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A afirmação central do cristianismo é que o homem é filho de Deus, definição que rompe com as representações do senso comum, da filosofia, da ciência e da maioria das religiões, para as quais o homem, ainda que dotado de razão ou compreendido a partir da criação, pertence sempre ao mundo, situado como algo exterior à essência divina
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Distinguem-se duas interpretações do homem como ser do mundo: o realismo ingênuo do objetivismo científico, que o insere como parte material do universo apagando as diferenças cruciais com o especificamente humano, reducionismo que se revela obstáculo à análise verdadeiramente científica
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A fenomenologia do século XX, pondo entre parênteses o saber científico, permitiu escapar a esse reducionismo e definir o homem transcendental: não ente intramundano mas aberto ao mundo, relacionando-se com ele em experiências que nenhum ente ordinário possui, distinguindo-se o homem natural do homem transcendental reconhecido por
Descartes,
Kant,
Husserl e Heidegger
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Sendo o aparecer do mundo o que precede e torna possíveis todas as formas de relação do homem com ele, e sendo esse aparecer a verdade do mundo, é aqui que reluz o caráter revolucionário do cristianismo: para ele o homem não é ser no mundo, nem no sentido natural nem no transcendental
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Não ignorando o cristianismo o homem transcendental — nenhum pensamento é mais estranho à aparência natural —, ele evidencia porém os limites da problemática kantiana e fenomenológica, presa ao aparecer do mundo
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Definindo o homem como filho, o cristianismo desqualifica toda forma de pensamento que o tome por ser do mundo, pois filho só há na vida, sendo esta em si estranha ao mundo, não consistindo seu modo de fenomenalização na abertura de nenhum “lá fora”
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Essa inversão da concepção do homem não consiste em inverter valores mas em excluir a essência mundana, definindo-se o homem cristão por outra verdade, a carne fenomenológica de seu nascimento na Vida, sendo dizer que o homem é filho e Filho de Deus proposição tautológica
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Extensiva ao homem toda a rede de tautologias fundamentais afirmadas por Cristo sobre si mesmo, abre-se parêntese sobre a cristologia tradicional e a dificuldade de unir em Cristo duas naturezas heterogêneas, humana e divina, com suas respectivas vontades eventualmente conflitantes
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Aponta-se o erro dessa cristologia: pressupor uma natureza humana preexistente que se juntaria à natureza divina, esquecendo-se que Cristo procede unicamente daquele que o enviou, sendo sua Ipseidade a mesma da Vida absoluta, chegando o homem tarde demais para intervir em sua essência, citando-se: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”
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Descobre-se pressuposto ainda mais ruinoso nessa cristologia: o homem que se mescla à essência divina é o homem do mundo, do senso comum, do racionalismo, ao qual o cristianismo opõe outro homem, radicalmente diferente, o Filho de Deus, o homem transcendental nascido na Vida
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Sendo o Arqui-Filho todo autocumprimento da vida sem outra essência, e sendo o homem igualmente Filho engendrado na vida sem nada além dessa essência, a ideia de uma “natureza humana” autônoma é, do ponto de vista cristão, absurda, devendo-se compreender o homem a partir de Cristo, e não o inverso
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Essa compreensão repousa na intuição de que há uma só e mesma essência da Vida para Deus, Cristo e o homem, escondendo a expressão tautológica “Filho de Deus” a verdade abissal de que a essência do homem não é o homem nem a humanitas mas a essência da vida divina
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A tese do homem “Filho de Deus” recebe dupla significação: negativamente, impede compreendê-lo como ser natural ou transcendental cujo horizonte seria o mundo, citando-se novamente: “Eu não sou do mundo” (João 17,14), aplicado agora ao homem, pois o mundo não tem carne
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O homem deve retomar para si as denegações de Cristo: não é do mundo, não é filho de seu pai biológico, esvaziando-se toda explicação mundana da humanitas de sua pretensão de atingir a realidade primeira, mesmo no exemplo privilegiado do nascimento e dos traumatismos psíquicos
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Recordando o esforço grandioso da redução fenomenológica transcendental de
Husserl, que põe o mundo entre parênteses para descobrir a vida transcendental do ego, observa-se que, reduzido esse homem transcendental à “consciência de algo”, ao
In-der-Welt-sein, sua essência se encontra falsificada, nada tendo o modo original de fenomenalização do Filho a ver com a abertura de um mundo
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Iluminam-se as implicações da tese “homem Filho de Deus”: engendrado na Vida, o homem tem os caracteres desta, significando “Deus criou o homem à sua imagem” que Deus lhe deu sua própria essência, não como presente transferido mas como condição de vivente, sendo engendrar bem diferente de criar
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Abre-se o abismo entre nascimento e criação: sendo o homem Filho, ele não é criado nem é imagem, pois imagem só há no mundo, sobre o fundo da colocação em imagem que é o horizonte mundano, não podendo, se criado como o mundo, trazer em si a essência da Vida
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É preciso renunciar à ideia habitual de homem: acreditamos ver um homem porque olhamos o mundo, sendo esse homem visto irmão dos autômatos construtíveis segundo as mesmas leis, faltando-lhe ser vivente no sentido de trazer em si o viver da Vida fenomenológica absoluta, o homem transcendental do cristianismo, Filho de Deus
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Coloca-se a questão inevitável: se o homem traz em si a essência divina, não seria ele o próprio Deus ou Cristo? Introduz-se para respondê-la o conceito de Ipseidade essencial: assim como a Vida engendra na autogeração o Si singular do Arqui-Filho, engendra analogamente o Si transcendental vivente que é o homem verdadeiro
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Sendo experimentar-se a si mesmo ser necessariamente um Si singular, diferente de todo outro, cada homem é esse Si singular engendrado no autoengendramento da Vida, citando-se Mestre
Eckhart: “Deus se engendra como eu mesmo”
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Atravessando a Vida cada um dos que engendra, não havendo nele nada que não seja vivente, retoma-se
Eckhart: “Deus me engendra como a si mesmo”, repetindo-se então a pergunta: sou eu, esse Si transcendental vivente, Cristo?
