Essa substituição da análise histórica pela análise textual coloca-nos diante de nova aporia, pois todo texto se desdobra em sua própria estrutura interna e em sua referência a uma realidade estranha a ele, sendo essa referência o que constitui sua verdade aos olhos da história
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daí o esforço da análise cristã em situar a redação dos originais próxima aos fatos relatados, e o esforço inverso da crítica cética em contestar essa proximidade, desacreditando os textos e a história de Cristo por eles narrada
Pergunta-se se a verdade do cristianismo se reduziria à da história, supondo-se satisfeitas todas as exigências da verdade histórica, respondendo-se que de modo algum, pois a verdade do cristianismo não é que Jesus tenha caminhado de povoado em povoado nem que tenha pretendido ser o Messias — afirmação que poderia ser mera divagação de exaltado, como creram muitos que o viram e não creram nele —, mas que Aquele que se dizia Messias era verdadeiramente esse Messias, o Filho de Deus trazendo em si a Vida eterna
Inversamente, ainda que se supusesse a redação dos textos canônicos tão tardia e suspeita quanto possível, tornando a existência histórica de Cristo tão incerta quanto a de qualquer ser humano anônimo, sua identidade com a Vida eterna, se verdadeira, não seria menos verdadeira apesar desse vazio histórico, prova disso sendo que muitos que não viram nem ouviram Cristo creram e ainda creem nele
A incapacidade da verdade histórica de testemunhar a favor ou contra a verdade do cristianismo é ainda maior no caso dos próprios textos, que se desdobram em dois registros, a narração de acontecimentos e as palavras entre aspas em que o próprio Cristo fala como Verbo de Deus, ou relatadas em estilo indireto, notadamente no Evangelho de João
Apesar de seu poder estupefaciente, essas palavras de Cristo são apenas palavras, fragmentos de linguagem incapazes de vencer o abismo entre toda verdade significante e a realidade significada, exemplificando-se que dizer “Tenho uma moeda de dez francos no bolso” não faz existir a moeda, tal como dizer “Eu sou o Messias” não faz alguém Filho de Deus por efeito da palavra
Não é somente sob o olhar da história que o texto confessa sua incapacidade de pôr a realidade que enuncia: a impotência do documento escrito repete a impotência do próprio acontecimento de se pôr no ser, traçando essa dupla incapacidade o círculo em que toda verdade histórica ou textual se autodestrói
Notável é que essa crítica da linguagem encontre formulação no próprio Novo Testamento, que desacredita por razões de princípio o universo das palavras, opondo-se a essa impotência a única coisa que importa ao cristianismo, o poder, citando-se: “Pois o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1 Coríntios 4,20), e sobre a “extraordinária grandeza de seu poder” ao ressuscitar Cristo dentre os mortos (Efésios 1,18-20)
À linguagem resta apenas um poder, o de mentir, dizendo uma realidade quando ela não existe, não sendo a mentira uma possibilidade entre outras da linguagem mas enraizada nela como sua própria essência, explicando-se assim o furor de Cristo contra escribas e fariseus, “hipócritas… Serpentes! Raça de víboras!” (Mateus 23,1-36)
A linguagem tornou-se o mal universal por sua diferença essencial com respeito à coisa, que a torna indiferente a ela, podendo unir-se igualmente a qualquer coisa e assim identificar-se com a realidade e desfigurá-la à vontade, citando-se a Epístola de Tiago (3,3) sobre a língua como fogo que incendeia floresta imensa, da mesma boca provindo bênção e maldição
Se a linguagem por si mesma é incapaz de dar acesso à realidade e à verdade do cristianismo, a relação deve ser invertida: não é o corpus dos textos que dá acesso à Verdade, mas a Verdade, ao contrário, que dá acesso a si mesma e ao texto onde está depositada
Enuncia-se uma das afirmações mais essenciais do cristianismo: somente a Verdade que é a sua pode dar testemunho de si mesma, sendo essa autorrevelação a própria essência divina, tornando-se filho dessa verdade, filho de Deus, aquele a quem ela se revela e que a ouve
A linguagem, tida por meio de comunicação por excelência da verdade, revela-se incapaz de transmitir senão uma verdade já revelada independentemente dela, sendo essa indigência mais radical: a linguagem é propriamente negação de toda realidade concebível, exceto a pálida realidade irreal de seu próprio sistema de significados
A indigência da história não é menor, mostrando-se assim que aquilo se pergunta pela condição de possibilidade dessa disciplina, sendo seu horizonte de visibilidade o do mundo e do Tempo, verdade tal que tudo que nela aparece não cessa de desaparecer, perdendo-se para sempre cada um dos milhares de seres humanos que habitaram a Terra
A verdade da história é também a da linguagem, pois esta só é possível se deixa ver o que fala dentro desse mesmo horizonte do mundo e do Tempo, remetendo a história os acontecimentos desvanecidos a documentos igualmente fugidios e incertos
Sendo verdade da história e verdade da linguagem idênticas, e ambas incapazes de dizer palavra sobre a verdade do Evangelho, resta compreender por que a terceira forma de verdade, a do cristianismo, teria o poder de relegar as duas outras à insignificância, remetendo-se à angustiada pergunta de Pilatos a Cristo diante do tumulto: “O que é verdade?” (João 18,38)