KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.
A quadratura (das Geviert): divinos e mortais
Artigo I — Algumas reflexões sobre o lugar de Deus no pensamento de Heidegger
I. Introdução: divinos e mortais
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A essência humana não se determina primordialmente pela comparação de capacidades com as dos demais seres vivos, mas pela compreensão do ser e pela abertura em que os entes podem aparecer como entes; a existência (Ek-sistenz) nomeia esse estar exposto à clareira (Lichtung) do ser, preservada na linguagem como morada da essência humana.
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A condição mortal não consiste apenas no término biológico da vida, pois a possibilidade de reconhecer a morte como morte faz do ser humano o lugar finito em que a verdade do ser pode acontecer; assumir essa possibilidade torna manifesta a pertença dos mortais à quadratura (das Geviert).
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A relação entre mortais e divinos se dá no âmbito do mundo que os distingue e os aproxima; nele, a reivindicação do sagrado pode conceder ou retirar a salvação (Heil), sem que sua chegada ou seu afastamento estejam à disposição da vontade humana.
II. A experiência de Heidegger com a teologia cristã
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O contato inicial com a teologia cristã, seus problemas hermenêuticos e a tradição de interpretação da fé foi decisivo para a formação da fenomenologia hermenêutica, embora a investigação filosófica tenha passado a exigir autonomia diante dos pressupostos da teologia especulativa.
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A determinação metafísica de Deus como fundamento supremo de todos os entes não alcança, por si, o Deus vivo da fé nem o caráter histórico da revelação; a manifestação cristã de Deus em Cristo não pode ser deduzida de um princípio universal da filosofia da religião.
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A crítica aos resíduos teológicos presentes na filosofia visa preservar a diferença entre suas perguntas e as da teologia, ao mesmo tempo que deixa aberta a possibilidade de uma teologia fundada na própria fé e em sua compreensão da relação humana com Deus.
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O caráter metodologicamente ateu da filosofia significa que a existência de Deus não é tomada como condição de sua investigação nem negada por ela; o pensamento filosófico deve esclarecer seu próprio campo antes de pretender decidir questões que pertencem à fé.
III. Pensar Deus: limites intrínsecos
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O pensamento fenomenológico procura deixar aparecer aquilo que se mostra a partir de si mesmo e encontrar uma linguagem adequada a essa manifestação; diante de Deus, essa exigência pode impor silêncio, seja porque o divino se retrai, seja porque as palavras disponíveis o submetem a conceitos inadequados.
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A finitude histórica do pensamento e a diferença ontológica delimitam a investigação filosófica ao ser dos entes, cuja verdade acontece juntamente com o encobrimento; por isso, o ser não pode ser identificado com Deus, com um fundamento cósmico ou com um ente supremo.
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A impossibilidade de equiparar o ser ao Deus concebido como causa de si (causa sui) não estabelece, por si só, uma posição teísta ou ateísta; ela impede que a questão do divino seja antecipadamente resolvida pelas determinações herdadas da metafísica.
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Em uma época marcada pelo domínio da técnica e pelo retraimento do divino, os vestígios e acenos não oferecem provas de Deus nem autorizam teses definitivas; solicitam uma disposição de escuta, espera e esperança que reconheça os limites do que pode ser pensado.
IV. Nietzsche e Heidegger sobre Deus
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A morte de Deus exprime a perda histórica da força vinculante do fundamento e dos valores supremos da tradição metafísica; seu alcance não se mede simplesmente pela existência de crenças religiosas nem se confunde com uma refutação do Deus da fé.
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O niilismo ultrapassa a oposição entre crença e descrença, pois pode vigorar também onde o cristianismo histórico conserva instituições e influência; a substituição do pensamento do ser por uma ordem de valores mantém a relação metafísica com os entes.
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A tentativa de superar o niilismo pela criação ou transvaloração dos valores continua presa ao horizonte que reduz Deus ao valor mais alto; nessa redução, aquilo que se pretende exaltar é submetido a uma medida estabelecida pelo pensamento humano.
