KING, Magda; LLEWELYN, John. A guide to Heidegger’s Being and time. New York, NY: State Univ. of New York Press, 2001.
-
A temporalidade como unidade diferenciada que articula integralmente o cuidado
-
A tarefa das seções anteriores consiste em mostrar concretamente que a temporalidade diferencia unitariamente toda a estrutura existencial do cuidado, de modo que as determinações do ser-do-Da-sein não aparecem como partes externas justapostas, mas como diferenciações internas de uma única fonte estruturante.
-
A temporalidade só pode exercer essa função unificadora porque ela própria é a unidade diferenciada de suas três ekstases, isto é, uma unidade que não se obtém pela homogeneidade, mas pela articulação interna de futuro, ter-sido e presente.
-
O ser assim constituído por temporalidade e desvelado em sua aquidade por uma compreensão afetivamente afinada e decaída não pode ser um todo indiferenciado e uniforme, pois ele é desde sempre articulado, isto é, dotado de juntas estruturais.
-
O exemplo de ser-no-mundo como totalidade estrutural articulada explicita que a unidade do existir é necessariamente uma unidade de membros e articulações, e não um bloco simples, de modo que aquilo que se desvela exige uma possibilidade de explicitação igualmente articuladora.
-
O discurso como articulação expressa da desvelabilidade já articulada do ser-aí
-
A desvelabilidade de um ser-aí já articulado pode ser expressamente articulada no discurso, que é caracterizado como traço existencial do Da-sein enquanto ser-no-mundo que compreende, cai e se afina afetivamente, e que, por isso mesmo, é articulante.
-
O discurso não é introduzido como operação posterior que adiciona palavras a um conteúdo já pronto, mas como modo em que a própria inteligibilidade articulada da aquidade se explicita.
-
A pertença factual do Da-sein a um mundo com outros determina que a inteligibilidade articulada de sua aquidade venha à palavra e se faça concreta em linguagem, de modo que a linguagem aparece como efetivação ôntico-existenciária de uma estrutura existencial.
-
A consequência decisiva é que a linguagem não é compreendida como instrumento produzido pelo ser humano, composto de palavras às quais significados foram anexados por acordo, mas como vocalização significante de um sentido já desvelado e já articulado da aquidade humana.
-
Comunicação como partilha do aí comum e não como transmissão de interioridades
-
Quando a linguagem ocorre como fala comunicativa, o que se comunica não é a experiência interna de um sujeito isolado para outro sujeito isolado, mas o aí mutuamente compreensível em um mundo mutuamente compartilhado.
-
A comunicação é, portanto, constitutivamente mundana e pública, porque ela se funda no caráter de ser-com e no mundo compartilhado que já estrutura o Da-sein antes de qualquer emissão verbal.
-
A fala exprime e partilha uma inteligibilidade do mundo em que os participantes já se encontram, de tal modo que o conteúdo do dizer não é um estado subjetivo interno, mas uma configuração de sentido do mundo comum.
-
A independência do discurso em relação à expressão verbal é assegurada pela referência ao chamado silencioso do cuidado, que mostra de modo marcante que o discursivo não coincide com o verbal, e que o silêncio pode ser uma modalidade existencial de articulação.
-
Singularidade temporal do discurso e ausência de uma ek-stasis primária dominante
-
A função distintiva do discurso explica por que sua temporalidade difere da temporalidade dos demais caracteres desveladores do ser-aí.
-
Enquanto compreensão, disposição afetiva e queda são primariamente constituídas por uma ek-stasis predominante dentro da unidade do tempo, o discurso não possui uma ek-stasis definida que exerça função constitutiva semelhante.
-
A razão é que o discurso articula a desvelabilidade inteira do ser-aí e, por isso, nem o caráter futural da existência, nem o ter-sido da lançadidade, nem o fazer-presente da queda pode, em princípio, reivindicar preponderância.
