Deslocamento radical em relação ao sentido metafísico e poético corrente: O termo alemão
Dasein possui uma história densa no uso comum e filosófico, designando primariamente presença, existência ou realidade efetiva, servindo desde o século XVIII como tradução para
existentia. Em
Hegel, adquire uma determinação lógica singular como resultado do devir, a unidade mediada do ser e do nada. Na poesia, especialmente em
Rilke, alcança uma ressonância elevada, indicando uma aceitação corajosa da existência face ao inaudito. Heidegger, contudo, opera uma reviravolta decisiva que desaloja o termo de toda essa tradição, conferindo-lhe um sentido “inédito” e “incomparável”. Este sentido não apenas difere, mas se opõe intencionalmente à acepção metafísica da presença (
Vorhandenheit), seja em sua modulação grega (
physis), escolástica (
existentia) ou moderna (realidade objetiva). A incomparabilidade do
Dasein heideggeriano reside precisamente no fato de não ser um ente, nem uma determinação ôntica do homem entre outras (como razão, alma ou consciência), mas algo de ordem totalmente diversa que exige uma escuta nova de uma palavra antiga.