Kant critica a prova ontológica, afirmando que a “existência” não pode ser deduzida de um “conceito”.
Hegel, porém, anula novamente a distinção crítica, definindo o “real” como a “unidade imediata da essência e da existência”.
Para Hegel, o que era exclusivo de Deus (a coincidência de essência e existência) ou inválido segundo Kant, vale para todo ente “verdadeiro” ou real.
A ideia, o pensamento ou o conceito, como ser essencial, é também o real e efetivo por antonomásia.
Marx e a exigência de realização prática da unificação
Marx reconhece que a unificação hegeliana de essência e existência só se realizava na ideia filosófica.
Ele reclama que a ideia racional se una de fato com a totalidade da realidade prática e teórica.
Busca um princípio portador da realização prática ou “secularização” da filosofia.
Como “crítica”, limita o alcance da existência à essência; como “comunismo”, supera positivamente as relações inessenciais da existência.
Em princípio, Marx mantém a tese hegeliana da realidade como unidade de essência e existência.
Schelling e a virada irracional dentro do idealismo
Schelling reverte a unificação dialética hegeliana com a distinção entre filosofia “positiva” (da existência real) e “negativa” (puramente racional).
Sua polêmica de 1841 contra a filosofia “negativa” de Hegel inaugura um giro irracional em direção a uma filosofia da existência, completado por Kierkegaard.
Schelling via sua causa como comum à dos jovens hegelianos de esquerda que combatiam Hegel invocando-o.
A crítica de Schelling à indistinção hegeliana e ao deserto do ser
Schelling argumenta que Hegel incluía a existência apenas aparentemente em seu sistema, hipostasiando o conceito lógico numa existência que não lhe correspondia.
A lógica ontológica de Hegel só “afetaria” o real quando a “ideia” se decide por algo.
Sua ontologia transformaria a realidade num “deserto do ser”, uma filosofia negativa que ele erroneamente considerava positiva e completa.
A confusão entre filosofia negativa e positiva leva a uma essência desértica e silvestre.
Kierkegaard e a radicalização da existência como problema fundamental
Deixando de lado sua orientação cristã, Kierkegaard entende o ser humano como “existência”, concebida como puro factum brutum do Dasein.
A questão universal do ser, até então determinante, desloca-se exclusivamente para a pergunta pelo Dasein humano.
O problema autêntico deixa de ser o que o Dasein é, para ser que ele é e como está aí.
A pergunta pela existência torna-se idêntica à pergunta pelo sentido do “estar aí”.
A tese existencial sobre a essência do Dasein
A tese da filosofia da existência é que a “essência” do Dasein não é outra coisa senão a pura existência, o próprio “ser relativo a” (Zu-sein).
Heidegger formula isso de modo mais agudo: a essência do Dasein está em sua existência.
A radicalização do problema do ser desemboca na questionabilidade da “existência em cada caso própria” como fundamento da ontologia.
As características da existência kierkegaardiana
Em segundo lugar, a existência assim entendida afeta a existência “interior” do “individuo”.
A filosofia da existência discute o significado existencial das relações vitais, mas não é “filosofia social”.
Em terceiro lugar, devido à singularização radical e interiorizada do homem, “existir” significa encontrar-se ante o nada.
A angústia perante a nada torna-se uma experiência fundamental.
Nihilismo e singularização na época de dissolução
A singularização do indivíduo, que torna possível uma existência autêntica, é resposta a uma “época de dissolução”.
Kierkegaard recua completamente para sua interioridade face à dissolução de um mundo que ainda existia, mas perdera validade.
Esse movimento confirma, contra a vontade de Kierkegaard, a análise hegeliana da “consciência moral”: a interioridade subjetiva torna-se decisiva quando faltam “conteúdos substanciais” no mundo.
O indivíduo contra a universalidade social
Kierkegaard desenvolve seu conceito de “individuo” em oposição explícita à universalidade social e política, à “massa”, à “humanidade” e à “história universal”.
Via o desenvolvimento moderno como nivelamento social positivo e, contrariamente, como exaltação do significado decisivo do indivíduo.
Considerava essa singularização como o princípio do cristianismo.
Existir interiormente repelindo o mundo, em relação consigo mesmo como indivíduo, ante o nada, para “crer” ou “desesperar”.
A questão crucial é que o Dasein como tal tornou-se questionável em suas bases, pois o homem ficou “sem mundo”.
O problema autêntico dessa filosofia é a possibilidade inerente ao Dasein humano de não-ser.
Apropriação da ideia de existência por Heidegger e Jaspers
Sob a influência de Kierkegaard e face a uma “catástrofe europeia” crescente, Heidegger e Jaspers apropriam-se da ideia de existência.
Jaspers o faz sob o título de “filosofia da existência”.
Heidegger o faz sob o título de “analítica do Dasein” fundamental-ontológica, visando uma “destruição” e “recapitulação” da história da ontologia ocidental.
Ambos partem do ser do Dasein humano, num sentido de existência determinado por Kierkegaard.
A problemática da determinação da existência como isolamento
A determinação do ser do homem como “existência” é problemática porque se corresponde sempre com a existência isolada do indivíduo.
Refere-se à “mesmidade” interior, ao ser privado para si de um Dasein negativamente livre.
O isolamento persiste mesmo no modo da “comunicação”, de existência singular a existência singular.
A filosofia da existência moderna é expressão positiva de uma universalidade faltante da vida humana, de uma carência factual de mundo.
Niilismo como problema decisivo do ser
Para essa filosofia, o niilismo torna-se um problema decisivo do ser.
Heidegger desenvolve explicitamente a consequência niilista da existencialidade, por exemplo, na pergunta “Por que há ente e não antes nada?”.
A resposta possível, segundo Heidegger, encontra-se na “existência fundamentalmente temerária” que, na angústia, se prodiga para conservar “a última grandeza” do Dasein.
Essa resposta, abstraída da solução religiosa de Kierkegaard, coincide com ele: o fundamento último é o pathos do existir, a paixão como tal.
A problemática da agudização da questão do ser para a facticidade
A agudização da questão do ser para a “facticidade” do Dasein, para o “nó feito de que é” e tem que ser, revela sua problemática.
Nenhuma transcendência ultrapassa essa existência assim entendida; tudo o que ela “transcende” retorna, em última instância, a si mesma.
O objetivo é tornar patente no ser o abismo do nada e, assim, possibilitar o problema do “ser” como tal.