1 Questão metafísica

LUIJPEN, William. Phenomenology and Metaphysics. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1965

A QUESTÃO METAFÍSICA

1. Considerações Preliminares

1. Houve um tempo em que se julgava possível rir da fenomenologia sob o pretexto de existirem tantas fenomenologias quanto fenomenólogos, mas a breve história desse movimento mostrou quão prematuro era esse riso, pois as “muitas” fenomenologias revelaram uma notável unidade, cuja força se faz sentir hoje em todos os domínios do pensamento humano.

2. O mesmo vale, em certo sentido, para a metafísica, que, diferentemente da fenomenologia, possui venerável antiguidade e sempre teve seus zombadores, os quais esquecem que o pensamento metafísico, apesar de suas dificuldades, das objeções que suscita e das múltiplas formas que assume, revela tal unidade de inspiração que sem uma metafísica nem sequer é possível rir da metafísica.

Sentido e Falta de Sentido da Pergunta sobre a Metafísica

1. À pergunta sobre o que é a metafísica deve anteceder outra, frequentemente formulada em nosso tempo no contexto mais amplo de uma reflexão sobre o caráter da filosofia em geral: tem sentido tentar dizer o que é a metafísica, assim como tem sentido tentar definir a filosofia?

2. Há diversas maneiras de saber o que é a filosofia, e aquela que fala “sobre” ela a partir de um ponto de vista situado fora da própria filosofia produz apenas um “saber” superficial e exterior, incapaz de penetrar em sua realidade, de modo que somente no próprio filosofar a filosofia encontra sua essência e alcança um certo “saber” dessa essência, razão pela qual a pergunta sobre o que é a filosofia só pode ser respondida filosoficamente.

3. O mesmo se aplica à metafísica, pois a tentativa de defini-la de fora não pode caminhar junto com a pretensão de alcançar por essa via um conhecimento autêntico do que ela é, sendo tal combinação um empreendimento estéril, já que somente no próprio pensar metafísico a metafísica descobre sua essência e chega a um certo “saber” dela.

4. Essa verdade tem, contudo, seus limites, porque é possível indicar como o termo “metafísica” foi compreendido no passado, investigação que não pretende definir a metafísica nem alcança o “saber” autêntico que acompanha o pensar metafísico como autocompreensão, mas que não é necessariamente infrutífera.

5. Tão logo se atenta para a unidade de inspiração que caracteriza todo pensar metafísico, descobre-se que também os antimetafísicos se nutrem dessa mesma inspiração, pois sem metafísica não é possível rejeitar a metafísica, e é por isso que os estudos históricos podem convenientemente colocar metafísicos e antimetafísicos lado a lado.

6. Em seus últimos anos, Heidegger passou a recusar o qualificativo “metafísico” para seu pensamento, entendendo-o como uma superação da metafísica (Überwindung der Metaphysik) destinada a levar a cabo a destruição (Destruktion) da metafísica tradicional, embora sua obra revele a mesma unidade de inspiração, algo de que ele próprio parece estar ciente.

7. Essa unidade de inspiração constitui ponto de referência constante no estudo da metafísica, porque se pretende confrontar a fenomenologia contemporânea com a metafísica tradicional, confronto que seria inteiramente sem sentido se o termo “metafísica” pudesse designar qualquer modo de pensar.

8. O próprio interesse em confrontar metafísica e fenomenologia manifesta um valor especial atribuído à metafísica tradicional, na convicção de que aquilo que os grandes pensadores do passado chamaram “metafísica” não é simples absurdo, já que ideias que revelaram sua grandeza e de algum modo se mantiveram até o presente não podem ser descartadas como entulho sem valor.

9. Seguindo o caminho da intencionalidade encarnada no uso do termo “metafísica”, chega-se à essência do homem como ser pensante, essência que, precisamente por ser o homem o que é, está sempre de algum modo desvelada para ele mesmo, que em sua autorrevelação se manifesta como aquele que dá testemunho do fato irrefutável de que “algo é”, nisso residindo tanto sua grandeza quanto seu fardo.

As Ciências e a Metafísica

1. O homem emprega de muitas maneiras a simples palavra “é”, e todo juízo das ciências positivas contém a cópula “é”, de modo que também a prática científica é um modo de exprimir o ser, desvelado ao homem ao menos o bastante para que ele possa fazer ciência, embora as ciências sejam, em certo sentido, formas de “ausência de pensamento” (thoughtlessness), porque pronunciam o “é” sem precisar perguntar o que ele significa, tarefa que pertence à metafísica.

2. Em sentido amplo, o termo “metafísica” é empregado por todos aqueles que reconhecem, ao lado dos modos de conhecer próprios das ciências positivas, um lugar para um modo de conhecer irredutível à ciência positiva, mas que conduz a intelecções necessárias e universais e deve, por isso, ser chamado “científico” num sentido inteiramente diverso.

