MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.
Contexto histórico e virada temática de 1929
O ano de 1929 é apresentado como momento decisivo na trajetória intelectual de Heidegger, marcado pela sucessão de Husserl em Freiburg e pela consolidação de sua autonomia filosófica.
A aula inaugural O que é Metafísica? é caracterizada como texto de transição que recolhe problemas de Ser e Tempo e antecipa a confrontação direta com a questão do Ser.
A centralidade da metafísica é reafirmada, não como doutrina tradicional, mas como questionamento radical que envolve simultaneamente o todo dos entes e o próprio questionador.
A questão do nada como problema metafísico fundamental
A interrogação sobre o nada é introduzida como paradoxal, pois parece retirar de si mesma o seu objeto, ao proibir qualquer determinação positiva.
O nada não é tratado como simples negação lógica ou aniquilação dos entes, mas como questão inseparável da questão do Ser.
Toda questão metafísica é apresentada como totalizante, envolvendo o todo do ente e o Dasein que pergunta.
Angústia como via fenomenológica de acesso ao nada
A angústia é identificada como disposição afetiva privilegiada na qual o nada se manifesta.
Na angústia, os entes como um todo se retiram em indiferença, deixando o Dasein sem apoio nos entes particulares.
O nada se revela não como um ente, nem como objeto, mas como o deslizamento do todo do ente.
Essa experiência não é universal nem frequente, mas possui valor ontológico decisivo enquanto possibilidade existencial.
Nada, transcendência e metafísica
O nada é descrito simultaneamente como condição de possibilidade do aparecimento dos entes e como aquilo que ultrapassa os entes enquanto totalidade.
O manter-se suspenso no nada é identificado como transcendência, entendida como ir-além dos entes enquanto tais.
A metafísica é redefinida como questionamento que ultrapassa os entes para recuperá-los como totalidade, retomando o sentido grego de meta ta physika.
Crítica à criação ex nihilo e ambiguidade da metafísica
O axioma tradicional ex nihilo nihil fit é contrastado com a doutrina cristã da criação a partir do nada.
A crítica heideggeriana à criação teológica baseia-se no fato de que ela permanece no âmbito dos entes, ao explicar os entes por um ente supremo.
Apesar disso, neste estágio Heidegger ainda afirma a metafísica como pertencente à essência do ser humano, distinguindo-a da ciência positiva.
Esclarecimentos do Posfácio: nada, niilismo e lógica
O Posfácio é apresentado como tentativa de dissipar interpretações niilistas do texto original.
O nada é reinterpretado como não-coisa, radicalmente distinto dos entes, mas possuindo o Ser como sua essência.
Introduz-se implicitamente a diferença ontológica entre Ser e entes.
A caracterização do nada como absolutamente outro aproxima-se de motivos do sagrado e do numinoso.
Angústia, temor reverente e dimensão quase religiosa
A angústia é reabilitada como disposição elevada que exige coragem e abertura à verdade do Ser.
O termo Angst é distinguido do medo empírico e aproximado de experiências de assombro e reverência.
A proximidade conceitual entre angústia e o sagrado é explicitada por meio de termos como awe e uncanny.
Pensar, poetar e pluralidade de lógicas
A acusação de irracionalismo é respondida pela tese de que há múltiplos modos de pensar e, portanto, múltiplas lógicas.
O pensamento calculador da ciência é distinguido do pensamento meditativo próprio do pensar filosófico.
O poeta é elevado a figura paradigmática do dizer do Ser, ao lado do pensador.
A distinção entre dizer o Ser e nomear o sagrado é introduzida como diferença interna aos modos de desvelamento.
Pensamento como agradecimento e sacrifício
O pensar do Ser é interpretado como agradecimento pela doação do Ser.
O sacrifício é compreendido como renúncia aos entes em favor da fidelidade à dádiva do Ser.
Essa concepção aproxima-se de tradições místicas, especialmente da ideia de desapego radical.
Superação da metafísica e deslocamento do primado
A Introdução posterior explicita a intenção de superar a metafísica tradicional.
A metáfora cartesiana da árvore da filosofia é reinterpretada para questionar o solo que sustenta a metafísica.
O Ser é afirmado como mais originário que a metafísica, deslocando o foco do Dasein para o próprio Ser.
A relação entre Ser e entes passa por revisão, culminando na afirmação de sua co-pertinência.
Ser, teologia e crítica à onto-teologia
A distinção entre filosofia e teologia é reafirmada, sendo a teologia definida como hermenêutica da fé.
A teologia tradicional é criticada por permanecer no nível dos entes ao conceber Deus como ente supremo.
A noção de onto-teologia é introduzida como diagnóstico da metafísica ocidental.
Reconhece-se, contudo, que tradições teológicas negativas e místicas escapam parcialmente dessa crítica.
Introdução à Metafísica e o retorno à pergunta fundamental
A pergunta por que há entes e não antes nada é retomada como questão fundamental.
A relação entre filosofia e fé cristã é apresentada como tensão irreconciliável em certos níveis.
A filosofia é afirmada como tarefa distinta da teologia, embora ambas tenham legitimidade própria.
O poeta e o início como momento originário
A interpretação do coro de Antígona é usada para ilustrar a estranheza essencial do ser humano.
O início histórico é concebido como momento de máxima potência e não como estágio primitivo.
A verdade é vinculada ao evento originário de desvelamento, que tende a se apagar na história posterior.
A poesia é apresentada como meio privilegiado de acesso a esse início.
Carta sobre o Humanismo e a crítica ao existencialismo
A dissociação de Heidegger em relação ao humanismo e ao existencialismo sartreano é explicitada.
A existência é reinterpretada como ek-sistência, isto é, como exposição à verdade do Ser.
O Ser é afirmado como originário em relação ao pensar humano, invertendo o paradigma subjetivista.
O Ser é compreendido como aquilo que se dá, não como produto do Dasein.
Ser, dom e pastoreio
O Ser é caracterizado como auto-doação que concede sua própria verdade.
O ser humano é definido não como senhor dos entes, mas como pastor do Ser.
A posição de Heidegger é apresentada como nem teísta nem ateísta, mantendo aberta a questão de Deus.
Ser, sagrado e possibilidade de diálogo com a teologia
A sequência Ser, sagrado, divindade e Deus é apresentada como caminho possível do pensamento.
O acesso ao divino é condicionado à verdade do Ser e à experiência do sagrado.
Reconhece-se implicitamente uma zona de interseção entre pensamento filosófico e teológico.
Cotidianidade e manifestação do divino
A anedota de Heráclito junto ao fogão é interpretada como símbolo da presença do divino no ordinário.
O extraordinário do Ser manifesta-se no mais comum e insignificante.
A possibilidade de uma analogia com o cristianismo é sugerida, sem ser afirmada conceitualmente.