LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966
[Introdução: a fenomenologia e a acusação de “renegação da ciência”]
A fórmula de Merleau-Ponty segundo a qual a fenomenologia seria a “renegação da ciência” (disavowal of science; désaveu de la science) gerou equívocos persistentes, cuja responsabilidade recai em grande parte sobre os próprios fenomenólogos, que não esclareceram suficientemente sua relação com as ciências.
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Tomada ao pé da letra, a fórmula parece reduzir a fenomenologia a mistificação da realidade ou a nova forma de misticismo filosófico, acusação predominante entre seus críticos.
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Afastar a acusação de misticismo não resolve tudo: a compreensão mais profunda do pensamento fenomenológico conduz inevitavelmente às questões originárias que acompanham a humanidade desde o início da civilização.
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O foco recai sobre as dificuldades próprias de um primeiro contato, necessariamente limitado, com a fenomenologia.
As aparentes recusas fenomenológicas de objetividade, absoluto, racionalidade e essência expõem a fenomenologia às acusações de subjetivismo, relativismo, irracionalismo e ética da situação radical.
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A rejeição da pretensão de objetividade parece justificar a crítica científica de subjetivismo, e a repulsa ao “saber absoluto” obriga à defesa contra o relativismo.
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A indiferença de alguns fenomenólogos quanto ao saber racional, à essência e à universalidade objetiva da filosofia, sobretudo em relação à essência do homem, sugere o abandono do ideal da filosofia como ciência das ciências (scientia scientiarum).
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A aparente negação da universalidade subjetiva da verdade reduziria a fenomenologia a diários interessantes ou romances com implicações filosóficas.
A fórmula radical só se torna compreensível mediante o exame do que as ciências fizeram com os conceitos de “científico”, “objetivo”, “absoluto” e “racional”, nos quais foram introduzidos pressupostos ocultos e injustificados.
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As disciplinas científicas degeneraram frequentemente em cientificismo.
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A renegação não atinge os resultados das ciências, a validade das leis físicas ou a veracidade das equações matemáticas.
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O alvo é a ditadura e o absolutismo do pensamento científico sobre todas as demais formas de pensamento humano.
O Absolutismo das Ciências: Uma Contradição
O cientificismo impõe a crença de que existe um único modo objetivo de falar da realidade e de experimentá-la, exemplificado pelo físico e seu método experimental, devendo a experiência espontânea e ordinária do mundo ser substituída por um sistema de experiências científicas.
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A fenomenologia constitui uma revolta contra essas exigências, impossíveis por conterem uma contradição fundamental.
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Em sentido preciso, a fenomenologia é a renegação do cientificismo, não da ciência.
A contradição do cientificismo reside em que o próprio ato de rejeitar a filosofia já é filosofia, e em que a pretensão de exclusividade da experiência científica contradiz a vida do próprio cientista.
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O discurso cientificista sobre metodologia e verdade objetiva contém implicitamente uma epistemologia completa e uma filosofia da realidade.
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Se apenas o físico pudesse exprimir o sentido objetivo do mundo, jamais se poderia tomar consciência do mundo real, pois a experiência cotidiana ficaria destituída de todo acesso a ele.
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Trata-se não de uma contradição lógica nos termos, mas de uma contradição com a “vida”, com a existência concreta do cientista.
Alguns Exemplos
O saber científico sobre qualquer domínio só tem sentido sobre o fundo de uma experiência mais fundamental e originária, o contato espontâneo e cotidiano com as coisas de que esse saber trata.
O mundo vivido (Lebenswelt), em que as maçãs caem das árvores e o sol nasce e se põe, não é ilusão a ser corrigida pela física, mas o mundo sem o qual a própria física não saberia do que fala.
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A tese do sol quase estacionário levou a considerar ilusória a experiência do mundo vivido, sem que se perguntasse que outro mundo o físico teria em vista.
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O físico esgotado recupera a saúde e o equilíbrio justamente no mundo de nascentes e poentes que se recusava a chamar de objetivo.
O Mundo Vivido como Nosso Mundo Objetivo
A compreensão do verdadeiro objeto das ciências exige restituir ao mundo vivido sua posição de proeminência no pensamento, reconhecendo-lhe objetividade e renunciando à pretensão de que só as ciências falam de um mundo real.
A história da filosofia mostra a substituição progressiva da experiência cotidiana pela experiência científica e do conjunto de significações do mundo vivido pelos objetos das ciências, processo que culmina em Descartes.
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Em
Descartes, o mundo vivido é destruído em sua imediaticidade espontânea, e a quantificação torna-se a única via legítima e objetiva de acesso ao real.
