Às coisas mesmas (2013:Parte II)

HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Hermeneutics and reflection: Heidegger and Husserl on the concept of phenomenology. Toronto: University of Toronto Press, 2013.

§ 1. A máxima fenomenológica “às coisas mesmas” (Sachen selbst) exige, segundo Heidegger, a superação radical de todo preconceito (Vorurteil) para que as coisas possam se doar livremente a partir de si mesmas, questionando se a interpretação husserliana dessa máxima — convertida em ciência eidética descritiva da consciência transcendentalmente pura — de fato liberta ou antes obstrui o acesso às coisas mesmas.

§ 2. A orientação da fenomenologia husserliana, ao contrário da relação grega originária entre o ser do mundo (que se autoexibe, phainomenon) e a vida como discurso (lógos), passa a ser guiada pelo predomínio de uma ideia vazia e fantasiosa de certeza e evidência que antecede toda questão referente às coisas mesmas, fazendo da consciência o campo temático da fenomenologia antes mesmo de qualquer determinação vinda das próprias coisas.

§ 3. A preocupação com a certeza de proveniência cartesiana deforma os achados fenomenológicos positivos de Husserl em três dimensões — a intencionalidade, o âmbito da evidência e a determinação eidética da pesquisa fenomenológica —, muito embora a descoberta husserliana da intencionalidade seja reconhecida como o que primeiro abriu caminho, em toda a história da filosofia, para uma pesquisa ontológica radical.

§ 4. A resposta de Heidegger à fenomenologia husserliana de Freiburg consiste na fenomenologia hermenêutica do Dasein, gestada desde 1919 sob o nome de ciência pré-teorética originária da vida e da vivência e desenvolvida sucessivamente como ciência originária da vida fática, fenomenologia ontológica e hermenêutica da faticidade, culminando em Ser e Tempo como passo adiante no desvelamento das coisas mesmas.