O ser humano está desde sempre e primordialmente “fora” (
schon draußen), junto ao ente com o qual se ocupa, com os outros, em um horizonte de desvelamento compartilhado.
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Nesse compartilhamento, a diferença entre um “eu” e um “tu” apenas se perfila.
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Somos “tu” ou “nós” tão fundamentalmente quanto “eu”.
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A ideia de uma esfera do eu isolada e prévia é uma falsa evidência, tão carregada de pressupostos teóricos quanto a de um mundo de objetos “externos”.
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O “retorno radical ao eu” na filosofia apenas obstrui a possibilidade de ver fenomenologicamente o sentido de dizer “eu”.
O parágrafo 25 de
Ser e Tempo abandona definitivamente a linguagem da interioridade e da consciência.
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O “eu” não é “dado” em uma “reflexão simplesmente percipiente”.
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Pertence ao modo de ser do Dasein não ser, na maioria das vezes, si mesmo, pois sua existência se deixa absorver pelo movimento daquilo que o ocupa.
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É precisamente nesta tensão entre a tendência a não ser si mesmo e a possibilidade de vir a si que estamos sempre em questão para nós mesmos.
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Ser si mesmo (Selbst) não é recuperar uma suposta identidade autêntica, mas sustentar resolutamente a abertura (Erschlossenheit) para o que se apresenta, dando-lhe lugar em toda a amplitude de seu sentido.
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Este é o movimento próprio do cuidado (Sorge), que confere ao si mesmo sua constância possível, radicalmente distinta da permanência de um “eu” substancial e idêntico a si.
O verdadeiro ser si mesmo opõe-se à “misère du moi je”; é habitado pelo cuidado de se voltar inteiramente para aquilo que o concerne, vindo a si apenas ao deixar através de si desdobrar-se livremente o espaço do aí (da).
O si mesmo (
Selbst) não pode ser compreendido a partir do eu.
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Inversamente, a determinação da possibilidade essencialmente aberta e ecstática do si permite a Heidegger captar o sentido existencial do “eu” (não do “mói” substantivo) de maneira radicalmente nova, expressa pelo termo Jemeinigkeit.
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Jemeinigkeit é o fato de, a cada vez, caber-me em próprio fazer face ao que se apresenta.
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O ser-aí é a cada vez “meu” (je meines), no sentido exatamente inverso da posse: existir é tornar-se livre para aquilo que, de modo único, diz respeito em primeira pessoa a mim.
Contra a tradição metafísica, o “eu” heideggeriano não se afirma nem se põe; tem incessantemente que responder.