3. Tornou-se quase lugar-comum afirmar que o pensamento contemporâneo retorna à metafísica, depois que o positivismo do século XIX sufocou o autêntico pensar metafísico e se percebeu que a absolutização das ciências positivas se fundava numa convicção enraizada não nas próprias ciências, mas numa metafísica de péssima qualidade.

4. Em sentido amplo, “metafísica” é sinônimo de “filosofia”, de modo que a rejeição da metafísica por certos representantes das ciências positivas significa rejeição da filosofia, e o retorno contemporâneo à metafísica significa que a inevitabilidade da filosofia voltou a fazer-se sentir, havendo lugar, ao lado das ciências positivas do direito, da natureza e do homem, para uma metafísica do direito, da natureza e do homem, assim como se fala de uma metafísica da sociedade, da linguagem, da poesia, da consciência moral, dos valores e do mal.

O Pensar Metafísico como Implicação do Pensar Científico

1. A rigor, não basta dizer que há lugar para a metafísica “ao lado” das ciências positivas, pois esse “ao lado” pressupõe uma ciência e uma metafísica já constituídas e não penetra no âmago da questão, já que toda ciência exige reflexão metafísica por servir-se implicitamente de certa metafísica.

2. Também a história das ciências mostra a presença de uma metafísica implícita, pois às vezes o próprio exercício de uma ciência indica que chegou o tempo de uma nova abordagem, quando os cientistas percebem que seu modo habitual de falar do objeto não lhes permite exprimir o que realmente deveriam exprimir.

3. Isso não significa que a atitude interrogativa do sujeito existente-como-cogito na prática de uma ciência específica seja idêntica à do metafísico, pois, embora as diversas interrogações do sujeito não possam ser isoladas umas das outras em sua existência, podem e devem ser distinguidas, e sua identificação conduziu no passado à maior confusão.

As Ciências e o Sujeito

1. Além de pressuporem uma visão metafísica sobre a essência do ente que desvelam, as ciências positivas exigem reflexão metafísica também porque, na prática da física, não apenas o objeto físico é inquestionavelmente real, mas também o sujeito que a pratica.

2. A metafísica em sentido amplo, identificada com a própria filosofia, distingue-se das ciências por ao menos duas razões.

3. A prática das ciências positivas é, portanto, em certo sentido uma forma de “ausência de pensamento”, pois o cientista usa o termo “é” em cada juízo sem indagar o “ser” do objeto de sua ciência nem o “ser” do sujeito que formula as perguntas e as respostas científicas, cabendo ao metafísico assumir essas questões deixadas sem resposta, tarefa que nenhum progresso das ciências pode tornar supérflua.

A Metafísica em Sentido Estrito

1. A afirmação de que o metafísico busca compreender as estruturas mais gerais da realidade adquire seu pleno sentido no modo de perguntar e responder denominado metafísica em sentido estrito.

2. Todo modo humano de pensar instala explicitamente o pensador na “maravilha de todas as maravilhas” (Wunder aller Wunder), de que há algo para ver e algo para dizer, e quem pratica a ciência positiva também se demora (whiles) nessa maravilha, sem ter, contudo, a tarefa de maravilhar-se com ela.

3. Para todos os grandes metafísicos do passado, o pensar metafísico sempre foi muito mais que ultrapassar os limites da ciência positiva e explicitar os modos de ser pressupostos pelas ciências, pois viam a metafísica como o ápice, a possibilidade última das perguntas e respostas humanas, a pergunta pelo sentido último do ser.

4. De início pode parecer que a metafísica se ocupa de uma palavra vazia ao dedicar-se ao ente, e para escapar desse “vazio” pode-se voltar aos domínios particulares dos entes, encontrando ferramentas, veículos, terras, mar, montanhas, rios, florestas, árvores, pássaros, insetos, a Terra, a Lua e os planetas, mas surge então a pergunta de como se sabe que todas essas coisas são “entes”, o que exige que já se saiba o que significam “é” e “ser”.

5. Não é possível constatar que um suposto ente não é sem distinguir de antemão com clareza entre ente e não-ente, e, uma vez que essa distinção é de fato feita, ninguém pode sustentar que “ente” seja palavra vazia, pois a dúvida sobre se algo é ou não é, num caso particular, não implica dúvida quanto à diferença entre ente e não-ente.

6. Substituindo-se “ente” por “árvore” e supondo-se que “árvore” seja palavra vazia, a tentativa de evitar esse vazio voltando-se às espécies e aos exemplares de árvores parece fácil, mas não o é.

