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Diminuir o tempo de trabalho necessário para aumentar o sobretrabalho e assim a mais-valia só é possível pelo aumento da produtividade, lei que só se torna evidente ao remeter-se ao processo real de produção das valores de uso onde ela se fundamenta, encontrando-se aí apenas a vida, sozinha com o universo que lhe “pertence” como correlato de sua práxis, o mundo-da-vida (
Lebenswelt)
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Numa “economia” arcaica sem realidade econômica própria, a vida busca apenas sobreviver, procurando diariamente as subsistências necessárias para não morrer, situação-limite reveladora da condição última da vida, definida pela relação entre o que necessita e o que é capaz de produzir
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Assim que essa capacidade de produção se eleva, a vida afrouxa o aperto da necessidade, graças à produção simultânea de instrumentos que tornam menos precária a obtenção dos bens, criando-se um vão entre “o que a vida necessita” e “o que ela é capaz de produzir” onde se aloja tudo que se chama civilização e cultura
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Essa possibilidade do vão, de produzir mais que as necessidades, é o poder mais próprio da vida, repousando o poder de viver nesse poder absolutamente positivo, perguntando-se se ele resulta de fato contingente ou da essência mais íntima da vida, de seu
pathos, pelo qual cada necessidade coere consigo mesma com força tal que reflui sobre si, dando-lhe força de se cumprir, isto é, de se ultrapassar
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Tão profundamente enterrada está essa capacidade da vida de produzir mais que sua necessidade, sob os sedimentos econômicos que a recobrem, que quanto mais se desenvolve esse universo com seus sistemas de equivalentes cada vez mais elaborados, mais se obscurece a fonte de que procede, nunca tendo as ciências econômicas se desenvolvido de modo mais sofisticado nem sabido menos o que buscam
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Trata-se agora de precisar como a produtividade crescente, exigida pelo acréscimo indefinido da mais-valia, modifica a constituição interna do processo real até subvertê-la inteiramente, sendo doravante apenas a produtividade que decide da mais-valia, fixa a duração da jornada de trabalho
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Define-se rigorosamente produtividade, conceito que revela ambivalência fundamental, permitindo reconhecer no mundo tecno-capitalista o traço pelo qual se assemelha estranhamente aos regimes socialistas em colapso: eliminando o indivíduo vivo, encontra-se, pela mesma razão última, apesar das diferenças aparentes, ameaçado de morte
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A produtividade designa primeiro a eficácia de uma produção, sua aptidão de criar produtos úteis à vida, identificada essa capacidade criadora ao trabalho vivo, isto é, à própria atividade da vida e à força de que essa atividade é a colocação em obra, pertencendo à produção também elementos objetivos, instrumentos e matérias-primas, compreendidos a partir da coapropriação originária da vida e do universo
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Desenvolver essa produtividade é desenvolver a eficácia da força da vida, levando-a a se entregar inteiramente e a tirar proveito de sua habilidade, sendo esse acréscimo necessariamente finito, pois o instrumento, informado pela força de trabalho e recebendo dela sua estrutura, permanecia simples prolongamento de uma potência limitada, a do indivíduo, como no exemplo dos coolies chineses carregando peso excessivo até desabar sob o olhar indiferente de quem passava
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A exploração sistemática da força de trabalho não bastaria a permitir esse desenvolvimento espetacular sem um evento extraordinário atribuído erroneamente ao capitalismo mesmo, evento que marca a verdadeira virada da história e o início da modernidade, ficando encoberto pelo próprio desenvolvimento econômico que tornava possível
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Esse evento é um Arqui-fato, mutação decisiva que, situada na história, não é por ela abolida mas nela permanece presente como princípio, conhecendo-se já um Arqui-fato desse gênero, a vida, histórica e ao mesmo tempo meta-histórica
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O segundo Arqui-fato é o Arqui-fato galileano: doravante, no processo real de produção, a produção deixa de ser subjetiva e de se identificar ao trabalho vivo, ainda que instrumentos e matérias-primas sempre tenham sido elementos objetivos, sendo até então a ação em si mesma subjetiva, e seu conhecimento inseparável dessa manipulação subjetiva
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Com Galileu, o encontro com o universo é despojado de sua subjetividade essencial, não sendo mais o corpo sensível nem a força subjetiva que apreende o universo verdadeiro, mas apenas a geometria de figuras extensas, citando-se a metáfora célebre do Livro escrito em triângulos, círculos e figuras geométricas, “sem os quais meios é humanamente impossível compreender uma palavra dele”, nascendo com
Descartes a formulação matemática dessa geometria e, com ela, a ciência moderna