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Só os conceitos claramente delimitados de quantidade são julgados adequados para descrever o mundo.
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A dúvida metódica serve como meio de conferir estatuto privilegiado ao saber científico, o que constitui essencialmente a filosofia do cientificismo.
Desconsideração do Conhecimento como Presença Imediata
A teoria das qualidades primárias e secundárias contém uma teoria implícita da experiência e do conhecimento que desvaloriza a presença imediata da realidade.
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Na experiência inicial de uma maçã, tamanho e cor aparecem como igualmente reais, sem distinção entre objetivo e subjetivo.
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O primado do aspecto quantitativo e mensurável não é dado na presença imediata, mas imposto por uma interpretação teórica.
Interrompido o diálogo entre presença imediata (homem) e realidade presente (mundo), surge uma epistemologia que concebe o conhecimento como reflexo especular e o mundo como mundo-em-si.
“Às Coisas Mesmas”
Dois postulados errôneos dominaram a filosofia ocidental desde Descartes: o conhecimento como espelhamento ou representação de um mundo-em-si, e as ciências físicas como sistema por excelência de re-presentação objetiva (De Waelhens).
A exigência husserliana de retorno “às coisas mesmas” (zu den Sachen selbst) significa aceitar a realidade tal como aparece imediatamente na experiência, sem pré-juízos teóricos e sem eliminação a priori de qualquer domínio de significação.
A contradição do cientificismo emerge na pretensão de substituir a experiência cotidiana pela experiência científica e o mundo vivido pelos objetos das ciências naturais, e persiste mesmo quando se reconhece o primado da experiência cotidiana mas se a interpreta nos moldes da psicologia empírica.
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Tratados sobre condicionamento, reflexos neurais e potenciais de excitação não exprimem a experiência tal como originariamente emerge.
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A experiência originária não é um aglomerado de conceitos e leis científicas; ao contrário, as ciências pressupõem a experiência cotidiana originária.
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Reflexos, potenciais e esquemas de condicionamento remetem ao mundo ordinário; pretender que substituam esse mundo é absurdo, pois dele dependem para ter qualquer sentido.
A Redução Fenomenológica
A redução fenomenológica, conceito recorrente em Husserl e sem formulação final inequívoca, integra o projeto da fenomenologia como método de acesso ao indubitável, ao fundamento do inegável, pelo retorno às coisas e ações mesmas.
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O falar sobre a realidade só é fundado e enraizado na medida em que nele se revela uma realidade determinada.
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O falar encontra fundamento e justificação absoluta na realidade particular que nele emerge.
O percurso de Husserl, da investigação da realidade matemática à crítica do psicologismo, conduziu-o a Brentano e ao conceito de intencionalidade, entendido, diferentemente de Brentano, como essência do conhecimento e da consciência.
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Conhecer e ser consciente de algo significa estar dirigido a uma realidade que não é a própria consciência nem o próprio conhecimento.
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Ser consciente é estar além da consciência, a caminho de uma realidade distinta dela.
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A presença da realidade visada decide, em última instância, as questões de verdade e certeza.
A primeira forma de redução, a colocação entre parênteses (Einklammerung) da existência fática das coisas presentes à consciência, responde ao problema crítico do século XIX e revela a permanência de Husserl nos mitos do Cogito que combatia (De Waelhens).
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O problema crítico indaga se existe uma realidade correspondente às representações recebidas por um Cogito isolado e fechado.
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A suspensão dos juízos sobre a existência e o estatuto ontológico das coisas pretendia contornar esse terreno movediço.
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Só num quadro em que o Cogito é concebido como isolado e encapsulado há lugar para a dúvida sobre a existência fática das coisas.
A intencionalidade, tal como originalmente formulada, torna impossível uma redução destinada a suspender a existência fática do mundo, pois sem mundo faticamente existente a consciência não poderia ser intencionalidade.
No novo sentido, a redução torna-se instrumento de filtragem dos preconceitos culturais e científicos que deformam a experiência, entendida como presença às coisas mesmas e fundamento de todo enunciado verdadeiro.
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As noções correntes de experiência na virada do século eram conceitualizações distorcidas, ajustadas a uma visão pretensamente científica do homem e do mundo.
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A evolução final do pensamento husserliano, complexa e não inteiramente clara, foi esclarecida por
Merleau-Ponty.
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A fenomenologia, como busca dos fundamentos da filosofia, exige desmascarar todos os preconceitos filosóficos sobre a natureza da consciência.
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Esse desmascaramento restabelece a experiência tal como é vivida: presença ao mundo vivido e desvelamento dele.