Kierkegaard opõe a “paixão” decisiva da interioridade da existência.
O cerne da crítica comum é a inadequação da filosofia absoluta do espírito de Hegel à realidade existente e à existência real.
Redução da questão ontológica universal à existência humana
O conceito de “existência” refere-se, nesse contexto, à nua existência do homem, seja em sua exterioridade (Marx) ou interioridade (Kierkegaard).
A filosofia se torna relevante para esses pensadores apenas quando leva em conta essa realidade humana como “antropologia”.
A pergunta ontológica universal pelo ser em geral concentra-se e reduz-se à pergunta particular pela existência humana.
Contexto histórico e origem escolástica do conceito de existência
Para compreender o giro para uma filosofia da existência humana, é necessário explicar a transmissão prévia do conceito.
“Existência” era originalmente um termo escolástico, oposto a essentia ou essência.
A distinção entre existentia e essentia aplicava-se a todos os seres criados por Deus, mas não a Deus mesmo, cujo ser coincide com sua essência.
A prova ontológica de Anselmo e os argumentos de Descartes, Espinoza, Leibniz e Wolff partem dessa coincidência em Deus.
Crítica kantiana e nova anulação por Hegel
Kant critica a prova ontológica, afirmando que a “existência” não pode ser deduzida de um “conceito”.
Hegel, porém, anula novamente a distinção crítica, definindo o “real” como a “unidade imediata da essência e da existência”.
Para Hegel, o que era exclusivo de Deus (a coincidência de essência e existência) ou inválido segundo Kant, vale para todo ente “verdadeiro” ou real.
A ideia, o pensamento ou o conceito, como ser essencial, é também o real e efetivo por antonomásia.
Marx e a exigência de realização prática da unificação
Marx reconhece que a unificação hegeliana de essência e existência só se realizava na ideia filosófica.
Ele reclama que a ideia racional se una de fato com a totalidade da realidade prática e teórica.
Busca um princípio portador da realização prática ou “secularização” da filosofia.
Como “crítica”, limita o alcance da existência à essência; como “comunismo”, supera positivamente as relações inessenciais da existência.
Em princípio, Marx mantém a tese hegeliana da realidade como unidade de essência e existência.
Schelling e a virada irracional dentro do idealismo
Schelling reverte a unificação dialética hegeliana com a distinção entre filosofia “positiva” (da existência real) e “negativa” (puramente racional).
Sua polêmica de 1841 contra a filosofia “negativa” de Hegel inaugura um giro irracional em direção a uma filosofia da existência, completado por Kierkegaard.
Schelling via sua causa como comum à dos jovens hegelianos de esquerda que combatiam Hegel invocando-o.
A crítica de Schelling à indistinção hegeliana e ao deserto do ser
Schelling argumenta que Hegel incluía a existência apenas aparentemente em seu sistema, hipostasiando o conceito lógico numa existência que não lhe correspondia.
A lógica ontológica de Hegel só “afetaria” o real quando a “ideia” se decide por algo.
Sua ontologia transformaria a realidade num “deserto do ser”, uma filosofia negativa que ele erroneamente considerava positiva e completa.
A confusão entre filosofia negativa e positiva leva a uma essência desértica e silvestre.
Kierkegaard e a radicalização da existência como problema fundamental
Deixando de lado sua orientação cristã, Kierkegaard entende o ser humano como “existência”, concebida como puro factum brutum do Dasein.
A questão universal do ser, até então determinante, desloca-se exclusivamente para a pergunta pelo Dasein humano.
O problema autêntico deixa de ser o que o Dasein é, para ser que ele é e como está aí.
A pergunta pela existência torna-se idêntica à pergunta pelo sentido do “estar aí”.
A tese existencial sobre a essência do Dasein
A tese da filosofia da existência é que a “essência” do Dasein não é outra coisa senão a pura existência, o próprio “ser relativo a” (Zu-sein).
Heidegger formula isso de modo mais agudo: a essência do Dasein está em sua existência.
A radicalização do problema do ser desemboca na questionabilidade da “existência em cada caso própria” como fundamento da ontologia.
As características da existência kierkegaardiana
Em segundo lugar, a existência assim entendida afeta a existência “interior” do “individuo”.
A filosofia da existência discute o significado existencial das relações vitais, mas não é “filosofia social”.
