HENRY, Michel. Filosofia e fenomenologia do Corpo. Tr. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: É Realizações, 2012,
Ego e Alma
1. O biranismo é uma das raras filosofias, talvez a única, a propor uma teoria ontológica do eu, não descrição psicológica, sociológica ou histórica, mas análise ontológica do ser do ego, isto é, daquilo que faz do eu um eu, culminando na identificação do ser do ego com o da subjetividade.
2. Como o eu não é um étant, a oposição entre eu e não-eu não pode se definir em termos ônticos, sendo irrecebível a interpretação tradicional que a reduz à oposição entre esforço e real resistente, pois ambos ainda seriam “algo”: é o ser do esforço, seu modo próprio de presença a si, que constitui a ipseidade do eu, opondo-se ontologicamente ao ser do mundo.
3. A teoria da subjetividade se completa pela teoria das faculdades e categorias, que, identificando ser da subjetividade e do ego, é ao mesmo tempo teoria do ego, sendo a dedução das categorias tanto prova quanto consequência da tese da pertença do ego à esfera da imanência absoluta.
4. Segue-se que afirmar uma transcendência do ego destrói o caráter essencial da ipseidade, pois o que constitui a essência da egoidade é a interioridade da presença imediata a si mesmo: “é preciso que o eu tenha começado a existir para si mesmo”.
5. Dessa imanência absoluta decorre que o ego se identifica com a própria vida, não sendo termo abstrato e genérico sob o qual se reuniriam certos fenômenos, e que o autoconhecimento assume os caracteres de certeza absoluta próprios dessa esfera: entre ego e ego não há lugar para má-fé, mentira ou engano, pois não há distância nem constituição possível.
6. O ego não é transcendente, é, nas palavras que Husserl retomaria depois, “o mais próximo de nós, ou antes, ele é nós mesmos”; existe, todavia, um ego transcendente, constituído quando um sentimento confuso da força própria se mistura à noção abstrata de força isolada da consciência.
7. A pertença das categorias à esfera de imanência absoluta conduz à compreensão da relação fundamental entre ego e conhecimento ontológico: a experiência supõe uma condição de possibilidade que é o próprio conhecimento ontológico, e a filosofia só merece o nome de primeira quando determina rigorosamente o ser dessa conhecimento.
8. O eu só pode ser compreendido como condição de toda conhecimento por não ser “algo” nem um étant, mas a própria condição e elemento da manifestação pura, que exclui a manifestação da exterioridade ao mesmo tempo que a funda — o que aqui se chamou evento ontológico fundamental da autoafecção.
9. Essa identificação do ser do ego com o do conhecimento ontológico só ganha significação filosófica dentro de uma problemática da subjetividade; fora desse contexto, torna-se analógica à tese kantiana do “eu penso” que deve poder acompanhar todas as representações, tese que não constitui teoria verdadeira do ego, deixando escapar a essência originária da presença a si.
10. A imanência absoluta do ego se estabelece novamente pela análise que Biran consagra ao problema da alma, mostrada na discussão do cogito cartesiano, reconhecido como o fundamento mesmo da filosofia e o cartesianismo como “a doutrina-mãe”.
11. A crítica biraniana começa quando a alma intervém no cartesianismo para designar o ser do eu identificado ao pensamento, crítica que não deve ser confundida com a acusação clássica de substancialismo dirigida a Descartes pelos neokantianos franceses.
12. Há, sim, uma passagem ilegítima no movimento do cogito, mas ela não vai do pensamento puro a uma determinação ontológica real — é o inverso: parte-se do ser do ego corretamente interpretado como subjetividade e experiência interna transcendental para chegar à posição do ego como elemento do ser transcendente, sendo essa a única censura de Biran: ter Descartes determinado a alma como ser transcendente = x, e não como subjetividade absoluta.
13. A crítica biraniana intervém quando o cogito pretende afirmar “a existência real e absoluta da alma ou da coisa pensante”, sendo o termo “absoluto” em Biran aquele que designa justamente o que escapa à esfera da imanência.
14. Biran não censura Descartes por ter considerado o eu um ser, mas por ter determinado como alma algo “que não é o eu”: a alma só pode ser o próprio ego, cujo ser é precisamente a alma — caso contrário, torna-se hipótese nefasta, “a alma (ainda não eu) na hipótese metafísica”.
15. Todo o esforço da crítica biraniana visa fundar o ser do ego numa única região ontológica onde é possível determinação absolutamente certa: quando se atém à conhecimento de sentimento ou percepção imediata interna, a determinação do ser é não apenas possível mas “perfeita”; quando se aspira a conhecimento exterior da coisa pensante, esse modo é inaplicável ao próprio sujeito pensante.
16. Ao denunciar o monismo ontológico como horizonte impróprio à questão do ser do ego, a problemática biraniana se opõe absolutamente à crítica kantiana do paralogismo da psicologia racional, cujo pesado legado pesa sobre as concepções contemporâneas — a experiência interior em Kant é não só submetida ao mesmo estatuto da experiência do mundo, mas ainda mais imperfeita, imitação impossível dela mesma, sem que Kant tenha questionado o paradoxo de a alma ser menos conhecível que o corpo.
17. Enquanto a Dialética transcendental expõe as dificuldades da constituição da alma como substância, Biran afirma que a alma não é de modo algum constituída, pois a experiência interna em que o ser do ego se dá a si mesmo é radicalmente imanente — o que se confirma na crítica à concepção stahliana da alma.
18. Segundo Stahl, a alma humana, distinta do eu e considerada causa produtiva desconhecida, poderia ser classe de forças cujos efeitos sensíveis apenas a manifestam, sendo assim referida como causa comum dos fenômenos orgânicos e das operações concebidas apenas na reflexão do sujeito.
19. A crítica biraniana revela que essa alma, posta como fundamento transcendente do pensamento, torna-se inevitavelmente um termo transcendente = x, indeterminado em si, recebendo determinação apenas indiretamente a partir dos fenômenos que deveria explicar — podendo-se atribuir a essa causa “tudo o que se quiser”.
20. Essa indeterminação estende-se ao próprio nome dado a esse fundamento: a crítica biraniana toma feição dialética ao mostrar que alma de Stahl, Deus das causas ocasionais, Deus de Descartes, inconsciente e jogo dos órgãos são ídolos que se dissolvem em sua própria vacuidade, sendo “a diferença do signo dado à incógnita que faz toda a partilha”.
21. O comentário desse último ponto conduzirá ao centro da problemática biraniana do corpo, mas cabe notar que o termo transcendente, antes situado atrás de nós, passa a aparecer também diante de nós, encontrando lugar no mundo objetivo — o “fisiológico” sendo realização grosseira do transcendente noturno, sua encarnação ingênua num universo visível.
22. O metafísico incorre nesse destino porque a alma, como termo transcendente = x, é apenas uma sombra sem consistência nem ser, semelhante às almas errantes das mitologias antigas, incapaz de ser qualquer coisa, aspirando à existência mas sendo apenas o nada — faltando-lhe um corpo.