LÉVINAS, Emmanuel. Dieu, la mort et le temps. Paris: Grasset, 2010.
[…] O Da do Dasein, que é simultaneamente uma questão e já uma compreensão do ser-verbo, é um fundamento sem fundo e foi elaborado na estrutura da preocupação [Sorge].
A existência humana (ou o Da-sein) pode ser descrita no seu Da (ser-no-mundo) por três estruturas: ser-antes-de-si (projeto), já-no-mundo (facticidade), ser-no-mundo como ser-para-além-de-si (com as coisas, com o que se encontra no mundo).
Esta é a estrutura da preocupação, na qual encontramos uma referência temporal descrita unicamente com base nas relações no Dasein.
Tempo
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projeto - futuro
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já - passado
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junto a - presente
(Esta estrutura é apresentada por Heidegger como co-originária, como surgindo do mesmo Ursprung, do mesmo salto primal. Simultaneidade paradoxal da diacronia).
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O curso anterior buscava explicitar o sentido da analítica do Dasein para o problema da ontologia, não como simples propedêutica, mas como lugar em que o ser está em questão no próprio Dasein, sendo esse estar-em-questão o estatuto do ser enquanto verbo e o modo de sua efetuação, de modo que o Da do Dasein, simultaneamente questão e já-compreensão do ser-verbo, aparece como fundamento sem fundo elaborado na estrutura do cuidado.
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Analítica do Dasein como pertinência direta ao problema da ontologia.
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Ser em questão como traço essencial do ser enquanto verbo.
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Da do Dasein como questão e compreensão simultâneas do ser-verbo.
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Estrutura do cuidado como elaboração desse “fundamento sem fundo”.
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A existência humana (ou Da-sein) descreve-se em seu Da (ser-no-mundo) por três estruturas articuladas como ser-adiante-de-si (projeto), já-estar-no-mundo (facticidade) e ser-no-mundo como ser-junto-de (junto às coisas e ao que se encontra no interior do mundo).
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Ser-adiante-de-si identificado como projeto.
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Já-estar-no-mundo identificado como facticidade.
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Ser-junto-de identificado como relação prática com coisas intramundanas.
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A estrutura do cuidado contém uma referência temporal formulada a partir das relações internas do Dasein, pela qual projeto se refere ao porvir, o já-estar se refere ao passado e o ser-junto-de se refere ao presente, sob a tese de cooriginariedade dessas dimensões como provenientes do mesmo Ursprung em paradoxal simultaneidade da diacronia.
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Projeto correlacionado ao porvir.
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Já-estar correlacionado ao passado.
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Ser-junto-de correlacionado ao presente.
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Cooriginariedade apresentada como mesmo Ursprung e mesmo primesaut.
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Simultaneidade paradoxal da diacronia como caracterização do conjunto.
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A questão do ser, entendida como compreensão do ser, não constitui saber desinteressado no sentido aristotélico da Metafísica A, 2, pois a analítica do Dasein não procede como curiosidade de uma humanidade abstrata, mas expõe a aventura do ser que se joga como cena arriscada sem segurança de fundamento terrestre ou de princípio autoimpositivo, exigindo a mienneté, enquanto se dá em generosidade e gratuidade extremas, com ressonâncias de virtudes cristãs (generosidade, pudor, humildade) atribuídas por Heidegger a uma raiz no ser mesmo, permanecendo a interrogação sobre se tais significações éticas pressupõem o humano como ruptura do ser.
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Aristóteles (Metafísica A, 2) como contraste do “desinteressamento digno dos deuses”.
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Analítica do Dasein como exposição da aventura do ser e de seus riscos.
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Ausência de “absoluto” em Sein und Zeit como anotação de vocabulário.
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Mienneté como exigência ligada ao “mien” e a todo “ter”.
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Generosidade e gratuidade extremas como modo de doação do ser.
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Virtudes cristãs mencionadas: generosidade, pudor, humildade.
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Heidegger como referência à tese de raiz dessas virtudes no ser mesmo.
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Questão final sobre pressuposição do humano como ruptura do ser.
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A estrutura do cuidado designa a compreensão do ser no Da como sempre referida ao encontro das coisas e compreendendo a partir delas, o que corresponde à vida cotidiana em sua banalidade feita de sucessão de dias e noites, “trabalhos e dias”, ocupações e distrações (a vida como série interminável de jantares, segundo Pouchkine), tomada como realidade mesma da vida, embora permaneça como possibilidade que não é estranha à mienneté, ao próprio, à autenticidade e ao compreender-questionar, dela derivando e a ela remetendo ao mesmo tempo em que torna irreconhecível o primesaut da existência para a questão do ser.