Em terceiro lugar, devido à singularização radical e interiorizada do homem, “existir” significa encontrar-se ante o nada.
A angústia perante a nada torna-se uma experiência fundamental.
Nihilismo e singularização na época de dissolução
A singularização do indivíduo, que torna possível uma existência autêntica, é resposta a uma “época de dissolução”.
Kierkegaard recua completamente para sua interioridade face à dissolução de um mundo que ainda existia, mas perdera validade.
Esse movimento confirma, contra a vontade de Kierkegaard, a análise hegeliana da “consciência moral”: a interioridade subjetiva torna-se decisiva quando faltam “conteúdos substanciais” no mundo.
O indivíduo contra a universalidade social
Kierkegaard desenvolve seu conceito de “individuo” em oposição explícita à universalidade social e política, à “massa”, à “humanidade” e à “história universal”.
Via o desenvolvimento moderno como nivelamento social positivo e, contrariamente, como exaltação do significado decisivo do indivíduo.
Considerava essa singularização como o princípio do cristianismo.
Sentido fundamental da existência em Kierkegaard
Existir interiormente repelindo o mundo, em relação consigo mesmo como indivíduo, ante o nada, para “crer” ou “desesperar”.
A questão crucial é que o Dasein como tal tornou-se questionável em suas bases, pois o homem ficou “sem mundo”.
O problema autêntico dessa filosofia é a possibilidade inerente ao Dasein humano de não-ser.
Apropriação da ideia de existência por Heidegger e Jaspers
Sob a influência de Kierkegaard e face a uma “catástrofe europeia” crescente, Heidegger e Jaspers apropriam-se da ideia de existência.
Jaspers o faz sob o título de “filosofia da existência”.
Heidegger o faz sob o título de “analítica do Dasein” fundamental-ontológica, visando uma “destruição” e “recapitulação” da história da ontologia ocidental.
Ambos partem do ser do Dasein humano, num sentido de existência determinado por Kierkegaard.
A problemática da determinação da existência como isolamento
A determinação do ser do homem como “existência” é problemática porque se corresponde sempre com a existência isolada do indivíduo.
Refere-se à “mesmidade” interior, ao ser privado para si de um Dasein negativamente livre.
O isolamento persiste mesmo no modo da “comunicação”, de existência singular a existência singular.
A filosofia da existência moderna é expressão positiva de uma universalidade faltante da vida humana, de uma carência factual de mundo.
Niilismo como problema decisivo do ser
Para essa filosofia, o niilismo torna-se um problema decisivo do ser.
Heidegger desenvolve explicitamente a consequência niilista da existencialidade, por exemplo, na pergunta “Por que há ente e não antes nada?”.
A resposta possível, segundo Heidegger, encontra-se na “existência fundamentalmente temerária” que, na angústia, se prodiga para conservar “a última grandeza” do Dasein.
Essa resposta, abstraída da solução religiosa de Kierkegaard, coincide com ele: o fundamento último é o pathos do existir, a paixão como tal.
A problemática da agudização da questão do ser para a facticidade
A agudização da questão do ser para a “facticidade” do Dasein, para o “nó feito de que é” e tem que ser, revela sua problemática.
Nenhuma transcendência ultrapassa essa existência assim entendida; tudo o que ela “transcende” retorna, em última instância, a si mesma.
O objetivo é tornar patente no ser o abismo do nada e, assim, possibilitar o problema do “ser” como tal.
A posição de Jaspers: existência e transcendência
Jaspers inicia sua filosofia sistemática e histórica numa situação espiritual de niilismo existencial.
Para ele, a existência possível (Existenz) supera tanto o mero Dasein empírico quanto a si mesma, transcendendo para a “transcendência”.
A insatisfação no mero Dasein é expressão da Existenz possível.
O homem é Existenz possível no Dasein; a Existenz avança para seu ser ou se afasta para o nada por meio de escolha e decisão.
O limite da liberdade e a necessidade da transcendência
Erigir-se absolutamente sobre si mesma leva a Existenz ao desespero, à consciência de que afundaria no vazio.
Para tornar-se real a partir de si, a Existenz depende de encontrar aquilo que a completa.
A liberdade, que decide o ser junto com a paixão, não pode considerar-se a última instância, pois só está no tempo.
Na transcendência, a liberdade acaba, pois deixa de ser decisiva.
