Primeiro traço: consistindo o aparecer do mundo no “fora de si”, tudo que nele se mostra se mostra como exterior, outro e diferente, sendo essa Diferença a diferença entre o que aparece e o horizonte, entre o que aparece e o próprio aparecer, distinção que fundamenta a fenomenologia mas que talvez não tenha significação geral, decorrendo apenas da natureza particular desse modo de aparecer chamado Diferença do “fora de si”
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esse aparecer desvia de si com tal violência que tudo a que dá a aparecer não pode ser senão exterior no sentido terrível do que, expulso de sua Morada verdadeira, se encontra abandonado e perdido, presa desse isolamento a que Heidegger entrega o homem ao fazer dele, como “ser no mundo”, um ser apenas deste mundo
Segundo traço: o aparecer que desvela na Diferença do mundo não só torna diferente tudo o que desvela mas lhe é a princípio de todo indiferente, não o amando nem o desejando, iluminando vítimas e carrascos, atos caridosos e genocídios, numa neutralidade aterradora, semelhante à luz das Escrituras que brilha sobre justos e injustos
Terceiro traço: essa indiferença esconde indigência mais radical, sendo o aparecer do mundo incapaz de conferir existência ao que desvela, desvelando, descobrindo, “abrindo”, mas não criando (macht nicht, öffnet), dando-se o ente em seu desvelamento como independente e anterior ao poder que o desvela
Pergunta-se como não perceber que tal situação põe em causa o princípio fundamental da fenomenologia, segundo o qual é a fenomenalidade que liberta o ser, rompendo-se essa precedência no caso do aparecer do mundo se este é impotente para pôr no ser o que dá a aparecer, invertendo-se então o princípio “a tanto aparecer, tanto ser”, paradoxo extraordinário diante do qual se pergunta, antes de tudo, se é possível citar um só exemplo dessa exclusão recíproca do ser e do aparecer