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A verdadeira potência, medida pelo critério da eficiência total do fazer, aparece paradoxalmente como impotência (Ohnmacht; GA 65, 47), e Heidegger a nomeia como “Die stille Kraft des Möglichen”, a calma força do possível, insinuada em Ser e Tempo (p. 394) e desdobrada na Carta sobre o humanismo.
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Ela é calma e silenciosa porque não precisa agitar-se incessantemente para assegurar sua potência por um acréscimo perpétuo de potência; e sua força (Kraft) é buscada em das Mögliche no próprio mögen (amar), pensado por Heidegger como “fazer dom do ser” (GA 9, 316).
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É por esse dom que o amado pode advir a si; e é desse amar (mögen) que todo poder (Vermögen) verdadeiro recebe seu conteúdo, pois “o poder de amar” (das Vermögen des Mögens) é aquilo pela “graça” (“kraft”) de que algo pode propriamente ser capaz (vermag) de ser.
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No grande Entrevista vespertina de 1946-1948 lê-se: “Sem o amar próprio do amor (das Mögen der Liebe) não podemos (vermögen) nada” (GA 75, 89); e no início de O que chama a pensar?: “Nós só somos capazes (vermögen) daquilo que amamos (mögen), isto é, daquilo a que, com afeto, nos confiamos e assim admitimos ao deixá-lo ser” (GA 7, 129; Ensaios e conferências, p. 151).
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O poder de amar é o que torna capaz porque deixa-ser; essa é sua graça, que é também sua força: conceder favor ao ser, de modo que o ser se desdobre sem esgotar-se na eficácia do ente.
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Dispensa-se, assim, como possibilidade “à altura” do Dasein: o ser não “torna possível” como condição instrumental, mas abre, libera e faz dom inesgotavelmente, com a força singular do que “ama de preferência”, como diz René Char (“Aisé à porter”).