-
Apesar dessa indiferença estrutural em princípio, o discurso costuma efetivar-se em linguagem concreta e fala primariamente no modo do falar-cuidador sobre o mundo circundante, e assim o fazer-presente assume de fato uma função constitutiva privilegiada.
-
Caráter problemático e insuficiente da análise e sua redução a uma enumeração de tarefas
-
O procedimento desta análise deve diferir das anteriores porque seu objeto não se deixa reconduzir a uma primazia simples de uma ek-stasis, mas essa diferença metodológica não explica por si só a extrema brevidade do tratamento, reduzido praticamente a uma página.
-
O exame limita-se sobretudo a enunciar problemas temporais que exigiriam elaboração, como os tempos verbais, os níveis ou gradações temporais e os tipos de ação distinguidos nas formas linguísticas.
-
Esses traços temporais não são atribuídos ao fato de a linguagem descrever processos que ocorrem no tempo, nem ao fato de o falar ocorrer num tempo psicológico, mas ao fato de que o discurso é em si temporal.
-
A temporalidade do discurso é afirmada porque todo falar de, sobre e a se funda na unidade extática da temporalidade, de modo que a própria possibilidade de endereçamento e tematização já supõe a estrutura temporal do Da-sein.
-
Crítica ao conceito vulgar de tempo e impasse da ciência da linguagem
-
A formulação adequada dos problemas temporais da linguagem é declarada impossível a partir do conceito tradicional e vulgar de tempo.
-
A ciência da linguagem é caracterizada como estando numa posição desfavorável porque dispõe apenas desse conceito insuficiente como apoio teórico.
-
A consequência é que sequer a problematização correta da temporalidade linguística pode ser alcançada enquanto o tempo for pensado como sucessão homogênea de agoras.
-
A crítica preserva a tese de que o temporal do discurso não se explica pela referência externa a acontecimentos temporais, mas pelo modo como o dizer se enraíza no próprio tempo originário do cuidado.
-
Adiamento da interpretação positiva e justificativa pelo nexo entre ser e verdade
-
Após a recusa do conceito vulgar de tempo, seria esperado um tratamento positivo dos problemas da linguagem, mas a análise afirma que a temporalidade ainda não foi esclarecida suficientemente para permitir a solução.
-
Toda discussão ulterior é adiada para uma divisão posterior sob a justificativa de que o discurso é sempre um falar sobre entes, ainda que não predominantemente no sentido de enunciados teóricos.
-
A temporalidade do discurso e as características temporais dos padrões linguísticos só podem ser abordadas se o problema do nexo fundamental entre ser e verdade tiver sido desdobrado no horizonte da temporalidade.
-
A justificativa implica que a articulação expressa do descoberto depende de uma elucidação do modo como verdade e ser se co-pertencem, pois sem isso a temporalidade do dizer permanece sem base ontológica suficiente.
-
A estranheza da tese de que o discurso é sempre falar sobre entes e o problema do dizer do ser
-
A afirmação de que o discurso é sempre falar sobre entes, apresentada sem ressalvas, soa estranha num contexto cujo tema explícito é o ser enquanto tal, pois parece restringir a linguagem ao âmbito do descoberto dos entes.
-
Tomada literalmente, essa afirmação conduziria à conclusão de que apenas a verdade dos entes seria articulável, enquanto a verdade do ser permaneceria indizível, exigindo que a fala filosófica se aproximasse do silêncio do chamado do cuidado.
-
Tal possibilidade é reconhecida como conceitualmente atraente, mas entra em tensão com a caracterização do discurso como articulação da desvelabilidade do aí e, sobretudo, com a busca persistente por um dizer apropriado do ser.
-
O problema é mantido como enigma não resolvido no interior do próprio desenvolvimento, pois o impulso de encontrar um dizer do ser não se harmoniza facilmente com a redução do discurso a falar sobre entes.
-
Condição de possibilidade do falar sobre entes e a implicação inevitável do ser
-
Examinando o que está implicado em falar sobre entes, impõe-se que os entes de que se fala já estejam manifestos como entes, isto é, compreendidos em seu que e em seu como.