7. De modo análogo, só é possível voltar-se aos entes particulares porque se compreende o ente enquanto ente e, com base nessa compreensão, distingue-se o ente do nada.

A Metafísica como Falar sobre “Tudo”

1. A metafísica em sentido estrito é a tentativa de exprimir o sentido do ente enquanto ente, que é seu tema próprio, pois dos entes particulares só se pode dizer que “são” porque se compreende o ente enquanto ente, de modo que ela não visa “este” ou “aquele” ente, mas aquilo que é o fundamento sobre o qual se afirma que os entes particulares são, tendo o alcance dessa pergunta seu limite apenas no nada, naquilo que simplesmente não é.

2. Torna-se assim evidente em que sentido a metafísica em sentido estrito fala de “tudo”, sendo a tentativa de reunir “tudo” numa apreensão racional, enquanto a metafísica em sentido amplo também busca uma com-preensão (com-prehending), mas limitada a ordenar objetos específicos numa região determinada do ser.

3. De modo análogo deve ser entendida a afirmação de que a metafísica em sentido estrito fala de “tudo”, afirmação que à primeira vista pode parecer fantástica.

Parmênides

1. Parmênides de Eleia figura na história como o primeiro a ver o ponto de vista a partir do qual o filósofo pode falar de “tudo” e a tematizar as intelecções que dele se manifestam, descrevendo num poema didático sua viagem e a verdade que lhe foi revelada.

2. A verdade sobre o ente é que o ente é e que fora do ente nada é, sendo puro absurdo pensar que o não-ente seja, do que decorre imediatamente que o ente é “uno” e não tem vir-a-ser.

3. A intelecção de que o ente é e o não-ente não é poderia facilmente parecer uma verdade sem importância, mas constitui o início do pensar metafísico em sentido estrito, a primeira vez em que o homem exerceu seu poder de falar sobre “tudo”, falando do ente não como árvore, máquina, planta, planeta ou animal, mas como ente, como não-nada.

Afirmação na Negação

1. A fórmula que descreve o caráter próprio da metafísica é aquela à qual se apega sobretudo a tradição escolástica, mas há metafísicos, dentro e fora da escolástica, que a rejeitam e até a desprezam, partindo, contudo, precisamente em sua negação, da convicção implícita de que não há outra possibilidade de pensar radicalmente e de falar sobre “tudo” senão situando-se no ponto de vista que Parmênides foi o primeiro a ver e ocupar, de modo que seu pensamento é de fato também uma exploração do ente enquanto ente.

2. O cientificismo é um dos exemplos mais notáveis dessa rejeição, pois nenhuma filosofia odeia mais a metafísica, considerando “nada” aquilo de que falam os metafísicos.

3. Também os filósofos analíticos só podem rejeitar a metafísica pressupondo-a implicitamente, como ocorre em Ayer, para quem todas as proposições metafísicas são absurdas porque pretendem descrever uma realidade para além da experiência, e uma proposição não verificável por nenhuma experiência não é proposição.

4. A rejeição da reflexão sobre o ente enquanto ente e em oposição ao nada só é possível apelando novamente ao pensar metafísico nos próprios argumentos que a justificam, pois quem rejeita a metafísica precisa começar dizendo o que, a seu ver, os metafísicos defendem, afirmando, por exemplo, com Ayer, que os resultados desse pensar são inverificáveis e concluindo que ele trata do nada, caminho pelo qual Hume rejeitou a metafísica em seu tempo e que ainda hoje é seguido.

5. Tal procedimento implica evidentemente uma metafísica, pois a motivação da rejeição contém tacitamente a condição sob a qual se aceita algo como algo, como não-nada.

6. Toda filosofia inclui um aspecto metafísico nesse sentido, pois todo filósofo se serve de um “fato primitivo” como ponto central de referência destinado a iluminar a totalidade do real e ajudá-lo a com-preendê-la.

“O Metafísico” no Homem

1. A pergunta metafísica em sentido estrito não foi inventada pela metafísica enquanto sistema, mas está contida no sujeito existente-como-cogito, sendo um aspecto dele, um modo de ser-homem, pois o próprio sujeito-como-cogito é “consciência metafísica”, “experiência metafísica”.

Duas Fases da Metafísica

1. A metafísica em sentido estrito é um pensar “radical” porque fala sobre “tudo”, e esse caráter radical manifesta-se na fórmula tradicional da pergunta metafísica, por que há algo e não antes o nada, pergunta que concerne à universalidade do ente enquanto ente.

2. O pensar metafísico pergunta pelo “porquê” do ente enquanto ente, buscando sua origem, fundamento e causa, pois o ente mostra-se tal que sua afirmação metafísica não pode ser sustentada se o metafísico se limitar a simplesmente afirmá-lo.