Forma

HENRY, Michel. Voir l’invisible. Paris: François Bourin, 1988.

1. Os meios da pintura são o que Kandinsky chama de “forma”, conceito que deve ser entendido em sentido amplo, incluindo não apenas as formas em sentido estrito, lineares, mas também as cores, ou, na terminologia do artigo de 1913 “A pintura como arte pura”, a “forma pictural” e a “forma pictórica”.

2. A definição de “obra de arte” que se segue, apresentando a arte como exteriorização e manifestação do conteúdo abstrato e invisível, não poderia ser mais clara.

3. Toda a obra teórica e prática de Kandinsky buscará desfazer esse fato aparente, notando-se, antes de tudo, que a afirmação segundo a qual a obra de arte constitui a “fusão” do “interno” e do “externo” pode ser entendida ao menos de duas maneiras.

4. Kandinsky quer dizer exatamente o oposto: considerada na interioridade radical dessa Noite abissal que não dá lugar a um Exterior, a subjetividade não é algo abstrato no sentido de ainda lhe faltar realidade e só poder tornar-se real pelo acréscimo de um elemento externo, a exterioridade do mundo — ao contrário, ela define essa realidade, essa plenitude do ser fora da qual nada existe.

5. Se a obra de arte se apresenta como a “fusão de dois elementos, interno e externo”, o modo como essa fusão ocorre deve ser inequívoco, pois os dois elementos não estão no mesmo nível: o interno não apenas determina a forma, o elemento externo, mas define o único conteúdo da obra de arte e, por consequência, define o conteúdo da forma.

6. Dizer que o conteúdo abstrato — a invisibilidade da subjetividade — deve determinar a forma é dizer que a forma não deve mais se modelar sobre o conteúdo aparente dos objetos do mundo da percepção ordinária ou sobre as estruturas visíveis do mundo objetivo, incluindo-se já nesse postulado de dependência entre os dois elementos da obra um princípio revolucionário, na afirmação da primazia do interno sobre o externo.

7. Estranho a quê? À vida — que doravante reivindica ser o único princípio da forma, seja a forma stricto sensu ou a cor, elementos até então compreendidos como partes e componentes do mundo, mas agora subitamente arrancados dele, de modo que o mundo objetivo deixa de ser o princípio de sua organização, significação, distribuição e papel no quadro, invertendo-se assim o propósito explícito de toda arte naturalista.

8. Na pintura realista — que inclui o naturalismo assim como o impressionismo e o neoimpressionismo, a despeito do uso por essas duas últimas escolas do axioma segundo o qual a essência da arte não é o que ela representa mas a maneira como representa —, a realidade externa condiciona as modalidades formais da representação.

9. A liberdade da forma puramente artística identifica-se ao princípio que Kandinsky atribui a toda pintura verdadeira, o princípio da “Necessidade Interior”, cuja racionalidade só se pode penetrar lentamente, se é verdade que “a necessidade interior […] é a única lei imutável da arte” (350).

10. Essa determinação pelo Interno é radical, cumprindo-se segundo uma necessidade absoluta; essa Necessidade Interior significa que a forma lhe entrega sua liberdade, definindo a liberdade da arte em geral como “arte pura”, o que explica ao menos uma coisa: a impressão de necessidade que toda obra autêntica transmite, e a contingência, mesmo a gratuidade, característica de uma pintura medíocre.

11. Chega-se assim ao segundo ponto da demonstração: a forma é determinada pelo conteúdo abstrato que busca exprimir, e essa determinação da forma pelo conteúdo é o princípio de Necessidade Interior sobre o qual toda pintura autêntica deve se fundar e sobre o qual, de fato, sempre se fundou desde a origem, permanecendo em questão se essa forma determinada pela Vida deixa de aparecer no mundo, e se ela pode existir sem esse elemento externo no qual a obra se materializa.

12. A resposta de Kandinsky será afirmativa, embora ainda não se esteja em condições de compreender por quê; essa posição inusitada, pouco realista ou verossímil, permitirá adentrar o laboratório secreto da pintura onde ocorre o ato de pintar e verdadeiramente apreender o que esse ato implica.

13. O gênio de Kandinsky não está apenas em ter levado essa capacidade de pintar o invisível — nossas pulsões, nossos afetos, nossa força — a um nível até então inatingido, mas também em ter fornecido uma explicação dessa capacidade extraordinária, explicação que não é especulativa nem pertence a uma ordem hipotética a ser aceita ou rejeitada ao fim de uma argumentação mais ou menos plausível, mas uma análise fenomenológica, que, fora de toda teoria, deixa ver, ou antes, sentir, a “essência” da pintura na verdade e certeza inegáveis do sentimento imediato que a vida tem de si mesma.