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Essa substituição da apreensão corporal subjetiva pelo conhecimento geométrico-matemático acarreta subversão ontológica da ação: já não subjetiva, mas objetiva, produzindo-se diante do olhar do pensamento sob forma de processos objetivos análogos aos da natureza, física, eletromagnética, química ou biológica
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Distingue-se a técnica tradicional, que se estende dos primórdios da humanidade até meados do século XIX, da técnica moderna, galileana, incluindo a primeira a própria ação como mise en œuvre da força subjetiva da vida, cujos instrumentos são inseparáveis dela, sendo o saber em jogo o da vida, sua subjetividade pura
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Na técnica moderna a subjetividade desaparece, reduzindo-se ao conhecimento físico-matemático, ocupando os “instrumentos” todo o lugar, dispositivos materiais cada vez mais complexos construídos à luz desse saber, situando-se por isso a técnica moderna na sequência imediata da ciência e tendendo a se confundir com ela, sob o conceito legítimo de tecnociência
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Projetando essa mutação sobre o processo real de produção, chega-se à intuição central de
Marx, a subversão da estrutura interna das “forças produtivas”: a subjetividade, o trabalho vivo, é progressivamente eliminada do processo real enquanto cresce a parte do dispositivo instrumental objetivo, divergindo processo de trabalho e processo de produção
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Na técnica tradicional a vida coincide com a atividade pela qual produz os bens necessários, sendo o que faz para viver o que ela é; na técnica moderna, confiada a um dispositivo instrumental automatizado, a produção exclui progressivamente essa atividade subjetiva, permanecendo a vida fora do processo de produção, gerando não só o desemprego social mas a angústia de uma libido inempregada, paliada pela televisão nos países desenvolvidos ou pela vodca e outros narcóticos nos países subdesenvolvidos
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Projetando essa mutação sobre o processo econômico tornado, com a inversão da teleologia vital, voltado à produção de dinheiro, sob sua forma pura, recorda-se a tese de
Marx, emprestada da escola inglesa e da Bíblia, de que todo valor provém do trabalho, tese apenas inteligível a partir da distinção crucial entre trabalho real e subjetivo, de um lado, e trabalho social e abstrato, do outro, situando-se o fundamento do valor deliberadamente fora da economia
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Na natureza não há valor, tal como não há círculos ou triângulos, sendo a existência de uma dimensão de idealidade pura pressuposição incontornável da geometria, remetendo do mesmo modo as flutuações do valor a uma gênese transcendental que é a vida, sua força e sua necessidade
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Estabelecida essa significação meta-econômica da tese de que a força da vida produz o valor econômico, a projeção sobre ele da essência da técnica moderna o ilumina inteiramente: na apropriação originária da Vida e do Universo é a subjetividade que tudo faz, e eliminá-la dessa relação primitiva substituindo-a por processos objetivos insensíveis é o paradoxo que a técnica moderna realiza pouco a pouco
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Se é o trabalho vivo que cria o valor de troca, a eliminação progressiva desse trabalho no processo real implica sua incapacidade crescente de produzir valor, isto é, torna tendencialmente impossível o próprio processo econômico
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Deve-se recordar a gênese do processo econômico a partir do processo da vida, considerando sua dupla forma histórica: processo de troca na economia mercantil, processo de produção de dinheiro na economia capitalista, tendo sido inventado o primeiro para permitir a troca dos produtos criados pela vida
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Persiste a opacidade dessa gênese: cada modalidade subjetiva da força de trabalho é separada por um abismo do equivalente objetivo quantificável a que se quer fazê-la corresponder, sendo justamente essa abstração que permite o funcionamento da valor de troca, indiferente à matéria concreta de cada valor de uso
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Quando a economia mercantil se torna capitalista, sua autonomia se afirma com brilho, sendo a valor de troca, meio até então, que define a finalidade do novo processo, exigindo que a parte do trabalho necessário decresça continuamente em favor do sobretrabalho, mas permanecendo essa reação subordinada à determinação inversa, pois só o trabalho vivo pode produzir valor
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Aqui se produz o Evento crucial, descrito superficialmente enquanto pensado apenas como reação do processo econômico sobre o real: a modificação da estrutura interna deste com a subordinação do trabalho necessário ao sobretrabalho, permanecendo ainda em jogo o próprio trabalho vivo, ligando-se a exploração à imagem do vampiro sugando o sangue do trabalho vivo
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O Advento do tecnocapitalismo, porém, não leva ao cúmulo essa referência maior do capitalismo à vida, posta a descoberto pela “exploração”: ele a elimina, pois quando o trabalho vivo é globalmente lançado fora do processo real, assiste-se a verdadeiro agito, exigido pela finalidade própria do capitalismo mas tornado possível apenas pela ciência galileana
