Inacabamento essencial: O “tempo” como sentido do ser, em
Ser e Tempo, não é uma resposta, mas o nome de uma questão, o “pre-nome” da “verdade do ser”.
Mal-entendidos e recepção pública: A celebridade do livro mascarou sua incompreensão generalizada.
-
Heidegger lamenta o “amontoado de mal-entendidos” em torno do conceito de Dasein, especialmente sua redução a uma antropologia ou “humanismo”.
-
Contrariamente, Ser e Tempo visa desalojar o ser humano do lugar central, abalando todo o papel desempenhado pela subjetividade.
Distinção entre o “tratado”
Ser e Tempo e o “caminho” ou “tarefa” de “Ser e Tempo”.
-
O tratado, com sua arquitetônica singular, é uma “catedral fenomenológica” completa em si, que Heidegger continuamente releu e reinterpretou.
-
O “caminho” de “Ser e Tempo”, porém, não foi mais percorrido; Heidegger não planejou uma “segunda parte” e afirmou nunca mais ter escrito um livro no mesmo sentido.
Estrutura planejada e partes “faltantes”: O tratado publicado corresponde à Primeira Parte (seções 1 e 2) de um plano original mais amplo.
Supressão da Seção “Tempo e Ser”: Heidegger havia redigido e até feito provas tipográficas desta seção.
Significado da supressão: Ela livra o projeto do “mal-entendo ontológico” fundamental: confundir a questão diretriz da ontologia (“o que é o ente?”) com a questão fundamental pelo sentido do ser.
-
A fundação da ontologia não é uma ontologia, mas uma “lâmina de fundo” que prepara o deslocamento e a superação da questão diretriz.
-
Em 1927, Heidegger ainda não podia pensar plenamente a dimensão de abrigamento (Bergung) onde se ordena a fundação do ente, mas o reconhecimento “a tempo” dessa insuficiência abre a fenda (a Kehre) que ele nunca mais cessará de interrogar.
Ser e Tempo como abertura para o
Ereignis: A partir dessa fenda,
Ser e Tempo, escapando de seu autor, vem nomear a acontecência (
Ereignis) do ser e do tempo no ser-o-aí (
Da-sein).
-
O “defeito radical” (Grundmangel) do livro – ter-se aventurado “cedo demais” e “longe demais” – é a catástrofe que abre o pensamento da acontecência.
-
Esse “cedo/longe demais” permanece a própria possibilidade do pensamento; Heidegger nunca foi “mais longe” que isso.
Necessidade permanente de
Ser e Tempo: Será sempre necessário “passar por”
Ser e Tempo, fazer o “salto no
Dasein”, entendendo que o
Dasein não é o ser humano, mas o ser-o-aí de onde o ser humano brota historialmente em seu pertencimento à verdade do ser.
-
Em 1941, Heidegger afirma que não foi “mais longe”, pois não lhe era permitido, mas que se aproximou um pouco mais do que foi empreendido com Ser e Tempo, comparando o livro à escalada de uma montanha inexplorada, com desvios e precipícios às vezes imperceptíveis para o leitor.