qual ele repousa, o ser-aí substitui o fundamento de sua própria negação
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Esta negação é sua reflexão em si mesmo, cuja imanência põe fim à perspectiva da reflexão exterior
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Mas, com esta última, desaparece seu ser-para-um-outro em relação ao qual se definia seu ser em si
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É suprimindo esta alteridade, condição de seu em si, portanto negando ele mesmo seu ser em si, que ele advém a si e que ele é algo
A Determinação do Ente Aí
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O ente aí é determinado
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Ele é determinado por seu limite, mas este não é seu senão porque ele é o determinante dele
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Determinar-se a si mesmo é pôr a si mesmo seu próprio termo, seu limite, ou, como diz de preferência Hegel, sua barreira (Schranke)
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A posição de um limite supõe seu franqueamento, isto é, a negação
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O ser-aí, suprimindo seu limite, que por definição o con-fina em si, suprime portanto seu ser em si
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“O ser em si [ativamente] igual a si mesmo se relaciona portanto a si como a seu próprio nada”
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Mas unindo em seu ato o ser de seu em si e o nada de seu ser-outro, ele é integralmente a si — ele é seu próprio advento, ele está na origem de sua presença
A Inautenticidade da Presença no Dasein Hegeliano
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E contudo o
Dasein, o ser-aí hegeliano não é autenticamente presença
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Se o ser-aí retoma por sua conta a mediação do devir da qual ele resulta, o Dasein e o Werden hegelianos não são originários, mas participam de uma sistematização teórica antecipada
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A presença do ser-aí na encruzilhada do fundo e do fundamento é tão pré-construída quanto a do presente no início da Fenomenologia
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A passagem do ser ao nada ou do nada ao ser, mediatizados pelo devir, os pré-supõe a título de objetidades ideais
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Atesta-o seu estatuto de opostos
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Longe de serem termos diferentes cuja indiferença seria superada em co-presença em um encontro real e paradoxal, o ser e o nada formam um par de contrários que se opõem supondo-se, cada um sendo necessário à definição do outro, e sua unidade consistindo na reciprocidade de sua interdeterminação
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O ser-uno do ser e do nada repousa sobre a pré-construção de seus conceitos, e o que Hegel chama sua diferença real é a hipóstase de sua oposição ideal
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Hegel dissocia idealmente a diferença indiferente do ser e do não-ser, como dimensões da presença, em diferença e em indiferença
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E fazendo isto, ele reduz a primeira a uma oposição e a segunda a uma identidade
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A oposição do ser e do não-ser como de dois lados ou faces da unidade é, com efeito, uma determinação da reflexão que os põe juntos como objetidades pensadas em uma relação bipolar
A Indiferença Mútua como Identidade
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Quanto à “indiferença mútua” do ser e do nada, ela significa no pensamento de Hegel que eles são ambos indiferentes a ser um ou outro, porque indiscerníveis
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Eles são definidos um e outro como “igualdade consigo” “fora de toda desigualdade a um outro”, ou como indeterminidade e vazio
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Ora, a determinidade (ou sua falta) não concerne o ser do ente ou o não-ser do nada como dimensão do Dass-Sein, mas seu Was-Sein
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Ela é da ordem do sentido
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O ser é identificado ao ser-o-quê e o não-ser ao não ser-o-quê
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A mediação tem por termos aqueles que figuram nos pares clássicos de conceitos
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Seja ao nível do devir, seja ao nível do algo, a oposição do que ele nomeia ser e nada é a do ser-si e do ser-outro, que
Platão substitui no
Sofista ao ser e ao não-ser
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E do mesmo modo que, opondo ao ser o outro, Platão define o primeiro pela identidade, o Dasein hegeliano não é uma fonte real, mas uma ressurgência de determinações pensadas
O Presente-Limite Hegeliano
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Hegel define o ser-aí do algo em termos que prefiguram a constituição do
Dasein segundo Heidegger
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Algo (Etwas = isto o quê) não é determinado por um limite ao lado do qual ele se manteria tranquilamente sem participar de sua limitação
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Mas ele o ultrapassa, o que é suprimi-lo mas também pô-lo — de tal modo que ao barrar-se (schranken) ele se franqueia a si mesmo
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E contudo o
Dasein não é advento, seu
da, o aí do ser-aí não é uma origem
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O presente hegeliano é um presente-limite
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O devir, de onde procede o ser-aí, através dele se temporaliza: o tempo é o devir de algo
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A oposição do ser e do nada, tornada a do ser-si e do ser-outro, se exprime temporalmente pela distinção do passado e do futuro
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O passado é a realidade sem a possibilidade
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Nele “o ser-aí do algo não faz senão manter-se ao lado de seu limite em uma indiferença tranquila”
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O porvir é a possibilidade sem a realidade
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Ele não é; ele deve ser
O Porvir e o Dever-Ser
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O porvir é implicado no que é em si: ele é a dimensão de seu ser-outro ao qual ele se relaciona como a seu próprio nada
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Pois este nada é seu. Ele é seu próprio Sollen (dever)
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“Enquanto dever, o algo ultrapassa sua barreira, isto é, o que não está nele, o que se encontra em estado suprimido, está também nele”
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Entre o ser em si e o ser-outro de algo, que se pertencem reciprocamente, o limite não é uma barreira separando um dentro e um fora
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Mas “a exterioridade do ser-outro é a interioridade própria do algo”
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Do ser em si, pode-se dizer “Wesen ist gewesen”, “sua essência é a reunião de seu tendo-sido”
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Mas ele é a si, ele não pode recolher-se, senão a partir da barreira que ele se dá e que ele não pode pôr senão em seu franqueamento, isto é, negando-a
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Esta barreira é o presente
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Sua posição-negação está ligada ao dever (Sollen)
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“Enquanto dever, algo transcende sua barreira, mas é somente como dever que ele tem uma barreira”
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Dever-ser, não poder-ser
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O programa dialético fixa o sentido do tempo
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“É no dever que o conceito de finitude tem seu começo e que começa seu ultrapassamento: a infinitude. O dever contém o que na sequência do desenvolvimento se apresenta como o progresso ao infinito”