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Compreensão do ser referida ao encontro com as coisas.
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Vida cotidiana caracterizada por banalidade, sucessão e ocupações.
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Pouchkine citado pela fórmula da série interminável de jantares.
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Cotidiano tomado como realidade mesma da vida.
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Cotidiano como possibilidade ligada à mienneté e à autenticidade.
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Derivação e remissão ao próprio simultâneas.
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Primesaut/Ursprung da existência para a questão do ser como obscurecido.
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Em Sein und Zeit a análise parte da vida cotidiana e da existência não-minha embora derivada do propriamente meu, recolocando a pergunta sobre se a cooriginariedade das estruturas do cuidado pode ser reencontrada em algo que não seja a simultaneidade do cotidiano.
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Sein und Zeit como ponto de partida metodológico no cotidiano.
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Existência não-minha como derivada do propriamente meu.
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Interrogação sobre cooriginariedade fora da simultaneidade cotidiana.
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Quando o cotidiano reivindica o privilégio de significar o Dasein, a estrutura do projeto (ser-adiante-de-si) deixa de ser compreensível como tarefa de ser e possibilidade a ser assumida, pois no tempo cotidiano a unidade do eu só aparece ao final quando o tempo da vida se esgota, de modo que a totalidade do Dasein surge apenas na necrologia, ao preço de cessar a pessoa, e Heidegger formula então a repugnância ontológica do cuidado frente a um possível ser-todo do Dasein.
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Projeto como tarefa de ser e possibilidade a ser assumida.
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Tempo cotidiano como condição em que a unidade do eu aparece apenas ao fim.
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Totalidade do Dasein vinculada à necrologia.
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Fórmula “tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change” como imagem do fim.
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Heidegger citado em Être et Temps, §46, p. 176 (p. 236 do alemão), trad. E.
Martineau.
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Repugnância do cuidado frente a um ser-todo possível como tese ontológica.
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O momento primário do cuidado, ser-adiante-de-si, significa o Dasein como ser-em-vista-de si mesmo e como relação ao próprio poder-ser enquanto se reporta ao fim, permanecendo determinado por esse adiante-de-si mesmo quando nada mais parece estar “à frente”, e incluindo como modos próprios tanto o desespero (sem-esperança) quanto a disposição de estar pronto para tudo sem ilusões e sem distância em relação ao porvir.
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Ser-adiante-de-si como ser-em-vista-de si mesmo.
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Relação ao fim como relação ao poder-ser.
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Persistência do adiante-de-si mesmo quando “nada há diante”.
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Desespero/sem-esperança como modo do ser diante de possibilidades.
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Pronto para tudo e sem ilusões como ainda contendo adiante-de-si.
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Na descrição do cuidado aparece a exclusão da totalidade, pois o ser-adiante-de-si indica um excedente no Dasein como poder-ser ainda não efetivo, instaurando uma não-clausura permanente em que a não-totalidade significa um “fora” do Dasein e a perda da distância equivale ao desaparecimento do Dasein, já que um ente sempre no possível não pode apreender o todo nem ser um todo para si.
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Exclusão da totalidade como traço do cuidado.
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Excedente do Dasein como poder-ser não efetivo (nota 1 indicada no trecho).
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Não-clausura permanente como estrutura.
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Não-totalidade como “fora” do Dasein.
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Distância como condição de permanência do Dasein.
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Impossibilidade de ser um todo para um ente sempre no possível.
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Heidegger interroga se o tratamento do Dasein não foi moldado pelo modelo do Vorhandenes (realidade à mostra, pura presença), de modo que se impõe esclarecer o que significa para o Dasein ser um todo.
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Vorhandenes como modelo de realidade puramente presente.
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Risco de modelar Dasein por presença à mostra.
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Pergunta sobre o sentido de ser-um-todo para o Dasein.
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No Dasein tal como é, há algo em falta cujo faltar pertence ao ser mesmo e essa falta é a morte, de modo que a possibilidade do tempo se abre por uma certa relação com a morte, a partir da qual se coloca a questão da possibilidade do todo.
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Falta constitutiva pertencente ao ser do Dasein.
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Morte identificada como essa falta.
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Relação com a morte como condição de possibilidade do tempo.
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Questão do todo recolocada a partir do tempo aberto pela morte.