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A possibilidade de um desenvolvimento sem limites da técnica não se situa no capitalismo nem em sua nova finalidade, mas na própria técnica, mais originalmente na ciência galileana, que permite construir os dispositivos cada vez mais complexos cuja realidade é homogênea aos processos físicos que formam o correlato de seu saber
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Eis o princípio do universo tecno-capitalista, ponto de confluência e também de divergência entre capitalismo e técnica: o capitalismo suscitou o desenvolvimento técnico para diminuir o trabalho necessário e aumentar a mais-valia, mas esse hiperdesenvolvimento só ocorre porque a ciência galileana previamente o torna possível
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O desenvolvimento tecno-científico não apenas torna possível o capitalismo mas o condena à morte, pois este se apoderou das potencialidades tecnológicas apenas para produzir mais valor e dinheiro, mas a valor de troca tem sua fonte no trabalho vivo que o processo técnico exclui irreversivelmente à medida que o invade, tornando-se o processo real incapaz de criar valor de troca, dinheiro, capital, e assim de sustentar um processo econômico cuja própria existência se torna impossível
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A enorme contradição que solapa o mundo moderno não vem apenas do capitalismo, que exibe suas próprias contradições — mercadorias sem comprador por falta de dinheiro suficiente —, enfrentando à sua maneira a aporia constitutiva da economia mercantil, que ao dobrar o processo real por um processo econômico abria caminho ao seu conflito potencial
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Com a irrupção da técnica galileana e a extensão ilimitada de seu autodesenvolvimento, as dificuldades ligadas à economia mercantil e ao capitalismo assumem proporções fantásticas, eliminando a subjetividade do processo real tornado processo da própria técnica, tendendo a suprimir o valor, isto é, a possibilidade de os produtos se trocarem e cumprirem sua finalidade vital
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Um processo inteiramente automatizado produz valores de uso em quantidade indefinida mas nenhuma valor de troca, sendo esse desequilíbrio entre produção técnica pletórica de valores de uso e produção subjetiva cada vez mais fraca de valor de troca já a situação que se tem diante dos olhos
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Essa situação de crise, atribuída ao capitalismo mas efeito da tecnociência, caracteriza-se pela impossibilidade de vender o que se produz, havendo pletora de bens em toda parte mas faltando o dinheiro que permitiria adquiri-los, sendo as imensas reservas de capital acumulado nada diante das valores de uso que o processo técnico permite fabricar em série e diante das necessidades de milhões de seres votados à miséria
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As crises clássicas do capitalismo, provenientes do descompasso entre massa de produtos e insuficiência de dinheiro, são apenas sinais precursores de uma crise permanente que nenhuma medida pontual pode conjurar, sendo esse princípio, o da economia mercantil, cada vez mais incapaz de cumprir sua função, reconhecível tanto nas empresas florescentes, onde o “comercial” prevalece sobre o engenheiro, quanto no universo desolado da penúria e do desemprego
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Mais extraordinário ainda que essa impossibilidade recente de consumir o que se produz é que o traço mais decisivo do processo real tendendo à automatização integral é não mais produzir valores de uso no sentido tradicional — pão para comer, vinho para beber, roupa para vestir —, sentido que sempre foi prescrito pela vida fenomenológica do indivíduo vivo e cumprido em sua subjetividade sofredora e gozante
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Quando a técnica galileana invade o processo real reduzido a dispositivo objetivo, elimina-se não só o trabalho vivo mas também a valor de uso enquanto valor-para-a-vida, desaparecendo a subjetividade também do outro extremo do processo, já que seu fim não é mais constituído por objetos úteis à vida, tornando-se o próprio processo técnico o fim de uma produção que nele encontra sua realidade, como na criação de novos condutores ou materiais para as hipermáquinas às quais a produção se identifica
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Um processo de produção cujo funcionamento se reduz ao de um dispositivo material e cujo produto se constitui apenas dos elementos objetivos desse dispositivo é um processo em que nada mais subsiste da vida, um processo de morte
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Descobre-se assim a verdade terrificante: à negação teórica do indivíduo vivo no marxismo corresponde sua eliminação de fato no sistema tecno-capitalista, onde o próprio capitalismo está em vias de desaparecer em proveito da libertação completa da técnica e de seu autodesenvolvimento, situação já instalada nas “economias liberais” que se justapõem aos regimes socialistas agonizantes, portando ambas o luto da vida, tendo a morte dois rostos a escrutar com mais atenção