Transformação histórica do conceito de “sujeito”: de sub-jectum (hypokeimenon), termo banal para designar todo ente que jaz presente a partir de si, para a designação exclusiva do ser humano.
Mutação da verdade em certeza exigiu um novo fundamento inabalável.
Kant promove a revolução copernicana em filosofia, consolidando esta posição.
“Ser sujeito” torna-se a característica distintiva do homem enquanto ser pensante-representante.
O homem é definido como coisa pensante (res cogitans) que se representa o ente como coisa extensa (res extensa), mensurável e objeto de uma certeza absoluta.
A representação calculante do sujeito assegura a realidade do real objetivado e torna o homem o fundamento da totalidade do que é.
O subjectum, a certeza fundamental, é a simultaneidade assegurada na representação entre o homem representante e o ente representado (o objetivo).
Esta operação assegura também a maestria sobre o ente, conforme o projeto cartesiano de “tornar-se como senhores e possuidores da natureza”.
A consciência é o lugar desta representação onde o sujeito, falando apenas a si mesmo, abriga a totalidade objetiva do real.
A subjetividade designa tanto a relação com a coisa-objeto quanto o fechamento em si da experiência “subjetiva”.
A razão se reduz ao cálculo da consciência.
A subjetividade caracteriza a metafísica dos Tempos Modernos até seu acabamento no niilismo planetário, marcando inclusive a intencionalidade husserliana, apesar de esta também apontar para o ser-no-mundo.
Em Ser e Tempo, Heidegger pretende remontar do sujeito (e mesmo do animal racional) ao Dasein, à nossa finitude como relação com o ser.
Partir de um “eu” ou sujeito imediatamente dado significa perder por completo a riqueza fenomenal do Dasein.
No entanto, esta remontada permite redefinir os limites do sujeito, ao ponto de poder dizer-se: “O 'sujeito', ontologicamente bem compreendido, [é] o Dasein”.
Analogia e diferença fundamentais entre o Dasein heideggeriano e o cogito cartesiano.
Ambos ocupam uma posição central na investigação filosófica sobre o que é.
A diferença decisiva: o “eu penso”, armado de seu intuitus, mensura a coisa como objeto à sua frente, enquanto o Dasein se “eclata” lá onde estão, ao mesmo tempo, as coisas.
É uma coisa atrair o que se fala (as coisas) para o seu colimador, outra é abrir-se à presença mesma das coisas.
O sujeito é uma maneira de ser do Dasein, que ele pressupõe, mas não funda.
Em perspectiva historial, Heidegger desenvolverá posteriormente a questão da “soberania do sujeito nos Tempos Modernos”, interpretando o cogito cartesiano.