O
Abgrund é a dimensão livre onde toda fundação (
Gründung) encontra seu recurso inesgotável, decidindo, a cada vez de maneira única, a possibilidade humana de fundar, a partir do ente, uma morada; nele, entra em jogo a mútua pertença entre ser e homem, cujo único “fundamento” é seu próprio advir (
Ereignis); o pensamento heideggeriano reconduz a filosofia à meditação dessa pertença, renunciando a buscar um fundamento ou quadro para assentar o conhecimento do ente; não podemos representar o que diz
Abgrund, pois ele é “o que há de mais simples e de mais silencioso” (
GA66, 52), onde o pensar filosófico tradicional atinge seu limite e sua fonte; talvez algo análogo ocorra na pintura moderna, como nas últimas aquarelas de Cézanne, onde o branco do papel, sem moldura pré-estabelecida, deixa transparecer o motivo em sua luz própria, assim como o
Abgrund não é um vazio, mas a abertura que possibilita toda fundação sem precisar ela mesma de fundamento.