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O Deus entendido como causa de si (causa sui) pode funcionar como fundamento explicativo, mas não acolhe as relações de oração, sacrifício e reverência; abandonar essa determinação conceitual abre a possibilidade de perguntar pelo Deus divino sem convertê-lo em peça de um sistema.
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A figura que clama pela procura de Deus torna perceptível a ausência como perda efetiva, enquanto a segurança do cálculo pode extinguir até mesmo a capacidade de procurar; o retraimento do Deus metafísico deixa, assim, uma questão ainda aberta acerca do divino.
Artigo II — A questão de Deus nas obras tardias de Heidegger
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A superação da metafísica exige examinar tanto a imagem filosófica de Deus como ente supremo quanto a incorporação dessa imagem pela teologia; a linguagem poética e simbólica ganha importância porque pode indicar um excedente de sentido sem pretender encerrá-lo em conceitos causais.
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A verdade do ser, compreendida como acontecimento apropriador (Ereignis) de desvelamento e encobrimento, abre historicamente o âmbito no qual deuses e mortais podem distinguir-se e relacionar-se; a manifestação do divino depende dessa abertura, sem que Deus se identifique com o ser ou seja produzido pelo ser humano.
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A afirmação de que Deus «necessita» do ser diz respeito à possibilidade de sua manifestação histórica, e não à posse de uma propriedade ou à submissão a um fundamento superior; por isso, a relação entre Deus e ser não se resolve pela demonstração causal da existência divina.
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O último Deus (der letzte Gott) não designa um termo cronológico que encerraria todas as épocas, mas o aceno de uma possibilidade histórica vindoura; sua passagem não pode ser detida e transformada em fundamento estável, pois se anuncia também no retraimento e na ausência.
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A historicidade dos acenos divinos impede que uma manifestação própria de determinada época seja tomada como disponibilidade permanente; a busca suscitada pela ausência pode conservar mais fielmente a abertura ao divino do que a certeza que julga poder dispor de Deus.
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Nas reflexões posteriores, os divinos figuram como mensageiros que acenam a partir do sagrado, enquanto a questão de Deus permanece aberta; seus acenos não comprovam a existência divina, e o pensamento não pode decidir por si como uma eventual reivindicação de Deus alcançará os mortais.
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A aproximação entre a história da salvação (Heilsgeschichte) e a história da verdade do ser exige cuidado: o acontecimento da clareira (Lichtung) não equivale, sem investigação adicional, à experiência religiosa da graça ou à revelação de uma tradição determinada.
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A preparação para uma possível experiência do divino requer resistir à vontade de produzir sua chegada e sustentar a pergunta em meio ao retraimento; a quadratura (das Geviert) reúne, nesse horizonte, Deus e ser humano, céu e terra, sem entregar a qualquer um deles o domínio sobre os demais.
Reflexões conclusivas
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Na consumação da metafísica, Deus tende a aparecer como ente supremo cuja existência seria assegurada por argumentos e cuja função seria fundamentar todos os demais entes; convertido em objeto de representação e em valor máximo, perde a força de mistério e de apelo que a própria noção do divino exige.
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O domínio moderno da técnica prolonga esse destino ao privilegiar o pensamento que calcula, representa e controla; a ausência de Deus deve ser suportada como privação histórica, sem que o pensamento ultrapasse seus limites por meio de uma afirmação teísta ou ateísta precipitada.
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Reconhecer a ausência como ausência mantém viva a procura, pois o clamor por Deus já difere da indiferença que deixou de buscar; os vestígios do sagrado podem preservar uma abertura ao divino mesmo quando Deus não se manifesta.
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Somente a partir da dimensão do sagrado pode ser novamente interrogado o sentido da divindade e, então, o que a palavra «Deus» poderia nomear; a poesia pode indicar essa dimensão e oferecer uma linguagem para a espera, sem transformar o aceno em presença garantida.