Definição e superação jaspersiana da existência
“Existência” é aquilo que se relaciona consigo mesmo e, assim, com sua transcendência.
Em uma transcendência de segunda ordem, supera-se existentialmente o Dasein mundano numa “orientação filosófica no mundo”.
Supera-se também a intranquilidade do existir em situações-limite no salto da angústia para a “tranquilidade na realidade”.
Esse salto é o passo “mais difícil e incompressível”, através do qual a realidade se mostra verdadeiramente descoberta.
O problema central da filosofia de Jaspers
O problema autêntico é a relação entre existência e transcendência, a superação do niilismo.
Filosofar ao modo de Jaspers significa retrair-se da completa objetualidade para as origens não objetuais.
O ser mais originário não é o ser para si da existência, mas o ser em si de sua transcendência.
A filosofia da existência é a filosofia do ser do homem que está por em cima do homem.
Leitura do mundo como cifra da transcendência
O método é ler tudo o que é e o próprio Dasein em “contemplação existencial”, como leitura da língua multívoca do ser da transcendência.
A última perspectiva é experimentar o ser no “naufrágio” da existência e cobrar “a mais simples certeza do ser”.
Enquanto Heidegger tenta uma metafísica finita da finitude, Jaspers ensaia infinitas possibilidades na transcendência imanente.
A relação com a religião e a expressão mítica
A finitude e nulidade do Dasein só têm sentido em vista do eterno autopresente da transcendência “infinita”.
A expressão “mítica” para essa relação é a do “alma” com “Deus”.
O filosofar de Jaspers acontece como impulso contrário à religião, mas buscando um absoluto ser em si.
Sem transcendência, a orientação no mundo e a clarificação existencial perderiam sentido e profundidade.
Modificação dos conceitos kierkegaardianos em Jaspers
Graças ao ajuste da existência para a transcendência, todos os conceitos existenciais tomados de Kierkegaard modificam-se e relativizam-se.
São despidos de seus trajes teológicos e recolocados no sentido de uma recapitulação existencial da metafísica do idealismo alemão.
Jaspers une mundos díspares como os de Kierkegaard e Humboldt, dando-lhes clarificação existencial em conceitos formais da metafísica idealista.
Órgão e linguagem da metafísica jaspersiana
O órgão dessa metafísica é a “consciência absoluta” como fantasia, o “olho da existência possível”.
A linguagem imediata da transcendência é como uma “segunda mundo” dos objetos, sua “cifra” multívoca e carente de objetualidade.
Nesses símbolos metafísicos, o não objetual em si torna-se objetualmente visível como escritura cifrada da transcendência.
Seu tempo é puro presente eterno, um nunc stans.
O naufrágio como cifra última e a questão da universalidade humana
A cifra última e ressonante de todas as outras é o naufrágio, a “cifra do ser no naufrágio”.
A verdade encontra-se onde a existência que naufraga traduz a língua da transcendência na mais ingênua certeza do ser.
A filosofia de Jaspers, no entanto, permanece numa “comunicação da solidão”, formando mundos peculiares.
A expressão metódica para essa carência de mundo é a ideia do “originário”, do não objetual.
A problemática mundana da mesmidade e a crítica ao nivelamento
Jaspers conhece a problemática mundana das precondições da mesmidade, mas seu saber só transforma a consciência, não o ser.
A questão decisiva é se a posição deve ser contra o nivelamento da mesmidade ou contra a sublimação do eu burguês em um si mesmo existencial.
Jaspers rejeita como “positivismo” a questão sobre a inumanidade da pretensão da mesmidade e o problema da ordem social objetiva.
A alternativa existencial limitada e a banalidade questionável
A alternativa existencial entre uma existência em referência à transcendência e um mundo sem existência só é válida num contexto previamente nivelado.
A vida sem relação existencial com a transcendência seria “banal” para Jaspers.
Contudo, a banalidade poderia residir na própria questionabilidade existencial, cujo extremo é o niilismo.
O extraordinário seria um homem realizar o universal em sua normalidade.
A universalidade humana além da cisão existencial
A universalidade humana não é nem uma planície humanitária nem um abismo existencial.
Encontra-se no ser do homem como tal, aquém da cisão entre Dasein e “existência” e, portanto, à margem da possível “transcendência”.