Jean Ladrière, Les enjeux de la rationalité. Le défi de la science et de la technologie aux cultures, Paris, Aubier-Montaigne/Unesco, 1977, p. 53.
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Delimitação do fenômeno visado e recusa de uma compreensão indiferenciada de tecnologia
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A tecnologia em questão não é tecnologia em geral, mas tecnologia moderna enquanto especificamente distinguida por sua relação com a ciência
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A hipótese contínua do desenvolvimento tecnológico, entendida como processo ininterrupto desde as origens humanas, é apresentada como tentação interpretativa a ser examinada
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A partir dessa hipótese, a tecnologia moderna poderia parecer apenas um modo sofisticado de uma atividade tradicional de saber-fazer transmitido
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Nesse enquadramento, a diferença entre épocas seria quantitativa e não qualitativa
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A tese da anterioridade da tecnologia em relação à ciência é evocada como argumento possível
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A tecnologia poderia ser tomada como condição histórica de possibilidade do surgimento da ciência
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Nessa leitura, a ciência seria interpretada como forma de atividade prática inteiramente conduzida por fins práticos, e sua influência atual sobre a tecnologia seria apenas derivada e secundária
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Reconhecimento de uma mediação histórico-social distinta da essência tecnológica
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A tecnologia moderna é descrita como estreitamente ligada à organização industrial moderna da produção
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A organização é caracterizada por combinação de divisão do trabalho altamente desenvolvida e alto nível de integração
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A integração assume formas de empresas crescentes, grupos industriais complexos e sistemas de planejamento central em escala nacional
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Os efeitos mais visíveis dessa organização são apresentados como eminentemente quantitativos
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A produção em massa torna-se possível em escala vasta, simultaneamente diversificada e padronizada
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A realização localizada de projetos altamente sofisticados torna-se viável
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A leitura desses efeitos como essência da tecnologia é recusada
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O aspecto quantitativo aparece como efeito de uma combinação específica entre tecnologia e industrialismo
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A interação tecnologia-indústria é reconhecida como decisiva para o impacto social de ciência e tecnologia, mas é metodologicamente posta entre parênteses para que a tecnologia seja compreendida em si mesma
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Afirmação de uma diferença qualitativa entre tecnologia moderna e estados anteriores da técnica
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A insuficiência de critérios usuais de comparação é explicitada
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A diferença não reside na amplitude das consequências, nem na adequação do método, nem na eficiência dos meios, nem na beleza intrínseca dos dispositivos
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Exemplos históricos de invenções e técnicas antigas são lembrados para mostrar que engenhosidade e eficácia não são exclusividade moderna
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O fator decisivo é localizado no modo de evolução
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A tecnologia antiga é caracterizada por desenvolvimento lento, fundado numa base essencialmente prática, ainda que racional
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O progresso ocorre sobretudo por observação comparativa de causa e efeito e por crítica racional de práticas empíricas
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A invenção não é sistemática, e o acaso desempenha papel importante, contribuindo para a lentidão inicial
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A tecnologia antiga é definida, em síntese, como agregado de saber-fazer desprovido de justificação teórica propriamente explicativa
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A produção de efeitos é dominada sem que, em geral, se possa explicar por que o efeito ocorre
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Justificações mitológicas podem envolver o saber-fazer e produzir eficiência social, mas não equivalem a explicação
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Em certos contextos culturais, a eficiência observada basta como critério sem necessidade de justificações narrativas
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A tecnologia moderna conserva resquícios de saber-fazer não explicado, mas muda o eixo do desenvolvimento
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O acaso não desaparece, e há procedimentos baseados em tradição sem explicação satisfatória
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O traço característico é a aceleração, a sistematicidade e o controle consciente da evolução técnica
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Essa transformação é atribuída à conexão estreita, desenvolvida nos dois últimos séculos, entre ciência e tecnologia
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Interação crescente entre ciência e tecnologia e distinção persistente entre os dois tipos de atividade
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A racionalização total da atividade tecnológica é recusada como ideia irrealizável
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Sistemas materiais são demasiado complexos para serem integralmente governados por modelos cientificamente adequados, ao menos no horizonte previsível
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O ponto decisivo não é a completude do controle, mas a ligação profunda entre atividade tecnológica moderna e prática científica
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A visibilidade do vínculo cresce com o grau de avanço tecnológico
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Um contraste histórico é introduzido: em certos momentos a teoria segue a inovação técnica, e em outros a teoria precede a realização técnica
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A característica específica da tecnologia contemporânea é formulada como interação estreita com a ciência
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Duas questões são abertas pela intensidade dessa interação
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A fronteira social e institucional entre ciência e tecnologia é apresentada como cada vez mais indistinta
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Ambas aparecem como atividades socialmente organizadas, planificadas, orientadas por objetivos escolhidos e essencialmente práticas
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O termo pesquisa passa a aplicar-se tanto ao que se chama ciência quanto ao que se chama tecnologia
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A semelhança entre laboratório universitário de pesquisa dita pura e laboratório empresarial voltado a aplicações é apresentada como evidência dessa convergência
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Além dos aspectos sociais, a estrutura interna da ciência tende a aproximá-la da tecnologia