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Introduz-se o conceito decisivo de autoafecção, definidor do viver, distinguindo-se da afecção comum por um ente do mundo: na autoafecção, o que afeta é o mesmo que o afetado, situação que só se realiza na vida, definindo seu acosmismo radical
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Essa condição fenomenológica se lê em cada modalidade da vida, como a alegria, que embora possa se reportar a acontecimento mundano, em sua afetividade pura não se ilumina em nenhum mundo, sendo modalidade patética da vida
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Distinguem-se conceito forte e conceito fraco de autoafecção: segundo o forte, a vida não apenas define o conteúdo de sua afecção mas o produz e engendra a si mesma, sendo esse conceito o da Vida fenomenológica absoluta, isto é, de Deus somente
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Segundo o conceito fraco, próprio do homem, eu me afeto a mim mesmo sem ter posto essa condição de me experimentar, sendo dado a mim mesmo sem que essa doação decorra de mim, sendo eu, com rigor, “autoafetado” e não “afetante”
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Explica-se a relação entre os dois sentidos: o Si singular só se autoafeta na medida em que a Vida absoluta se autoafeta nele, sendo ela quem o dá, revela e permite estreitar-se pateticamente, esclarecendo-se assim a passividade radical do Si, que o põe no acusativo, fazendo dele um “me” e não um “eu”
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Essa passividade não é atributo especulativo mas determinação fenomenológica constitutiva, vivida constantemente, engendrando ela mesma as modalidades essenciais e patéticas do Si, como a angústia, que nasce do sentimento de experimentar sem poder mudar nada nem romper o laço que ata a si mesmo
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A pulsão, nascida da angústia, é o esforço infindo da vida autoafetada para converter seu sofrimento em alegria, princípio de toda ação concebível, derivando dessa condição do Si autoafetado, e não de horizontes objetivos, as questões que a psicologia empírica pretende explicar mundanamente
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Pergunta-se pela especificidade da autoafecção de Cristo em relação às de Deus e do homem, sendo Cristo, gerado na autoafecção absoluta, copertencente a esse processo como Ipseidade essencial e Primeiro Vivente, “consubstancial” ao Pai, tendo parte, como condição, na potência desse processo
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Ilumina-se então a relação do homem transcendental com Cristo à luz da relação de Cristo com Deus, descobrindo-se por que a relação entre o homem e Deus não é direta mas mediada por Cristo: o homem é Filho de Deus apenas “Filho no Filho”
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Explica-se: nenhum vivente é possível fora da Vida, nenhuma autoafecção sem gerar em si a Ipseidade essencial pressuposta por todo “experimentar-se”, sendo a efetividade dessa Ipseidade o Arqui-Filho, de modo que nenhum vivente é senão nele e unicamente nele
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O Arqui-Filho precede assim todos os Filhos não numa anterioridade factual mas como essência preestabelecida sem a qual nenhum Si vivente poderia se edificar, não tendo nenhum eu transcendental a capacidade de se impulsionar por si mesmo na Vida
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Retoma-se a palavra mais extraordinária de Cristo em sua verdade apodíctica: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”, significando que nenhum eu vivente é possível senão numa Ipseidade que pressupõe, sendo o Arqui-Filho, Primogênito e Primeiro Vivente, quem detém em sua Ipseidade a condição de todos os outros filhos, “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8,28-30)
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Conclui-se que nenhum vivente chega à vida senão enquanto eu vivente com a condição de que nesta já se tenha edificado a Ipseidade originária, implicando as afirmações fundamentais do cristianismo sobre o homem: só pode ser “Filho de Deus” enquanto “Filho no Filho”, tese decisiva a aprofundar