-
Essa manifestação exige previamente uma inteligibilidade na qual o ser tenha de algum modo participação, pois falar sobre entes pressupõe que o ser já esteja operante como condição de compreensibilidade.
-
Em toda fala sobre entes, o ser exerce um papel silencioso, não como tema explícito, mas como aquilo que permite que o ente seja compreendido como ente.
-
O discurso, mesmo quando parece limitar-se aos entes, carrega consigo uma dimensão na qual o ser tem algo a dizer, ainda que de modo retraído.
-
O is e a retração do ser na fala cotidiana
-
Num enunciado cotidiano como o de que algo é de certa maneira, o ser se manifesta em sua forma mais comum, o is, que acompanha a apresentação do ente no modo de sua descobertidade.
-
Esse dizer do is não põe o ser tematicamente em vista, pois o is se retira, não reivindica atenção para si e direciona a luz inteiramente para o ente manifesto, apresentando-o numa modalidade determinada de sua verdade.
-
A fala habitual do is perdeu a capacidade de invocar o ser e reduziu-se a conectar sujeito e predicado, o que indica uma degradação ontológica do dizer.
-
A promessa de definir o sentido ontológico do is aponta para um problema clássico, mas permanece sem cumprimento, deixando em aberto o nexo entre o dizer copulativo e a estrutura temporal originária.
-
Origem temporal do is no fazer-presente e formação do horizonte de presentidade
-
A análise temporal já realizada permite ao menos estabelecer que o is se origina no fazer-presente, pois é nele que se constitui o horizonte de presentidade no qual o ente pode manifestar-se como presença própria.
-
O fazer-presente forma o horizonte de uma face-a-faceidade com um diante de si, no qual entes que são de si mesmos podem mostrar-se em sua presença corporal.
-
O is traz à palavra essa presença desvelada, de tal modo que o ente de que se fala é apresentado no modo determinado de sua descobertidade, como, por exemplo, algo já velho ou já inadequado.
-
Em consequência, o discurso, ao falar sobre entes, não é neutro, pois ele já organiza a manifestação segundo o horizonte temporal de presentidade que torna possível a presença do ente.
-
A significância como tarefa ontológica e sua dependência da temporalidade do discurso
-
A origem da significância e a possibilidade de formulação de conceitos são declaradas dependentes de um esclarecimento ontológico que só pode ser obtido a partir da temporalidade do discurso e, portanto, da temporalidade do Da-sein em geral.
-
A significância não é entendida como algo anexado a sinais por convenção, mas como estrutura que brota do próprio caráter referencial do existir temporal.
-
A temporalidade do ser-aí é definida como remoção tripla, e essa remoção, enquanto tal, refere-se a algo, significando algo, de modo que a referência constitui o núcleo da significância.
-
A linguagem, como articulação expressa da desvelabilidade do aqui, é assim fundada numa remoção que já é significante, e por isso a significância é constitutiva e não adventícia.
-
Persistência da lacuna e insuficiência final pela falta de clarificação plena da temporalidade
-
O contorno geral da solução prometida se torna visível porque a linguagem pode ser compreendida como enraizada na estrutura referencial da temporalidade extática, mas isso não substitui uma elaboração detalhada em que precisão e diferenciações seriam decisivas.
-
Embora os escritos posteriores confiram crescente centralidade à linguagem, a explicitação precisa e minuciosa anunciada aqui não é fornecida, permanecendo como promessa não realizada.
-
A razão final é vinculada à ausência de uma clarificação conclusiva da própria temporalidade, pois sem essa conclusão o fundamento ontológico da análise linguística permanece incompleto.
-
O resultado é que o discurso aparece simultaneamente como fenômeno decisivo da articulação do desvelado e como ponto em que as limitações do projeto se tornam evidentes, uma vez que o dizer exige uma temporalidade plenamente elucidada que não é entregue no desenvolvimento disponível.