O primeiro princípio, tomado por
Husserl da escola de Marburg, enuncia-se “A tanta aparência, tanto ser”, reformulado sem ambiguidade como “A tanto aparecer, tanto ser”, dada a dupla significação possível do termo aparência
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ao senso comum a correlação se lê do ser para o aparecer, pois as coisas antes de tudo são para poderem aparecer, exemplificando-se com a ida à tabacaria comprar cigarros, cuja existência prévia é dada como certa
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a fenomenologia lê essa correlação no sentido inverso: porque algo me aparece, ele ao mesmo tempo é, sendo o aparecimento de uma imagem absolutamente certo independentemente de corresponder ou não à realidade, dependendo do aparecer toda existência e todo ser possível
Apesar dessa suposta identidade de essência, aparecer e ser não têm a mesma dignidade: o aparecer é tudo, o ser não é nada senão porque o aparecer aparece, tendo o ser sua essência apenas no aparecer que previamente desdobrou a própria essência do aparecer, seu autoaparecer
Reconhece-se a importância desse primeiro princípio por colocar a fenomenologia antes da ontologia, subordinando esta àquela, não para desqualificá-la mas para lhe assinalar fundamento seguro, escapando à contestação o que aparece de modo incontestável
Aponta-se, contudo, sua imensa fraqueza, sua indeterminação fenomenológica profunda: nomear o aparecer sem dizer em que consiste, sem remontar à instância que nele permite aparecer, sem reconhecer sua matéria fenomenológica pura, sua carne incandescente
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permanecendo o aparecer indeterminado em si mesmo, permanece indeterminada a própria determinação do ser por ele, correspondendo ao conceito formal do aparecer um conceito formal do ser que nada permite saber sobre a potência do ser, o ente, ou a natureza de sua diferença
As mesmas observações concernem ao segundo princípio da fenomenologia, sua palavra de ordem “Zu den Sachen selbst!” (“Direito às coisas mesmas!”), sendo as “coisas mesmas” os fenômenos reduzidos a seu conteúdo fenomenológico efetivo, livre das interpretações que ameaçam recobri-lo
Pergunta-se qual via conduz ao aparecer enquanto tal, não havendo outra resposta senão o próprio aparecer, que em seu autoaparecer nos conduz a ele, implicando isso que objeto e método da fenomenologia constituem algo uno, sendo o objeto que constitui o método, como o raio cuja própria luz o faz ver
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essa reabsorção do método em seu objeto parece torná-lo inútil, contrariando a ideia habitual de um conhecimento sempre separado do objeto e necessitado de procedimentos metodológicos, sendo o método fenomenológico um procedimento de elucidação rumo à “clareza da evidência”, implícito em todo saber que se pretende científico e fundado na evidência racional
Pergunta-se, remetendo a
Kant, se todo conhecimento não remete necessariamente ao a priori de um poder de conhecimento, condição de toda experiência possível, interrogando-se então o que dizer de um Inteligível que escapasse a toda condição prévia, precedendo inexoravelmente qualquer processo de elucidação
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citando-se Kafka, “Há um fim, mas não há caminho. Isso a que chamamos caminho é a hesitação”, pergunta-se se haveria um fim a que nenhum caminho conduzisse por ser ele mesmo o caminho, uma Arqui-inteligibilidade situada no início, análoga talvez à de que fala João
Declara-se impossível por ora responder a essas questões, precisamente porque a fenomenologia histórica deixou indeterminadas as pressuposições fenomenológicas sobre as quais repousa, não tendo o aparecer para o qual convergem sido objeto de elucidação levada até o fim, exigindo-se um desnudamento de sua matéria fenomenológica pura, sua carne incandescente, restando saber se essa matéria se presta a algum desnudamento, a alguma evidência, ao “ver” de algum pensamento